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Agronegócio brasileiro lida com impactos causados pela covid-19

Safras, sistemas de abastecimento, logística e exportações sofrem variações em meio ao surto do novo coronavírus

Agronegócio brasileiro lida com impactos causados pela covid-19
28/04/2020 • 8 min. de leitura

Responsável por desacelerar a economia da China nos primeiros meses do ano, o surto do novo coronavírus vem gerando impactos em diversos setores da sociedade, sobretudo no agronegócio. De acordo com o Escritório Nacional de Estatísticas (NBS), a produção industrial chinesa recuou 13,5% no primeiro bimestre de 2020, em comparação com o mesmo período do ano anterior. O resultado superou a marca de 3% prevista por especialistas.

Os primeiros casos de covid-19 surgiram em Wuhan no fim de 2019 e fizeram com que a China fosse o primeiro país do mundo a lidar com o surto da doença. Após três meses de combate à propagação do vírus, o país asiático, que registrava mais de 2mil novos casos por dia no início do ano, conseguiu estabilizar a crise com medidas de isolamento social.

Quando o número de mortos ultrapassou a marca de 3mil pessoas, a China implantou medidas severas, como o fechamento temporário de fábricas e indústrias, além de proibir a circulação de carros e transporte público nas cidades mais afetadas. Em meio à recessão, o governo chinês foi obrigado a desacelerar as atividades na economia mundial nos primeiros meses de 2020.

Sendo a segunda maior economia do mundo, com Produto Interno Bruto (PIB) avaliado em R$ 12,24 trilhões, a China representa o principal parceiro comercial do Brasil desde 2009, de acordo com o Ministério da Economia. As negociações com um dos países mais ativos no mercado de exportações geraram superavit de R$ 29,2 bilhões para os cofres brasileiros no balanço de 2019.

Impactos no agronegócio

Com o total de mortos pela covid-19 chegando a 100 mil até a primeira quinzena de abril, setores da sociedade começaram a atravessar períodos turbulentos após a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomendar que os governos internacionais adotassem medidas de isolamento social para conter os avanços do vírus.

Em especial, o agronegócio vem observando alterações na rotina de exportações e logística, além das constantes preocupações com o bem-estar das safras e da comercialização de animais.

Rotina diferente, expectativas semelhantes

Apesar do alerta ligado para as condições de higienização do mercado de agronegócio, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) indicou que a pandemia de coronavírus não deve ser suficiente para reduzir o PIB do setor neste ano. O estudo feito pela organização demonstrou que as perspectivas para a produção de grandes culturas, como grãos e café, seguem positivas, e o Brasil deve continuar tendo resultados relevantes, sobretudo na agropecuária.

De acordo com os pesquisadores, o mercado de produtos alimentares essenciais apresenta baixa probabilidade de diminuição de renda. O agronegócio é um dos setores da sociedade abordados pelo Decreto n. 10.282/2020 do governo federal, que salienta as atividades essenciais para o funcionamento do País e que devem prosseguir suas operações durante a pandemia.

Dados de março do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) corroboram as boas expectativas. As exportações do agronegócio brasileiro durante esse período foram de US$ 9,29 bilhões, o que representa expansão de 13,3% em relação aos US$ 8,2 bilhões de 2019.

A pandemia de coronavírus fez com que o comércio brasileiro estreitasse laços com oito países. Egito, China e Indonésia são algumas das nações que expandiram suas atividades de importação de carnes e pescados nacionais em 2020.

Abastecimento na América do Sul

(Fonte: Pixabay)
(Fonte: Pixabay)

A incerteza sobre o fim do período de quarentena aumentou a demanda dos supermercados no Brasil. Famílias correram para montar estoques de alimento e álcool em gel (importante ferramenta no combate ao coronavírus), o que resultou em prateleiras vazias em diversas partes do País.

Após a Federação de Agricultura e Pecuária de Santa Catarina (Faesc), a Associação de Supermercados do Estado do Rio de Janeiro (Asserj), o Sindicato dos Supermercados do DF (Sindsuper) e a Associação Paulista de Supermercados (Apas) registrarem alta na procura por suprimentos em suas regiões, autoridades locais fizeram questão de garantir à população que o Brasil não deve encarar problemas de abastecimento.

Seguindo recomendações de higienização da OMS, companhias estaduais de abastecimento, como a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), seguem operando com adaptações para conter o contágio de covid-19.

No começo de março, a Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, convocou uma videoconferência com países vizinhos para estabelecer medidas que protejam o transporte de cargas e alimentos pela América do Sul. A chamada reuniu representantes da Argentina, do Paraguai, do Chile, do Peru, da Bolívia e do Uruguai, que ressaltaram a importância da comunicação durante o período de crise. Com fronteiras rodoviárias fechadas para passageiros e turistas, os governos entraram em acordo para manter a rotina de abastecimento normalizada nos primeiros meses do ano.

Em inúmeras ocasiões, Tereza Cristina tranquilizou a população brasileira quanto a um possível problema no abastecimento em território nacional. Quando questionada pelo Estadão, a líder da pasta comentou: "Não temos risco de desabastecimento local. Nossa situação é favorável. Vamos cumprir todos os contratos com outros países, em sua totalidade. Não temos nenhum motivo para se preocupar com isso. Os acordos internacionais não correm riscos".

O impacto nas safras

(Fonte: Pixabay)
(Fonte: Pixabay)

O surto de coronavírus fez com que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) diminuísse a projeção de crescimento mundial em ao menos 0,5% para 2020. A perspectiva de aumento era de 2,9% em novembro de 2019, e o reajuste fez com que o número diminuísse para 2,4%.

