Consumir carne é sustentável?

8 de dezembro de 2020 5 mins. de leitura
Maurício Palma Nogueira responde à pergunta e mostra o potencial da pecuária bovina tropical com o emprego de um pacote tecnológico similar ao da soja

Por Maurício Palma Nogueira 

Uma das maiores falácias criadas pela desinformação que margeia as discussões sobre sustentabilidade está relacionada ao consumo de carne. 

Ideologias, preconceitos, modismos e oportunismo criam bases para um mito que ganha cada vez mais força entre a sociedade de maior poder aquisitivo. Esse mito aponta que o consumo de carne bovina se contrapõe à sustentabilidade do planeta. Em tese, seria necessário desmatar extensas áreas para atender a demanda crescente. 

Estudos incompletos e embasados em premissas equivocadas associam erroneamente a relação entre desmatamento e pecuária. Essa relação existe, mas o erro está na diferenciação entre causa e consequência. 

A comunicação oportunista de empresas, posicionada em produtos substitutos às carnes, também reforça a onda de desinformação em torno do assunto. 

Somando todas as forças, gera-se um fluxo intenso de artigos, opiniões, documentários, filmes, entrevistas etc. Tal qual o estouro de uma boiada, a opinião pública vai sendo empurrada numa única direção que não permite enxergar a mais óbvia das conclusões. A relação humana com o consumo de proteína animal é inseparável, tanto é que cerca de 800 milhões de pessoas se alimentam diariamente de animais silvestres.

Esse montante equivale a pouco mais de 10% da população mundial e se concentra basicamente na Ásia e na África. Aglomerações inadequadas de animais silvestres, sem nenhuma garantia sanitária, é consequência dessa demanda. E são situações como essas que potencializam o risco de surgimento de um novo problema como o de Wuhan, na China, provável origem da pandemia. 

Pecuária brasileira pode saltar de 67 kg de carne com osso por hectare para 510 kg, se empregar o pacote tecnológico aplicado na cultura da soja (Foto: Alécio Cesar)

O Fundo Monetário Internacional (FMI) projeta uma queda de quase US$ 4 trilhões de dólares na economia entre 2019 e 2020, como consequência da pandemia. A destruição da economia global em um ano será três vezes maior do que o tamanho da economia brasileira. É como se três brasis desaparecessem do mundo em um ano.  Se analisarmos a histórica recente, não há evento individual mais impactante do ponto de vista de sustentabilidade do que a ocorrência da pandemia e os efeitos colaterais gerados. 

A ironia é que, enquanto uma elite global discute e se empenha em dificultar a disponibilidade de proteína para os habitantes do planeta, é justamente a solução encontrada pelo homem comum para driblar essa indisponibilidade que está entre as causas do maior impacto causado à sociedade em tempos de paz. Vale exercitar aqui a lembrança de que o conceito sustentabilidade envolve economia e sociedade. 

E o risco será maior nos próximos anos. Os números projetados pelo FMI para 2025 mostram que a economia nos países fora da OCDE (Organização para Cooperação Desenvolvimento Econômico) será de US$47 trilhões, equivalente a toda economia mundial de 2005. A OCDE reúne os países mais ricos do mundo. 

A demanda por proteína será grande. Se a demanda não for suprida com qualidade e garantia, ela será buscada na natureza, com seus consequentes impactos. Frear essa demanda é um despropósito que só poderia ser implementado através da força ditatorial. 

Mas fica para o final deste artigo a boa notícia. O potencial de produção de carne é maior do que acreditam os especialistas em projeções. Tivessem eles o cuidado de conhecer o desenvolvimento das tecnologias já implementadas a campo, compreenderiam que o Brasil sozinho seria capaz de suprir quantidades até maiores do que toda a oferta global de carne bovina atual. 

Se a pecuária brasileira aplicasse, em média, o mesmo pacote tecnológico proporcional ao aplicado na cultura da soja, a quantidade de carcaça (carne com osso) produzida por hectare saltaria de 67 kg para 510 kg por hectare / ano. Os dados são referentes à média de cinco anos de pesquisas conduzidas a campo pelas equipes do Rally da Pecuária, expedição técnica privada que avalia as condições da bovinocultura de corte no País. 

Nesse nível, apenas o Brasil, ocupando os atuais 164 milhões de hectares de pastagens, seria capaz de produzir 83 milhões de toneladas de carcaça, sendo que o mundo todo produz, atualmente, 72 milhões de toneladas. E ainda tem potencial para mais.  

Essa realidade já está no campo e é fruto do trabalho conjunto entre a pesquisa agropecuária brasileira e o empreendedorismo da iniciativa privada, seja nas fazendas ou fora dela. 

O empenho em limitar o consumo de carne bovina, além de ser embasado em falsas informações, irá gerar um risco enorme para os próximos anos. É para se refletir. 

*  Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária.

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