Carne brasileira: a pegada hídrica mais ambiental do mundo?

8 de abril de 2021 4 mins. de leitura
Informações equivocadas deram conta de que seriam necessários 19,5 mil litros de água para cada quilograma de carne produzido

Maurício Palma Nogueira*

Qualquer que seja o assunto relacionado à carne e aos impactos ambientais que esteja em discussão, a desinformação estará sempre presente. O debate conduzido por leigos, ainda que bem intencionados, é contaminado por interesses ideológicos. Informações que possam sugerir o malefício da produção de carne serão usadas de maneira descontextualizada, parcial e exagerada. Exemplo disso é o uso da água na produção.

Em 2010, após a publicação do artigo “The green, blue and grey water footprint of farm animals and animal products”, os entusiastas do catastrofismo entraram em euforia. Por má fé ou desconhecimento, divulgaram informações que sugeriam a presença de até 5 mil litros de água em um bife de 250 gramas. Parece até piada.

Essa informação vinha da conclusão do estudo de que para produzir um quilograma de carne bovina eram necessários 14,4 mil litros de água. No Brasil seriam necessários 19,5 mil litros para cada quilograma produzido. Prato cheio para que diversos ataques fossem formulados contra a produção brasileira.

Mas o que os números diziam, de verdade? Quantos articulistas, que mencionaram o eventual desperdício de água para a produção de carne, sabiam de fato do que tratava o estudo?

O nome do artigo já deixa claro que há uma classificação entre as diferentes formas de uso da água. Para resumir, a água verde é aquela proveniente da chuva que será incorporada no ciclo de evapotranspiração das plantas. A água no solo volta à atmosfera de duas formas: por evaporação direto do solo para o ar ou por transpiração, entrando pelas raízes e saindo pelas folhas depois de levar nutrientes para toda a planta.

A água classificada como azul é proveniente de captação, tanto superficial via rios ou lagos, ou através de poços acessando a água subterrânea dos lençóis freáticos.

Por fim, água cinza é aquela cujo uso demandará tratamento. É água de impeza de currais, frigoríficos, indústrias etc. Para efeitos comparativos, praticamente todo uso de água urbano é considerado como cinza.

Explicadas as diferenças, voltamos aos números. No mesmo artigo, os autores concluem que a participação de água verde no Brasil é 99% do total, enquanto a média mundial é de 94%. Em outras palavras, enquanto na média mundial são captados 930 litros de água, dos quais 445 litros precisarão ser tratados, para produzir 1 quilograma de carne bovina, a pecuária brasileira capta apenas 195 litros, dos quais apenas 82 litros precisarão de tratamento para voltar à natureza.

A conclusão dos articulistas, implícita nos dados, era extremamente favorável à produção brasileira e ainda assim foi usada de forma negativa, ludibriando a opinião pública do país. O conceito de água verde é o mesmo por trás da formação dos rios voadores da Amazônia, sempre lembrado como benefício ambiental pelos mesmos que detratam o uso da água pela pecuária brasileira.

O artigo é de 2010 e, portanto, os dados que o embasam tendem a ser mais antigos. Ainda assim, partindo do pressuposto que a realidade de 2010 era a indicada pelo estudo, analisamo o que teria acontecido entre 2010 e 2020 em relação à pegada hídrica brasileira.

Em dez anos, a pecuária brasileira agregou 29% na produtividade de carne por hectare. O desfrute, ou seja, a produção em quilogramas de carne por quilogramas em estoque (animais do rebanho) aumentou 13%. Considerando a base de dados usada no estudo, e estimando o ganho apenas com essas duas variáveis, é possível concluir que, no período, a pegada hídrica da pecuária brasileira tenha reduzido cerca de 5 mil litros por quilograma de carne, chegando a quase 14 mil litros de água. Ainda assim com 98,7% da água classificada como verde.

Nenhuma pecuária do mundo agregou produtividade como a brasileira. Por isso os demais sistemas de produção, em países relevantes na produção de carne, têm pouco a oferecer em termos de avanços com relação ao uso da água. Diferente da realidade que observamos por aqui.

Recentemente, a Embrapa Pecuária Sudeste divulgou resultados de estudos que estão sendo conduzidos em relação à pegada hídrica por brasileiros especialistas em produção no ambiente tropical. O estudo possibilitará conhecimento mais abrangente para embasar decisões que possam ser implementadas e assim melhorar a eficiência ambiental, econômica e social da produção de carne.

*Maurício Palma Nogueira é engenheiro agrônomo, diretor da Athenagro e coordenador do Rally da Pecuária.

Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão.

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