Pacificação é mais produção. Precisamos dobrar o agro de tamanho

26 de maio de 2021 4 mins. de leitura
Brasil exportou US$ 8,5 bilhões em 2020; somos o maior em frangos no mundo, o quarto maior em suínos

José Luiz Tejon Megido

Ovos, frangos, pescado, suínos e o leite querem continuar abastecendo a população brasileira, mas estão em risco. E a música do dia é o carro do ovo do Zeca Pagodinho: “A galinha chorou, chorou de felicidade chegou o carro do ovo pra fortalecer nossa comunidade”. Mas o carro do ovo, do frango do suíno, estão em grave risco dos custos estratosféricos de produção.

Conversei com Ricardo Santin, presidente da Associação Brasileira da Proteína Animal (ABPA), um setor essencial do agro nacional. O Brasil exportou o ano passado cerca de US$ 8,5 bilhões. Somos o maior em frangos no mundo, o quarto maior em suínos. O setor também é responsável por 4 milhões de empregos.

Mas, além disso, tudo é o ramo que tem conseguido ainda oferecer comida de qualidade em meio à pandemia. No ano passado 2020, a produção cresceu 5,5% nos suínos, 6,5% nos frangos e 9,1% nos ovos.

Nos ovos, cada brasileiro passou a comer 251 ovos por ano. Exportamos menos ovos em função da opção do brasileiro com sacrifício da renda ter obtido nessa rica proteína uma alternativa para sua nutrição. No frango, mais de 45 quilos per capita, é de longe a carne mais consumida no País.

Muito bem, mas tudo isso tem um grave problema. A proteína animal come. E precisa de ração. Comem milho e soja. E milho e soja com preços internacionais multiplicados por três antes da pandemia. Com o dólar acima de R$ 5 está colocando o ramo dos ovos, frangos, suínos numa impossibilidade, numa inviabilidade econômica.

Então, Ricardo Santin me disse que não é possível aumentar o preço ao consumidor e não queremos isso. Mas 70% do frango, por exemplo, é soja e milho e ambos aumentaram de janeiro 2019 até maio 2021, o milho 180% e a soja 140%.

Além dos grãos, aumentou tudo: embalagens, caixas de papelão e o diesel. Em abril, o índice de custo de produção de frango no Brasil, somando tudo, cresceu 39,79%.

Nas gôndolas dos supermercados, o índice de preços ao consumidor amplo IPCA do IBGE, nos últimos 12 meses, base abril frango cresceu 15%, os suínos 20%. Muito abaixo da elevação dos custos de produção.

Dessa forma, Santin apresentou ao governo uma série de medidas para manter frangos, aves, suínos e ovos, no carro do ovo do Zeca pagodinho fortalecendo a comunidade.

  • Precisa flexibilizar imediatamente a importação de grãos, exportar grãos é fácil, importar muito difícil;
  • Autorizar importações de soja e milho dos Estados Unidos exclusivamente para ração animal;
  • Suspender o imposto adicional ao frete para renovação da marinha mercante para importação destes produtos nas regiões extramercosul;
  • Suspensão temporária de PIS-Confins para as importações para empresas que não conseguem fazer o drawback;
  • Criação de um sistema oficial antecipado de exportações futuras de grãos, como ocorre em outros países, dando transparência a esses insumos e evitando especulação;
  • Financiamento para construção de armazéns para guardar grãos.

Santin ainda me disse que se os grãos utilizados para produzir a proteína animal que exportamos, cerca de US$ 8,5 bilhões, fossem vendidos apenas como grãos ao exterior teriam gerado no máximo US$ 2,5 bilhões. Quer dizer: a agroindustrialização de frangos, ovos, suínos, fundamentalmente multiplica por quase quatro vezes o valor agregado.

Agronegócio sem planejamento estratégico vira cassino internacional. Ótimo neste momento para soja e milho, terrível para aves, suínos e ovos. E, na virada do ciclo, ocorre ao contrário. Agropolarização não interessa.

A curto prazo, nada mais resta a fazer do que o governo urgentemente à ABPA atender. Para que o carro do ovo do Zeca Pagodinho: “Não deixe as comunidades sem a felicidade de se fortalecer”. Planejamento estratégico do agro, fundamental doravante amigos. Pacificação é mais produção. Precisamos dobrar o agro de tamanho.

*José Luiz Tejon Megido é colunista do Jornal Eldorado, doutor em Educação, mestre em Arte, Cultura e Educação pela Universidade Mackenzie; professor de MBA na Audencia Business School, em Nantes, na França; coordenador do Agribusiness Center da Fecap; membro do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) e do Conselho Científico do Agro Sustentável (CCAS) e sócio-diretor da Biomarketing

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