O imperativo de deixar a “quarentena” comercial

22 de fevereiro de 2021 4 mins. de leitura
O Brasil precisa avançar na construção de acordos comerciais para não perder a liderança conquistada nas exportações mundiais de aves e suínos

Por Ricardo Santin e Luís Rua*

Não faz muitos meses, a China — nossa maior parceira comercial — fez um anúncio histórico e se tornou signatária do RCEP — Parceria Econômica Regional Abrangente, na tradução livre. Japão, Coreia do Sul, Singapura, Vietnã, Mianmar e nações como Indonésia e Tailândia também aderiram ao bloco, formando o maior acordo de livre comércio do planeta.

Para o setor da proteína animal, há um significado especial. A Ásia é o principal drive do aumento das exportações brasileiras — quase 40% dos embarques têm como destino os portos do continente. É de lá que vem parte das tendências do comércio internacional do setor, e o consumo segue em ascensão.

Analisado mais de perto, a China é destino de metade das exportações brasileiras de carne suína, e compra um quinto do frango embarcado para fora do país. O Japão é o terceiro maior cliente de aves e um dos dez principais importadores de suínos. Coreia do Sul, Singapura e Vietnã são mercados emergentes. A Indonésia é um dos países mais ambicionados pelo setor avícola internacional — com medidas protecionistas sobre as quais ganhamos painel na Organização Mundial do Comércio (OMC). A Tailândia é o principal concorrente asiático no setor de aves.

O RCEP é mais um entre os acordos anunciados ao qual o Brasil assiste de longe. E isso não é um movimento recente. A visão global de economia dos anos 90 ascendeu pela construção de acordos entre os players do mercado internacional — quadro que ganhou força no início deste século. O Brasil fixou seus olhos no próprio mercado, ampliando Acordos de Cooperação Econômica (ACEs) com países latino-americanos ou, via Mercosul, com a assinatura de tímidas parcerias com Palestina, Líbano, Israel e Egito. Deixamos o mundo conectar-se e nos tornamos uma das economias mais fechadas do mundo. Da janela vemos a celebração de pactos que roubam a nossa competitividade. 

O Brasil é o maior exportador mundial de carne de frango e o quarto maior no segmento de suínos

Vejam o caso do Vietnã, valioso mercado da Ásia que sofre os efeitos da crise sanitária da Peste Suína Africana. O país perdeu 25% da sua produção nos últimos dois anos e importou volumes maiores de proteína animal do Brasil em 2020. E compraram mais da Rússia — que já foi nosso principal importador de carne suína. Agora, observe a diferença de competitividade. Os embarques russos têm tarifa zero, e nós pagamos uma taxa de 15%. 

Desde 2000, a Coreia do Sul tem se empenhado em construir acordos. Lá, pagamos 25% sobre as exportações. Os maiores concorrentes da Europa e da América do Norte não pagam qualquer taxa. O resultado: após a assinatura do acordo entre Coreia do Sul e União Europeia, as  exportações de carne suína da Alemanha saltaram de 4 mil toneladas, em 2010, para mais de 110 mil toneladas, em 2019. 

O Brasil tem se esforçado para resgatar o tempo perdido. Os ministérios da Agricultura, da Economia e das Relações Exteriores conquistaram oportunidades em mercados estratégicos. Fechamos acordo com a União Europeia e o EFTA – Associação Europeia de Livre Comércio – por meio do Mercosul. Falta a ratificação, negociação que, por causa de uma minoria das nações-membros desses blocos, não dá sinais de avanço rápido. E o protecionismo de poucas nações do bloco europeu congela, por ora, a esperança de um grande acordo. 

Hoje, o Brasil lidera as vendas mundiais de carne de frango e ocupa o quarto posto entre os exportadores de carne suína. Temos competitividade agroindustrial e câmbio favorável. Mas seguir isolado em um mundo super conectado pode estabelecer prazo de validade a essa liderança. Precisamos avançar, deixar a “quarentena” comercial e conquistar nova posição no cenário global. São milhões de empregos e bilhões de divisas em jogo.

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*Ricardo Santin é presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

*Luís Rua é diretor de Mercados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão.

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