Sem planejamento ficamos ao sabor do vento

30 de outubro de 2020 3 mins. de leitura
Tejon analisa as oportunidades do agronegócio e o que precisa ser feito para o sucesso do setor

Por José Luiz Tejon Megido*

O choque da pandemia desmontou a normalidade da demanda e da oferta de safras. A China passou a comprar mais do que nunca por questões de segurança alimentar e da reforma de toda a sua suinocultura. Mas atenção: não comprou mais somente do Brasil e da América do Sul. Comprou muito mais dos Estados Unidos. Comprou mais commodities norte-americanas e de tudo.

Dessa forma os preços subiram.

Conversei com a diretora de commodity da bolsa de Chicago, Suzan Sutherland, e ela me disse estarem os preços elevados, incluindo aspectos de clima e ser também este ano um ano de la niña, um efeito climático que costuma provocar seca na América do Sul, mais ao sul, e ainda mais é totalmente imprevisível o que vai ocorrer nos cenários do agro com a vitória ou de Trump ou de Biden. É tudo incerto.

Com o efeito da desvalorização do real perante o dólar, e de exportarmos mais, termos sido mais demandados, a transformação do dólar alto em real baixo gerou ótima remuneração ao produtor das exportações brasileiras.

E agora? A pandemia revelou o que a ausência de previdência, de planejamento traz, e também mostrou por outro lado que poderíamos estar vendendo muito mais ao mundo, além de vender com maior valor agregado.

O que precisamos? Planejamento estratégico do agro. Quanto deveríamos produzir para atender contratos? Como estimular e garantir essas produções com estímulo a transformação de pastagens degradadas em agricultura de baixo carbono, por exemplo, e da mesma forma o que precisamos ter para o mercado interno brasileiro abastecer?

E isso não se faz com discursos e vieses políticos e ideológicos. Isso se faz com planejamento estratégico em trabalhos desenvolvidos por grupos público-privados, nos quais governo entra para sacramentar as decisões.

E os contratos precisam ser estimulados entre agroindústrias, tradings e os comerciantes internacionais de commodities.

Contratos.

Aqui, nesta coluna do Estadão, fomos os primeiros a trazer o grave assunto do crescimento dos preços do arroz e do óleo de soja. Estávamos no início de setembro quando, alertados pelos supermercados, anunciamos o problema e agimos falando com a ministra Tereza Cristina, com a Conab, a Abiove e participando das reuniões dessas entidades.

O fato é que agricultura exige planejamento. Se não o fizermos e combinarmos entre as partes e os elos do agronegócio, ficaremos ao sabor do vento. E o pior, dando oportunidade para oportunistas manipularem a opinião pública jogando uns contra outros, e estes versus aqueles…

Hora do planejamento, antes tarde do que nunca.

*José Luiz Tejon Megido é doutor em Educação, mestre em Arte, Cultura e Educação pela Universidade Mackenzie; professor de MBA na Audencia Business School, em Nantes, na França; coordenador do Agribusiness Center da FECAP; membro do Conselho da Secretaria de Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo, e sócio-diretor da Biomarketing