Tempos líquidos

25 de março de 2021 5 mins. de leitura
Práticas sustentáveis e inovações tecnológicas desempenham papéis fundamentais para se produzir mais sem aumentar as demandas hídricas

*Christian Lohbauer

Você não precisa ser fã de Guilherme Arantes para saber que Terra é sinônimo de planeta água, como diz a canção do compositor. Desde 1993, para conscientizar as pessoas sobre o uso desse recurso, o dia 22 de março foi instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) como o Dia Mundial da Água.


A água ocupa 70% da superfície mundial. Apenas 3% dela é doce. O Brasil, por sua vez, possui 12% da água doce superficial do planeta e 28% da disponibilidade hídrica no Continente Americano.


De acordo com a Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), os principais usos consuntivos (aqueles que retiram e consomem água do manancial, afetando a disponibilidade hídrica para outros usos) da água no país são o abastecimento humano (urbano e rural), o animal, a indústria de transformação, a mineração, a termoeletricidade, a agricultura irrigada e a evaporação líquida de reservatórios artificiais.


A agricultura é, segundo a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO), a atividade que mais consome água dentre todos os setores econômicos e, em alguns casos, ultrapassa os 70% do consumo total. No entanto, é importante dizer que, na agricultura, esse percentual deva ser relativizado, pois boa parte da água não utilizada pelas plantas retorna ao ambiente por meio da evaporação ou da penetração no solo, recompondo o lençol freático.


Em países tropicais, como o Brasil, a disponibilidade de água pelas chuvas é alta. Por isso, sua demanda na produção agrícola não deveria ser um problema em si. Mas, não se trata de uma questão simples assim, pois mesmo tendo a maior reserva hídrica do mundo o país sofre com secas e desabastecimento.


Dados do setor de Clima e Recursos Naturais da FAO apontam que até 2050 a demanda global de água aumentará de 20% a 30%. Atualmente, mais de três bilhões de pessoas em áreas agrícolas de todo o mundo sofrem com a baixa umidade do solo.


Portanto, a segurança alimentar e hídrica deve estar no centro das preocupações globais. A água é um recurso crítico na produção de alimentos. Em 2050, o planeta contará com cerca de 10 bilhões de habitantes. Até lá, a demanda por alimentos deve aumentar por volta de 60%. Ou seja, mais água para colocar comida no prato das pessoas.

Por isso, a ciência e as inovações tecnológicas desempenham papéis fundamentais para se produzir mais sem aumentar as demandas hídricas. A irrigação por gotejamento, por exemplo, pode reduzir em até 50% o consumo de água. Plantas e sementes geneticamente modificadas, tolerantes à seca, transpiram menos, melhorando a retenção de água e diminuindo a necessidade de irrigação.


Ferramentas da agricultura 4.0, como o monitoramento digital de plantas com sensores de umidade, imagens de satélite e análises de clima, solo e chuva podem gerar uma economia de até 60% de água para o produtor.

O manejo do solo é outro aspecto fundamental para garantir a disponibilidade hídrica. Uma terra bem conservada consegue reter mais água e realizar a evapotranspiração das plantas, o que contribui para o ciclo regular de chuvas. Um bom exemplo de prática conservacionista adotada de forma intensiva no Brasil é o plantio direto. A manutenção da palhada no solo cria um ambiente favorável aos organismos vivos e umidade.


Os sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta (ILPF) podem criar pequenos ecossistemas de maior eficiência hídrica. Um sistema ajuda o outro. As florestas fazem sombra e retém mais água pelas suas raízes ramificadas, deixando o solo úmido para a lavoura, pasto ou outra cultura. Enquanto isso, o gado fica menos exposto ao sol e sente menos sede. No saldo final, uma boa economia de água.

Todos esses recursos visam o uso racional desse recurso indispensável à vida e à prática de uma agricultura alinhada com os preceitos da sustentabilidade. Não se pode pensar em agricultura e desenvolvimento sustentável sem que haja um equilíbrio entre a oferta e a demanda de água.

Segundo a ANA, o Brasil tem 8,2 milhões de hectares equipados para irrigação, sendo 5,3 milhões de hectares (64,5%) com água de mananciais e 2,9 milhões de hectares (35,5%) com água de reuso. A agência aponta que o país tem potencial de expandir sua área irrigada em mais 4,2 milhões de hectares até 2040.


A agricultura irrigada, que responde por cerca de 40% de toda a produção mundial, proporciona uma produtividade até quatro vezes maior do que as áreas de sequeiro. Esse método de cultivo oferece também outras vantagens. Entre elas, melhor qualidade dos produtos, diminuição dos impactos da variabilidade climática e regularidade na oferta de alimentos.

Além do foco em produtividade é importante que o país invista em monitoramento e avaliação de risco de suas águas tanto para o consumo humano como para o meio ambiente.

A importância desse trabalho é justamente proporcionar a coleta e a reunião de dados e informações, com base científica, que podem contribuir para as discussões sobre usos e boas práticas de uso de defensivos na agricultura.

Adoção de tecnologia e práticas conservacionistas no campo, aliados ao monitoramento da qualidade das águas, representam importantes meios para que se possa celebrar o Dia Mundial da Água com o copo mais cheio do que vazio.

*Christian Lohbauer é doutor em ciência política e presidente executivo da CropLife Brasil

Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão.

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