Os riscos e armadilhas do tema sustentabilidade

26 de outubro de 2021 5 mins. de leitura
O benefício dos sistemas integrados é inquestionável sob qualquer uma das dimensões da sustentabilidade

Por Maurício Palma Nogueira 

Enganam-se os críticos que dizem que o Brasil não terá o que apresentar na COP-26, conferência da ONU sobre o clima que será realizada em Glasgow, na Escócia, que acontece no início de novembro. 

O plano para agropecuária de baixas emissões de carbono (Plano ABC) vem sendo implementado desde 2010, atendendo as metas iniciais de fomento a ações para remover carbono da atmosfera. Particularmente em 2021, além da renovação do plano ABC, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) apresentou todo o plano agrícola com maior foco em práticas conservacionistas. Reservados os verdadeiros problemas do Brasil, que ainda existem em quantidades indesejáveis, a agropecuária profissional brasileira tem trilhado na frente de outros países quando o assunto é produção sustentável.

Apesar da gritaria que se inicia quando essa afirmação é colocada em debate, o fato é que nenhum outro país agregou tanta produtividade como o Brasil, nos últimos 30 anos. Entre 1991 e 2020, considerando a soma de todos os produtos agrícolas e pecuários divididos por toda área disponível, as fazendas brasileiras aumentaram em 3,5 toneladas o desempenho de cada hectare. Passou de 1,4 tonelada em 1991 para 4,5 toneladas em 2020, um aumento de 250% na produtividade.  

Que outro país de tamanha importância agropecuária implementou o mesmo desempenho? 

Para o leigo, alimentado diariamente com doses de desinformações, essa conclusão pode parecer contraditória. Mas não é. Assim como ocorre em todas as atividades do mundo, existem os bons e os maus profissionais. No caso da agropecuária, a profissão acaba ainda sendo maculada pelas atividades dos proprietários de terra ou criminosos com intenção de se tornar um proprietário. 

É preciso separar ambos os casos sob pena de criarmos medidas que acabem por punir aqueles que operam dentro da legalidade. Medidas apresentadas por ONGs e pesquisadores que não aceitam incluir especialistas em produção em suas pesquisas, sempre alvejam a produção legalizada, organizada e que evolui do ponto de vista de compliance socioambiental. 

Justamente pela dificuldade de compreensão da realidade produtiva, característica de parte dos estudiosos de fora da área, é preciso redobrar o cuidado com a forma que os temas serão apresentados. 

No caso da pecuária, o descuido na comunicação vem criando um mito que poderá gerar problema lá na frente. Muitos já acreditam que pecuária sustentável seja sinônimo de integração com lavouras e florestas. 

O benefício dos sistemas integrados é inquestionável sob qualquer uma das dimensões da sustentabilidade. Isso não se discute. Quanto mais for implementado, maiores serão os benefícios. No entanto, não será possível fazer isso em toda a área de pecuária. 

As estimativas para áreas de integração no Brasil circulam entre 12,3 milhões e 14,5 milhões de hectares, dependendo da fonte de dados. A área de pastagens sem integração soma cerca de 153 milhões de hectares, dos quais estima-se que algo entre 8% e 12% poderiam receber produções integradas de alto desempenho. Assim, entre 15 e 18 milhões de hectares de pastagens estariam aptas a serem operadas no modelo de integração. 

Por outro lado, são cerca de 50 milhões de hectares para produção de grãos de primeira safra, sendo que 100% são tecnicamente passíveis de integração com pecuária, mantendo o alto desempenho produtivo. A integração tende a crescer muito mais pelo lado do agricultor do que do pecuarista, algo que já vem sendo observado no campo. 

Ambientalmente e economicamente não há problema algum. O constrangimento fica por conta da exclusão de pecuaristas de diversos tamanhos em todas as regiões do País. 

Naturalmente, essa exclusão já está em curso. O risco apresentado é em relação ao aumento da pressão sobre pecuaristas que terão maiores dificuldades em comprovar que operam com sustentabilidade. Isso tende a gerar dificuldades de acesso a créditos e até mesmo atrasos em implementação de técnicas, altamente eficientes, que poderiam mudar o processo de degradação de pastagens. Sendo assim, o ritmo de exclusão seria acelerado. 

Por exemplo, se há 10 anos tivéssemos começado a falar em recuperação de pastagens com uso de insumos agrícolas em superfície para evitar degradação dos pastos, na mesma proporção que falamos sobre integração durante todo esse período, qual teria sido o resultado? 

Qual seria hoje a quantidade total de área de pastos precisando de altos investimentos para reforma, sendo que essa condição poderia ter sido evitada? 

Reforçando, não se trata de questionar os benefícios da integração. São inquestionáveis. Trata-se de evitar que descuidos na comunicação criem um problema futuro e acabe por marginalizar produtores que estão sobre áreas que não poderão se integradas. E eles são a maioria. 

Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária 

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