Indústria da saúde animal pode ser fundamental para a saúde humana: vacinas de covid-19

31 de março de 2021 5 mins. de leitura
Conhecimentos e plantas industriais podem ser aproveitadas para a fabricação de imunizantes

*José Luiz Tejon Megido

Depois da informação de que a indústria da saúde animal pode auxiliar na fabricação de vacinas contra o novo coronavírus, perguntei como isso pode ser feito.

“Basta ter a vontade de instituições, que tenha acesso à tecnologia da
coronavírus inativada, conversarem com as indústrias de vacinas da febre
aftosa dentro do Brasil”, disse Emílio Salani, vice-presidente do Sindicato
Nacional das Indústrias de Produtos para a Saúde Animal (Sindan), que
apresentou a proposta ao senado brasileiro nesta semana.

Salani acrescenta que a imunização contra a covid-19 não vai ser resolvida neste ano nem no próximo, e precisaremos produzir e aperfeiçoar as vacinas ao longo de todos os próximos anos. O Brasil precisa de plataformas perenes sobre a covid-19. O Sindan oferece seu conhecimento e plantas industriais para a saúde humana.

O Brasil pode, em até sete meses, ter independência na vacina covid-19 a partir da indústria da saúde animal.

Além de Salani, conversei com outras três fontes legítimas a respeito dessa revelação fundamental para o País em meio a esta crise pandêmica. Temos em elevado estado de qualidade quatro unidades industriais no Brasil, que hoje produzem vacinas contra febre aftosa, que podem ser adaptadas em velocidade para produção a partir de vacinas inativadas. E teremos o IFA, princípio ativo, nos tornando independentes desse insumo externo. Essas plantas são: Ceva; MSD, em Montes Claros (MG); Ouro fino, em Ribeirão Preto; e Boehringer.

A outra fonte ouvida foi Gubio de Almeida, que atuou como diretor de operações por 19 anos da MSD, a Merck Sharp & Dohme, e hoje dirige a consultoria GJ estratégia de negócios. Da mesma forma, o especialista me relembrou que os maiores laboratórios da saúde humana no mundo são também organizações da saúde animal, como a própria MSD.

Gubio também adicionou que hoje a empresa brasileira que está negociando para fazer a vacina Sputinik V no Brasil, a União Química, tem um braço na saúde animal, a Agener União. Segundo Almeida, precisaremos, ao lado da Anvisa, acertar aspectos regulatórios e protocolos, mas da mesma forma considera totalmente viável e desejável essa hipótese.

Sebastião da Costa Guedes, membro da Academia Brasileira da Medicina Veterinária e do grupo internacional da erradicação da aftosa, também ex- presidente da Bayer divisão animal e ex-vice-presidente do Sindan, acredita que em 90 dias poderíamos ter as melhores plantas industriais que fazem vacinas de altíssima biossegurança, em quantidade expressiva e com protocolos internacionais, pois a carne para ser exportada segue protocolos de alta exigência na vacinação.

Da mesma forma, ele adiciona a logística e a cadeia do frio para levar vacinas aos pontos mais distantes do Brasil.

A quarta e última fonte ouvida foi o professor doutor de biotecnologia na
Unicamp, Joaquim Machado, que também considera factível essa ideia. Antes tarde do que nunca. Fica a pergunta: por que só lembramos isso um ano depois do início da pandemia no Brasil?

Como sempre, as palavras do ex-primeiro ministro britânico, Winston Churchill (1874-1965), na Segunda Guerra Mundial, enfrentando o avanço nazista, dizia: “Nunca tantos deveram tanto a tão poucos”.


Emílio Salani me explicou que o assunto iniciou com o Ministério da Agricultura levantando a possibilidade por conhecer o estado elevado da competência instalada no Brasil de produzir vacinas, devemos registrar a ministra Tereza Cristina.

O outro estímulo veio do senador Wellington Fagundes (PL-MG), médico veterinário, com experiência no enfrentamento de doenças na pecuária. E o Instituto Butantan tem participado desses contatos iniciais com o setor da indústria da saúde animal.

Na previsão dos especialistas poderíamos, a partir de sete meses, iniciar a produção nacional com o princípio ativo IFA, para 400 milhões de unidades, e principalmente… não irá terminar nunca esse processo. Precisaremos continuar pesquisando e aperfeiçoando as vacinas para 2022, 23 etc., assim como no combate a outras doenças que tem ciclos de vacinações anuais.

Dessa forma, saúde humana e animal, vegetal e ambiental, viveremos cada vez mais uma só saúde.

A necessidade é a mãe da criatividade e precisa de velocidade. Que a partir da semana de 29 de março possamos salvar vidas de brasileiros e do mundo, a partir do Brasil. Seria uma grande virada.

Temos tecnologia e know-how no País e podemos fazer, e tem gente valorosa mostrando como fazer.

*José Luiz Tejon Megido é colunista do Jornal Eldorado, doutor em Educação, mestre em Arte, Cultura e Educação pela Universidade Mackenzie; professor de MBA na Audencia Business School, em Nantes, na França; coordenador do Agribusiness Center da Fecap; membro do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag) e do Conselho Científico do Agro Sustentável (CCAS) e sócio-diretor da Biomarketing

Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão.

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