Liderar ou não liderar: eis a questão

27 de dezembro de 2020 5 mins. de leitura
José Luiz Tejon Megido mostra a força do agronegócio nacional para impulsionar o desenvolvimento do Brasil e fomentar mudanças

Por José Luiz Tejon Megido*

O sábio da administração contemporânea Peter Drucker (in memorian) escreveu: “os conhecimentos por si só são estéreis. Somente tornam-se produtivos se forem soldados em um só conhecimento unificado. Tornar isso possível é tarefa da organização, a razão de sua existência, a sua função”. 

Outro sábio criador do conceito de agribusiness em Harvard nos anos 50, Ray Goldberg, ao lado de John Davis, concluía que o futuro de tudo o que fosse originado nos campos dependeria tanto da etapa que antecede a produção (insumos, máquinas, ciência), quanto do sistema pós-produção: a agroindústria, comércio e serviços. Estava criado o conceito de agronegócio, em uma interdependência total de todos os seus elos, “um conhecimento unificado”.

No Brasil, outro visionário foi Ney Bittencourt de Araújo (in memorian), um entusiasta da visão de Ray Goldberg, que em 1993 criou a Associação Brasileira de Agronegócio (Abag), exatamente para executar a integração das cadeias produtivas, reunindo os agentes do antes, dentro e pós-porteira das fazendas, “um conhecimento unificado”.

Na academia, quase ao mesmo tempo, o professor doutor Décio Zylberstayn, da FEA – USP, iniciava o Programa de Estudos dos Sistemas Agroindustriais (PENSA), “um conhecimento unificado”.

Um marco teórico no Brasil surgiu na forma de um livro em 1990: “Complexo agroindustrial – o agribusiness brasileiro”. A obra foi escrita por Ney Bittencourt, Ivan Wedekin, Luiz Antônio Pinazza e teve a participação de Elisio Contini, Coriolano Xavier e José Luiz Tejon. Contou também com apoio da Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), da Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA), do Estado de S. Paulo e OESP Mídia.

Na virada de um ano que vai virar o mundo ao contrário, estes registros servem para resgatar aquilo que nunca muda daquilo que já mudou e não para de mudar: a inovação. Este discernimento é o papel vital do líder. O fator decisivo para os próximos dez anos estará na qualidade da inteligência estratégica do país, da liderança e da competência de gestão.

Na inteligência estratégica nacional cabe olhar o óbvio: o agronegócio. Segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), o setor representa 23% do Produto Interno Brasileiro (PIB) do país. No meu “feeling” pessoal representa 35%, porém será necessário provar isso com estudos difíceis de serem feitos.

Neste patamar, entre 23% e 35%, já podemos inferir que – indiretamente – o setor impacta outro tanto na economia do Brasil. É possível concluir que metade do PIB brasileiro está ligado ao agronegócio, um sistema gerador e distribuidor de renda, envolvendo toda a agropecuária, a indústria, o comércio e os serviços. Se o agro não é tudo, pode-se afirmar que é “quase tudo” e o desafio está então transformá-lo “em muito mais”. O setor tem o objetivo de dobrar de tamanho. Caminhar para US$ 1 trilhão na soma total, o que envolve desde a semente desenvolvida pelo geneticista, passando pelo produtor rural e chegando ao consumidor final.

Esta liderança precisa vir da organização e orquestração das cadeias produtivas. A ciência precisa conversar com todos os stakeholders e também com os consumidores destes alimentos. Os supermercados precisarão dialogar com agricultores, agroindustriais e setor de serviços sobre rastreabilidade e selos de conformidade e qualidade. As ONGs serão convocadas para a gestão consciente desse novo capitalismo. As cooperativas, cada vez, mais terão como filosofia a inclusão. E a inovação irá depender da qualidade da educação para ser eficazmente aplicada e virar lucro.

De algo romântico, a sustentabilidade vem agora integrada ao conceito de agribusiness.  “O agronegócio virou um sistema de saúde com meio ambiente”, como costuma dizer Ray Goldberg, hoje com 94 anos.

O futuro do agronegócio na década que se inicia depende necessariamente de olharmos cada cadeia produtiva, do A de abacate ao Z de zebu como uma integração de seus agentes, com um planejamento estratégico voltado ao acesso dos mercados internacionais e construção de imagem e comunicação, que são fundamentos do marketing de vendas para conquistar e manter tanto clientes, como consumidores.

Nos últimos 50 anos, o Brasil deixou de ser importador de alimentos e alcançou cerca de US$ 100 bilhões por ano em exportações do agronegócio. E uma lição fica: onde exportamos, criamos tecnologia e progredimos abastecendo, da mesma forma, o mercado interno. Onde não exportamos, o país estacionou não progrediu na mesma velocidade. Por isso acessar mercados globais diversificando produtos e territórios é essencial para esta nova gestão.

O que nos falta para assim liderar? Peter Drucker respondeu da seguinte forma: “resultados decorrem do aproveitamento de oportunidades e não da solução de problema. Solução de problemas apenas restaura a normalidade. Oportunidades significam explorar novos caminhos”.

O Brasil chegou aonde chegou criando oportunidades. O conhecimento unificado explica as cadeias produtivas onde o país cresceu versus aquelas onde patinou.  O agribusiness como um sistema de saúde, valorizando a originação, faz das famílias agrícolas do país e do símbolo das árvores uma metalinguagem universal representando oportunidades e agregação de valor.

Basta liderar. Eis 100% da questão. Feliz 2021. 

*José Luiz Tejon Megido é doutor em Educação, mestre em Arte, Cultura e Educação pela Universidade Mackenzie; professor de MBA na Audencia Business School, em Nantes, na França; coordenador do Agribusiness Center da FECAP; membro do Conselho da Secretaria de Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo e sócio-diretor da Biomarketing.

Lívia Andrade