Ceia farta e segura

31 de dezembro de 2020 5 mins. de leitura
Muito antes do alimento chegar à mesa, agricultores, empresas e governo trabalham em conjunto para garantir qualidade na produção agrícola

Por Christian Lohbauer*

Se um dos primeiros homens modernos (Homo sapiens sapiens) desembarcasse no Brasil na virada de ano ficaria estupefato ao descobrir que um semelhante seu é capaz de viver cerca de 76 anos. Habituado a uma expectativa de vida de apenas três décadas ele aprenderia que tamanha longevidade só foi possível, entre outros motivos, graças aos avanços da ciência, às mudanças nos hábitos de higiene e à alimentação – tanto no que se refere à quantidade e à variedade de alimento disponível quanto à sua qualidade. 

O Homo erectus, seu antepassado, já havia dominado o fogo há cerca de 1,8 milhão de anos e pôde evoluir porque a comida cozida exigia menos tempo para mastigar. Era mais nutritiva, saudável e, sobretudo, mais segura. 

Hoje, cozinhar o alimento continua sendo um método eficiente para diminuir riscos na alimentação. Aliado a esse hábito primitivo, existe um cardápio vasto e variado de tecnologias e regulamentações que confere segurança àquilo que se planta, se colhe, se transporta, se armazena e se comercializa. Do campo à mesa, agricultores, agrônomos, pesquisadores de diversas áreas, empresas públicas e privadas, universidades e o governo trabalham em conjunto para que a saúde e a integridade física do consumidor não corram riscos – especialmente numa agenda sanitária dominada pela Covid-19.   

Cada vez mais eficientes e seguros  

A disponibilidade de defensivos é essencial para a segurança alimentar e a sustentabilidade dos cultivos agronômicos. Afinal, os defensivos são produtos químicos, físicos e biológicos que auxiliam na proteção das plantas cultivadas.

A indústria de defensivos agrícolas investe no conhecimento científico e na inovação para entregar aos agricultores produtos cada vez mais seletivos, sendo, por consequência, mais eficientes e seguros. 

Com o avanço da ciência, defensivos agrícolas hoje têm dosagem oito vezes menor do que a praticada na década de 70 (Foto: Getty Images)

A redução das dosagens ao longo do tempo evidencia esses aspectos. No país, os produtos de aprovação mais recente são aplicados em doses oito vezes menores do que aqueles desenvolvidos até a década de 1970. São defensivos mais seguros para o agricultor, o consumidor e o meio ambiente.

Do ponto de vista toxicológico também houve grandes avanços. O Quociente de Impacto Ambiental (EIQ na sigla em inglês), por exemplo, é uma ferramenta que permite avaliar riscos para o agricultor, o consumidor e o meio ambiente. De 2002 a 2015, os EIQs obtidos para o uso de todas as classes de defensivos agrícolas no país nas culturas de soja, milho, cana-de-açúcar e algodão apontaram uma tendência significativa de queda nos riscos, com reduções de 51%, 37% e 34% nos valores para o trabalhador, o consumidor e o ambiente respectivamente.   

Alimento monitorado 

A avaliação e aprovação de agrotóxicos pelos órgãos reguladores continua seguindo as mesmas regras rigorosas estabelecidas há décadas. A partir de sua descoberta, uma nova molécula com potencial para uso agrícola leva, em média, 12 anos para chegar ao mercado. Nenhum produto é autorizado para uso sem a comprovação de segurança à saúde e ao meio ambiente. 

Desde 2001, o Brasil conta com um sistema de monitoramento de resíduos em alimentos, o Programa de Análise de Resíduos de Agrotóxicos em Alimentos (PARA) coordenado pela Anvisa em conjunto com os órgãos estaduais e municipais de vigilância sanitária e laboratórios estaduais de saúde pública. No biênio 2017-2018 foram coletadas 4.616 amostras. Os resultados dessas avaliações revelaram que 99,1% dos alimentos monitorados eram seguros para consumo humano. O potencial de risco agudo para os consumidores brasileiros foi identificado apenas em 0,89% do total testado (41 amostras).   

O Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), por sua vez, possui o Plano Nacional de Controle de Resíduos e Contaminantes em Produtos de Origem Vegetal (PNCRC). Na cadeia produtiva, o MAPA e a Anvisa estabeleceram, em 2018, procedimentos e prazos para a aplicação da rastreabilidade de produtos vegetais frescos. Outro mecanismo de rastreamento é o programa da Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS), que desde 2006 monitora hortaliças, frutas e verduras comercializadas em redes de supermercados.

O conceito de rastreabilidade dado pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) é a “habilidade de seguir a movimentação de um produto por estágios específicos de produção, processamento e distribuição.” A rastreabilidade de alimentos é um processo tão minucioso que consegue mostrar aos consumidores, quais, e como, as práticas agronômicas foram empregadas na produção desse alimento. A implementação desse sistema no setor agrícola brasileiro teve início em 2018 quando foi aprovada a Instrução Normativa Conjunta nº 2 (INC2).  Ao identificar os produtores rurais e orientá-los ou puni-los, quando for o caso, a rastreabilidade se insere na produção agrícola confirmando a segurança dos alimentos comercializados no Brasil em todas as suas etapas. 

Assim como o fogo, a aplicação da ciência, tecnologia e regulamentação compõem ferramentas valiosas para conferir segurança aos alimentos que chegam às nossas casas. 

*Christian Lohbauer é doutor em ciência política e presidente executivo da CropLife Brasil.

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