Distribuição de recursos tecnológicos é a receita para acelerar a agricultura 4.0 no Brasil

14 de novembro de 2019 4 mins. de leitura
Regulamentações e políticas públicas de incentivos foram os principais pleitos apontados pelos palestrantes do Summit Agronegócio 2019, evento organizado pelo Estadão

Agricultura 4.0 é o nome dado a um conjunto de tecnologias digitais interligadas por meio de softwares, aplicativos, sistemas, maquinários e sensores, que geram dados e ajudam o produtor rural na tomada de decisões no dia a dia no campo. A revolução que este arcabouço tecnológico está trazendo ao agronegócio brasileiro foi tema de um dos painéis do Summit Agronegócio 2019, evento organizado pelo Estadão.

Otávio Celidônio, superintendente do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar) de Mato Grosso e coordenador do Agrihub, explicou que, por estratégia, o setor agro no estado focou primeiro nos grandes produtores de soja para implantação da chamada agricultura digital. “É um processo de P&D [Pesquisa e Desenvolvimento], no início há muito erro, mudanças, e o pequeno agricultor não está financeiramente preparado para absorver essas falhas”, diz.

No entanto, Sergio Barbosa, gerente executivo da ESALQTec, incubadora tecnológica da USP Piracicaba, ressaltou que as cooperativas são o canal para esses pequenos produtores terem acesso a essas inovações. Jair Afonso Swarowsky, vice-presidente da Corteva Agriscience, compartilhou que a empresa fez uma pesquisa com seus clientes para saber quais eram as principais demandas nesse contexto.


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Para a surpresa do executivo, a fertilização em taxa variável foi o principal pleito dos entrevistados. “Estamos com uma parceria com a Embrapa para desenvolver um produto que recomende qual é a melhor aplicação para este fazendeiro”, diz Swarowsky. “Melhor aplicação no sentido de onde o dinheiro investido dará melhor resposta. Não necessariamente será onde o solo é menos fértil”, acrescenta.

Lúcio André C. Jorge, pesquisador da Embrapa São Carlos, abordou como os drones estão transformando a agropecuária brasileira. Nas lavouras de cana-de-açúcar, por exemplo, o combate da broca-da-cana (mariposa que causa grandes prejuízos à cultura) é feita com veículos aéreos não tripulados. Eles são usados como instrumento para liberar vespas, os inimigos naturais da mariposa.

Hoje a demanda de drones para o controle biológico e pulverização de líquidos é tão grande, que não há empresa suficiente para atender a demanda. No entanto, os palestrantes ressaltaram a falta de regulamentação do uso de drones no país. “Mas a pauta está no Ministério da Agricultura e, em breve, eles devem publicar alguma coisa”, diz Jorge. O pesquisador destacou que na Embrapa há muitas tecnologias embarcadas desenvolvidas para drones, mas faltam políticas públicas e financiamento.  “Principalmente para transferir, transformar a inovação em produto”, diz.

Triangulação entre governo, universidades e iniciativa privada é fundamental para a promoção de um ambiente favorável à inovação

Eduardo Polidoro, diretor de negócios de IoT da Claro, ressaltou a importância da conectividade rural para melhorar o gerenciamento nas fazendas. “A ideia é reduzir a ineficiência com dados concretos. Monitorar ativos, como caminhões e colheitadeiras”, diz. No caso do grupo Claro, há solução tanto de internet via satélite, quanto de internet móvel. “Conectividade satelital serve para algumas aplicações específicas, porém não gera mobilidade. É importante para levar a internet até um ponto e, de lá, distribuir com internet móvel”, acrescenta.

Hoje um dos maiores desafios para conectividade no campo é o licenciamento ambiental. Existe uma dificuldade imensa para conseguir as licenças para instalação de torres de telefonia. “Sem elas, não podemos implantar porque é crime”, explica Polidoro. Também presente no painel, Alan Lavi, cônsul geral de Israel em São Paulo, compartilhou como as tecnologias tornaram Israel um case de sucesso da agricultura com 2/3 do território classificado como deserto.

Neste ambiente árido, em que água vale ouro, os israelenses criaram uma série de soluções para o bom manejo dos recursos hídricos. “Hoje, 80% da água potável em Israel é reciclada para a agricultura”, explicou Alan. O cônsul também destacou a importância da triangulação entre governo, universidade e iniciativa privada para promover um ecossistema favorável à inovação.

Por Lívia Andrade

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