Um dos fatores que auxiliam na queda dos números da economia mundial são os impactos que o novo coronavírus vem causando no agronegócio e nas safras de commodities no mundo todo. No Brasil, o mercado de algodão é um dos que mais sofrem com a pandemia. Com a desaceleração das atividades econômicas na China, um dos principais importadores de grãos brasileiros, é possível que o País sofra com uma queda pela demanda de seus produtos nos próximos meses.

O surto de coronavírus vem causando instabilidades também na Bolsa de Valores, fazendo com que o preço do algodão voltasse a recuar após uma sequência de altas. Com o avanço do vírus pelo mundo, o valor da commodity chegou a cair 7%, deixando o preço da libra-peso abaixo de 67 centavos durante fevereiro.

Soja

Outro grão que desperta estado de alerta no governo federal é a soja. Desde 2018, o Brasil é considerado o maior produtor do grão no mundo pela Organização Mundial do Comércio (OMC), sendo responsável por 56% das quantias negociadas no planeta.

Apesar de o presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil), Bartolomeu Braz, assegurar que o País não deve sentir impactos de curto prazo com queda nas vendas do produto, existe uma preocupação para os meses subsequentes.

Como os contratos para a venda de commodities são firmados com antecedência, o país sul-americano se encontra protegido de possíveis perdas no início do ano. Porém, caso o vírus continue causando limitações por um período maior, é possível que o Brasil perceba efeitos ainda maiores na economia.

Café

As expectativas para o cultivo de café seguem positivas em meio ao surto do novo coronavírus. Mesmo com quedas acentuadas no valor do produto, registradas pelo Cepea, o mercado interno deve observar aumento na liquidez com a aproximação da colheita da safra 2019/2020. De acordo com a instituição, será necessário escoar a produção, para liberar espaço para a nova safra e cumprir as necessidades de caixa.

O ano não vem sendo particularmente bom para os cafeicultores. Apesar de o relatório da Embrapa Café apontar aumento de 0,7% na demanda pelos grãos no mundo todo em relação aos 168,10 milhões de sacas consumidos no período 2018-2019, o Brasil registrou queda de 5,8% nas exportações internacionais durante os primeiros quatro meses do ano.

As safras de grãos particulares também devem registrar mudanças neste ano. A produção de café da espécie Arábica deve diminuir 3,9%, passando para 96,37 milhões de sacas, enquanto os grãos de café Robusta apresentam crescimento de 3,7%, alcançando a marca de 72,5 milhões de sacas.

Comercialização de animais

(Fonte: Pixabay)
(Fonte: Pixabay)

Com a suspeita de que o surto de coronavírus tenha se iniciado no consumo de carnes silvestres comercializadas na cidade de Wuhan, na China, as exportações desse produto podem sofrer forte impacto nos próximos meses. O governo chinês encerrou temporariamente as atividades do comércio de animais selvagens em Pequim, visto que existe uma preocupação com os efeitos que a aproximação entre humanos e espécies silvestres pode causar na disseminação da covid-19.

No Brasil, o Mapa anunciou, em nota oficial, que as exportações de carne brasileira não devem sofrer alterações. No comunicado, a pasta do governo garantiu que a Organização Mundial de Saúde Animal (OIE) não sinalizou qualquer restrição em relação à comercialização de produtos e de animais.

Com a paralisação desse comércio na China, o presidente da JBS, Gilberto Tomazoni, disse acreditar em um aumento no número de exportações de produtos brasileiros para o país asiático. Segundo ele, o cenário é parecido com o do surto da síndrome respiratória aguda grave (Sars), em 2000, quando se observou grande crescimento na importação de carne pelos chineses.

Produção de álcool em gel

(Fonte: Pixabay)
(Fonte: Pixabay)

Além da preocupação financeira, existe uma enorme atenção humana em torno do agronegócio. As usinas associadas à União das Indústrias de Cana-de-Açúcar (Unica) anunciaram, em março, a doação de álcool para a produção de gel e solução 70 para assepsia.

Com isso, a entidade pretende auxiliar as crescentes demandas pelo produto em unidades de saúde pública espalhadas pelo País. A OMS apontou o álcool em gel 70 como um importante produto no combate aos avanços do novo coronavírus, visto que a solução é eficiente na higienização de mãos e ambientes.

O aumento de casos diagnosticados de covid-19 fez com que farmácias, supermercados e hospitais registrassem a escassez de álcool em gel. A ação conjunta entre Unica, Mapa, Ministério da Saúde e secretarias estaduais de saúde é uma importante medida para que o Brasil consiga se manter firme na luta contra o vírus.

Etanol

O aumento nas ações de isolamento social pelo Brasil prejudicou o mercado de etanol no primeiro semestre do ano. Por isso, o governo federal passou a estudar ações que auxiliassem as usinas de cana-de-açúcar durante o período de quarentena. Em declaração para a imprensa, a ministra Tereza Cristina anunciou que está em estudo um plano para aumentar a Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico (Cide) para a gasolina e retirar os tributos PIS/Cofins para o etanol.

Com isso, os preços do etanol, que batiam marcas de R$ 2,16 por litro em março, despencariam para R$ 1,38 por litro durante abril. Visto que as usinas da Região Centro-Sul devem iniciar uma nova safra de cana em breve, o governo federal também planeja elaborar mecanismos de financiamento para o estoque de etanol, garantiu Tereza Cristina.

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Fonte: Embrapa, Estadão, Governo Federal e Reuters.