Reformar para crescer ou crescer para reformar?

23 de dezembro de 2020 6 mins. de leitura
José Luiz Tejon Megido mostra a força do agronegócio nacional para impulsionar o desenvolvimento do Brasil e fomentar mudanças

Por José Luiz Tejon Megido*

A maldição dos 2%, ou seja, o crescimento pífio do Produto Interno Bruto (PIB) do país foi o tema do editorial do jornal O Estado de S. Paulo deste último domingo. Especialistas da Confederação Nacional da Indústria (CNI), do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) concordam que, sem reformas, o Brasil estará condenado à mediocridade de um PIB insuficiente para proporcionar uma vida digna aos brasileiros. 

O Brasil saiu do grupo das dez maiores economias do mundo para o 12º lugar com um PIB na casa de US$ 1,4 trilhão. Isso significa que somos menos de 10% da economia chinesa, mesmo sendo um país com dimensões continentais com potencial para ser muito mais.

Segundo Robson Braga, presidente da CNI, “o desafio é a transição para a retomada do crescimento sustentável acima dos 2%”. E junto com esse olhar seguem os pedidos de reformas: eliminação do custo Brasil; fim da insegurança jurídica; reforma tributária e administrativa. Da mesma forma a OCDE afirma que a “produtividade será o motor do crescimento”. E, ao final do editorial, surge o enigma da esfinge, do decifra-me ou te devoro: “tudo isso requer um governo competente e voltado para as grandes questões sociais”.

Peter Drucker, grande sábio da administração mundial, escreveu: “não existem países subdesenvolvidos, existem países sub administrados”. E não para por aí, ele ainda adiciona: “o crescimento é resultado das oportunidades e não da solução de problemas”.

Exportações do agro têm sustentado a balança comercial brasileira

Dessa forma, precisamos trazer para o desafio do crescimento do Brasil os exemplos da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Nestes lugares, encontramos inspiração para crescer mesmo sob circunstâncias adversas. O Valor Bruto da Produção Agropecuária (VPB) deverá ultrapassar R$ 1 trilhão em 2021. Dentro da agropecuária brasileira temos produtividade, ciência e educação.

Setores como o de frango, suínos e carne bovina venceram todas as dificuldades e abriram mercados para o país. O mesmo acontece com os segmentos de açúcar, de produtos da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ), de milho e algodão. O café – que alguns julgavam sem futuro na década de 80 – se transformou num estilo de vida, num nível acima da commodity, e não para de crescer. A soja – que nos anos 70 era alimento de “hippie”, se tornou o principal produto da balança comercial brasileira. E o agro nacional ainda pode exportar arroz e feijão com marcas como Camil, Kicaldo, entre outras.

O Brasil também pode reconquistar espaço para a borracha e para o cacau; aumentar a produção de trigo no Cerrado, isso sem contar as oportunidades com a hortifruticultura, com o pescado, com os produtos lácteos, vinhos, mel e flores. Enfim, o nosso país tem um rol de produtos à disposição dos administradores, alimentos produzidos no conceito de agricultura de baixo carbono e da bioeconomia, que envolve vários biomas, como o amazônico.

São várias empresas que superaram os obstáculos dentro do Brasil. Temos o exemplo da Agropalma, padrão de excelência, sustentabilidade e produtividade da palma, e das batatas Rocheto, o maior grupo produtor do tubérculo no país. Também temos o cooperativismo agroindustrial e as cooperativas agrofamiliares do Norte e Nordeste, como a Coopercuc, que exporta as compotas e doces de frutos do sertão para França, Itália e Áustria. 

Isso mostra que o crescimento do país vai muito além de esperar a ação do governo, envolve a sociedade civil organizada. Liderança é o grande desafio e a resposta para a esfinge de Tebas – que perguntava aos passantes “o que de manhã tem quatro patas, ao meio-dia duas e três ao entardecer?” – era simples: “o ser humano”.

De manhã, o bebê engatinhava, quatro patinhas. Ao meio-dia andava, duas pernas. No final do dia, envelhecia e se apoiava na bengala, três patas. A resposta era óbvia, mas ninguém respondia e a esfinge os devorava. Da mesma forma, o que o Brasil precisa fazer para alcançar um PIB de US$ 5 trilhões em dez anos? Precisa envolver quais poderes: setor público ou setor privado? Eu diria que o prudente seria englobar os dois. Mas, se o setor privado esperar pelo público, a esfinge dos 2% o devorará.

O salto do crescimento brasileiro virá do agribusiness e passa pelas confederações empresariais e pela Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), que integra o antes, dentro e depois porteira das fazendas, o que envolve um planejamento estratégico público-privado de todas as cadeias produtivas, do A, de abacate, ao Z, de zebu. Incluindo também o T, de turismo agroecológico.

Alguma novidade nisso? Não, muito pelo contrário. Bastar olhar os cerca de US$ 100 bilhões de exportações do agro para identificar os líderes que realizam, o que muitos ficam esperando para quando os “problemas forem resolvidos”.

A saída do Brasil não está em reformar para crescer. Está, sim, em crescer e reformar. E no macro setor do agronegócio, que impacta direta e indiretamente toda a economia do país, está o “mapa da mina”. Minha torcida é que as lideranças da sociedade civil se unam e façam um planejamento integrado pelo país, estabelecendo objetivos e metas. O PIB do agribusiness brasileiro precisa atingir US$ 1 trilhão na soma do total de suas cadeias para dar musculatura ao país na busca de um PIB total cinco vezes maior.

Feliz natal, vamos fazer a nossa parte.

*José Luiz Tejon Megido é doutor em Educação, mestre em Arte, Cultura e Educação pela Universidade Mackenzie; professor de MBA na Audencia Business School, em Nantes, na França; coordenador do Agribusiness Center da FECAP; membro do Conselho da Secretaria de Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo e sócio-diretor da Biomarketing.

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