Dependência da China não é exclusividade do Brasil

21 de dezembro de 2020 5 mins. de leitura
Ricardo Santin fala do surto de peste suína africana, que levou o gigante asiático a abater boa parte do seu plantel de suínos e ir ao mercado em busca de proteína animal

Por Ricardo Santin*

Foi em meados de 2018 que um dos mais críticos momentos da história da produção de proteína animal mundial alcançou os planteis de suínos instalados em território chinês.  Pouco se falava, até então, da expressividade do país asiático como produtor e a população global se assustou ao perceber que metade da carne suína existente no mundo era chinesa.  Grande parte dela produzida em quintais, em condições equiparáveis aos velhos chiqueiros de nossos avós.

A imensidão do plantel, as condições e a proximidade das unidades produtoras criaram as condições perfeitas para que uma mortandade de animais sem precedentes se espalhasse pelo território chinês. Até áreas mais industrializadas de suínos foram alcançadas. 

Naquele momento, havia pouco mais de cinco anos desde a abertura chinesa para a carne suína do Brasil, com apenas seis plantas habilitadas.  Em condições mais vantajosas, as exportações de aves – com a abertura da China em 2009 – contava com mais de 30 plantas habilitadas, e já tinha no gigante asiático um de seus principais destinos. 

As primeiras projeções indicavam perdas de 10% no rebanho chinês – o que já era espantoso e representava um impacto de mais da metade do trade internacional de carne suína, de cerca de 9 milhões de toneladas.  Era apenas o começo da crise sanitária e, em meados de 2019, já se falava em uma lacuna anual de mais de 13 milhões de toneladas.  Em 2020, a produção anual chinesa, que era em 54 milhões de toneladas no início da crise, deverá fechar o ano com total de 38 milhões de toneladas produzidas – em torno de 16 milhões de toneladas a menos.

Esta disrupção redesenhou o comércio internacional de proteínas. As importações chinesas de carne suína deram um salto sem precedentes e o Brasil foi impactado. Não havia carne suína suficiente no mundo para atender a demanda chinesa.  Por isso, outros setores, como a carne de frango, também foram fortemente pressionados pelas importações chinesas.

China é o principal destino da carne suína brasileira desde 2019; neste ano os embarques para o gigante asiático representaram 50% da produção

Por aqui, vimos a China assumir o primeiro lugar absoluto dos nossos negócios internacionais já em 2019, destino de 14% das exportações de aves e de 33,6% dos embarques de suínos.  Em 2020, estes índices cresceram para, respectivamente, 17% e 50%. 

Não demorou e a forte relevância chinesa sobre as exportações brasileiras acionaram ‘alarmes’ em diversos setores da sociedade – alguns inesperados e equivocados. Outros, porém, destacaram preocupações legítimas, como a forte predominância da China entre os destinos de exportações do Brasil.  Nos negócios com a nação asiática estão mais de US$ 1 bilhão em vendas, apenas em aves e suínos. São divisas e empregos que dependem desta boa relação construída entre os exportadores brasileiros e os importadores chineses.

Este, porém, não é um fator exclusivo do Brasil. A já mencionada disrupção chinesa gerou seus efeitos em todos os grandes exportadores mundiais.  Hoje, a China representa 63% das exportações da União Europeia, 36% das vendas dos Estados Unidos e 44% para os exportadores canadenses.  Estes, junto com o Brasil, representam os quatro principais players do comércio internacional de carne suína. 

Obviamente é meta do Brasil construir novas oportunidades para as exportações brasileiras do setor.  Em suínos, Canadá, União Europeia, Peru, Japão e México são apenas alguns dos mercados que estão na mesa de negociação para abertura e expansão dos negócios.  

Mas, ao mesmo tempo, a expressividade chinesa não é motivo de tensão.  A recomposição do plantel, impactado pela Peste Suína Africana (PSA), está em curso.  Há promessas feitas pelo governo da China de que o rebanho de matrizes volte aos antigos patamares já em 2021. A oferta de carne suína, entretanto, deve levar mais tempo.  Instituições, como o banco holandês Rabobank, apontam esta retomada entre dois e três anos. 

O conselho de Estado chinês decidiu que a meta de autossuficiência de carne suína deverá ficar em 95%.  Neste contexto, ainda restará uma lacuna de três milhões de toneladas – mais que o dobro do que era importado antes do surto de PSA em 2018.

Estes números respaldam a estratégia brasileira e dos demais fornecedores.  A necessidade de ampliar o leque de destinos é ponto de atenção e preocupa.  Os níveis de demanda, não.

*Ricardo Santin é presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA).

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