O agronegócio é parte da solução

30 de abril de 2021 4 mins. de leitura
Segundo CEO da JBS, tempo curto para mudança de hábitos exige rapidez

Entrevista com Gilberto Tomazoni, CEO Global da JBS

Por Mauricio Oliveira

Uma das maiores produtoras mundiais de alimentos, a JBS assumiu o compromisso de ser Net Zero até 2040 – ou seja, zerar o balanço de suas emissões de gases causadores do efeito estufa. Para isso, além de reduzir suas emissões, diretas e indiretas, a empresa promete compensar toda a emissão residual. “Vamos investir US$ 1 bilhão até 2030 para aumentar a nossa eficiência”, diz o CEO, Gilberto Tomazoni.

O agronegócio é frequentemente classificado como vilão da sustentabilidade no Brasil. Como responder a isso?

É preciso lembrar que o agronegócio tem o papel fundamental de alimentar uma população que vai continuar crescendo. Precisamos trabalhar para alimentar essa população de maneira cada vez mais sustentável. O jeito que a gente vem fazendo precisa mudar e o tempo é curto, porque poderemos chegar a um ponto de não retorno. O nosso programa Net Zero tem esse objetivo, de gerar ações efetivas.

Quando há desmatamento, é porque não estão sendo utilizadas as melhores práticas de produção. O Brasil tem uma grande oportunidade, por meio da pecuária moderna e da agricultura regenerativa, de mostrar que o agronegócio é parte da solução, e não parte do problema.

Como assegurar ações sustentáveis em toda a cadeia?

Hoje nós temos, no bioma amazônico, cerca de 50 mil fornecedores. Desses, 11 mil já estão bloqueados, por falta de comprovação de que atendem a nossa política de desmatamento zero ou por outros fatores.

Mas nós lidamos com uma cadeia muito fragmentada de fornecedores, espalhada por um território amplo. Temos os fornecedores diretos e os fornecedores dos nossos fornecedores. Não havia como monitorar nesse nível, mas agora a tecnologia de blockchain permite que tenhamos informações ao longo de toda a cadeia. 

Colocamos uma plataforma em construção no ano passado e estamos no processo de conscientização e integração dos fornecedores dos nossos fornecedores. Vamos garantir que, até 2025, 100% deles estejam sendo monitorados. E não vamos comprar daqueles que não estiverem enquadrados em nossas políticas.

Esse processo não poderia ser mais rápido? Por que 2025?

Dependemos do engajamento das pessoas, porque é um processo voluntário. Precisamos mostrar que, se o produtor adotar práticas mais modernas e sustentáveis, vai produzir mais e emitir menos. Uma propriedade que integra pecuária, produção de grãos e reflorestamento consegue aumentar a renda e sequestrar carbono, em vez de emitir. Nesse cenário, a decisão fica muito fácil e lógica.

Para impulsionar esse trabalho de conscientização, estamos montando 13 escritórios verdes no bioma amazônico. Essas bases vão ajudar os fornecedores a adotar práticas modernas e, também, a resolver problemas fundiários, apoiando o processo de adequação à legislação.

Um dos pilares da política de sustentabilidade da empresa é a conservação e recuperação de florestas. O que está sendo feito nesse sentido?

Criamos o Fundo Amazônia e queremos que esse fundo alcance pelo menos R$ 1 bilhão até 2025. Garantimos R$ 250 milhões e colocaremos mais um real para cada real que chegar de contribuição externa. O fundo trabalha a conservação e recuperação de florestas, mas também o desenvolvimento social e econômico das comunidades na Amazônia, onde vivem mais de 23 milhões de pessoas.

Os princípios ESG chegaram com força ao mercado brasileiro. De que forma contribuem para reforçar a estratégia de sustentabilidade da JBS?

A gente foi entendendo como esse problema do carbono é sério, o quão impactante ele é. Hoje, em vez de dizer que temos uma estratégia de sustentabilidade ou de ESG, estamos dizendo que a nossa estratégia é a sustentabilidade.

Nossos negócios precisam se subordinar a essa estratégia. Todas as decisões que vamos tomar, em qualquer área da empresa. O mesmo engajamento que estamos fazendo com nossos fornecedores de gado se aplica aos fornecedores de todos os outros tipos.

Mas a decisão não tem que ser porque alguém está pressionando, e sim por acreditar que isso é o certo a fazer, em primeiro lugar, e também porque é a única solução. Nós estamos no desabrochar de uma indústria poderosa, que é a indústria verde. Tudo isso que estamos falando não é uma ameaça para empresas e países, e sim uma grande oportunidade. Trata-se de uma nova revolução industrial. 

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