O que o agro brasileiro tem a ver com o Iêmen?

17 de fevereiro de 2021 5 mins. de leitura
O setor tem condições de resolver pelo menos um conflito do país árabe: a necessidade de alimentos

Embaixadores do Agro

Por José Luiz Tejon Megido*

O agro cresce na economia. Metade das crianças morrem de fome no Iêmen. “Não há mais espaço para ‘narrativas’. A hora é de ação”, escreveu Arthur Lira, presidente Câmara dos Deputados no Estadão do último domingo. 

Primeiro: todos os analistas concordam que o agronegócio foi o único setor que cresceu no Brasil em 2020 e continuará crescendo em 2021. Alvíssaras.

Segundo: fui chamado à atenção por Cléber Soares, diretor de Inovação do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), que me fez a seguinte indagação. “Qual o papel do Brasil na segurança alimentar global perante uma tragédia como a do Iêmen?”.  A pergunta me incomodou. 

Sem a crise causada pela Covid-19, o drama lá já era gigantesco. Agora a ONU alerta que metade das crianças do Iêmen sofrerão de desnutrição em 2021. E, segundo informação do jornal Estadão, “agências da ONU alertam ainda que cerca de 1 milhão e duzentas mil mulheres grávidas ou que amamentam também sofrerão de desnutrição aguda até o final do ano”.

Alimento básico na mesa dos brasileiros, o arroz e o feijão podem ajudar a combater a fome no Iêmen

O Iêmen vive um grave conflito com apoio de forças sauditas ao governo contra rebeldes houthis, que são apoiados pelo Irã. Ali ocorre uma mistura perversa de um conflito armado e colapso econômico. Mas há solução para um dos problemas, que é a fome: comida

E qual a conexão com o Brasil? Nos posicionamos hoje como um dos líderes na produção de alimentos no mundo. Mas como um país agro, enfrentamos problemas de comunicação e de imagem, como revelam as pesquisas e os técnicos brasileiros que atuam no exterior.

Neste contexto, tive um sonho. O Brasil poderia promover uma safra adicional – acima daquela classicamente consumida pelos mercados (como mercado, leia-se as pessoas com dinheiro para comprar) – em dois produtos, nos quais o Brasil é bom de produção: o arroz e feijão, que podem salvar seres humanos da morte pela desnutrição.

Imaginei um estímulo para o Brasil produzir 2 milhões de toneladas a mais de arroz, o que seria cerca de 20% a mais do que está previsto para a safra 2021. No feijão, produziríamos 1 milhão de tonelada a mais do que as 3 milhões de toneladas consumidas pelo mercado. E poderíamos somarmais produtos, como o milho branco.

Seria uma linha de agro da filantropia, que contaria com recursos de fundos internacionais, incluiria agricultores que hoje estão fora do mercado e, sem dúvida, seria a melhor campanha ética do Brasil para o mundo. As cooperativas poderiam exercer um papel extraordinário nesta iniciativa. Com certeza, as tradings também participariam. 

Metade da ação “Arroz e feijão do Brasil na luta anti-desnutrição” seria para brasileiros na linha da fome. E a outra metade para tragédias, como a do Iêmen. Nesta produção de alimentos contra a fome, subsidiada com preços mínimos assegurados aos produtores, poderíamos integrar 4 milhões de pequenas propriedades agrícolas do país, que teriam acesso a tecnologias e a novos caminhos.

Vocês podem dizer: “Tejon, isso é um sonho. Tem tanta coisa errada por aí, o desperdício, as guerras, o negacionismo científico. Será difícil controlar e separar o que é do mercado e o que seria dessa filantropia. O que podemos fazer?”.

Não iremos resolver o problema do mundo, mas para quem deseja se apresentar ao planeta como fundamental na segurança alimentar, alguma coisa o Brasil deve e pode fazer.

É indigno pessoas morrerem de fome. Como país do agronegócio, passamos a ter um dever, uma agro consciência. Podemos iniciar um agro consciente, onde o mercado e a filantropia caminhem juntos, em total sinergia.

Terceiro: Na política, conforme escreveu Arthur Lira, “não há mais espaço para ‘narrativas’. A hora é da ação”. Logo, que tal um planejamento, a partir do agro brasileiro, para o crescente mercado para os produtos nacionais? Precisamos de uma estratégia que dobre o tamanho do agro, incluindo todo setor industrial, comercial e de serviços com foco de o Brasil alcançar um PIB de US$ 4 trilhões até 2030.

E por que não fazer isso e, ao mesmo tempo, atuar numa missão filantrópica, como a questionada por Cléber Soares. Chega de diagnósticos e narrativas. O Brasil precisa agir, precisa de um plano estratégico.

Possível? Por que não? 

Como já dizia Raul Seixas: “Sonho que se sonha só, é só sonho. Sonho que se sonha junto, é realidade”

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*José Luiz Tejon Megido é doutor em Educação pela UDE – Uruguay; mestre em Arte, Cultura e Educação pela Universidade Mackenzie; professor de MBA na Audencia Business School, em Nantes, na França; coordenador do Agribusiness Center da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP); sócio-diretor da Biomarketing e membro do Conselho Científico do Agro Sustentável (CCAS) e do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag), da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a o opinião do Estadão.

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