Cadeia do agronegócio precisa dialogar melhor com a sociedade

10 de fevereiro de 2021 6 mins. de leitura
É fundamental que a indústria de insumos e demais elos do agro se comuniquem melhor com os consumidores finais

Por José Luiz Tejon Megido*

Na vida prática, nunca estivemos tão próximos da definição de agribusiness cunhada pelos professores Ray Goldberg e John Davis, da universidade de Harvard dos anos 50. Eles costumavam dizer que “agribusiness é uma integração absoluta dos elos do setor de alimentos desde a ciência, insumos, passando pelos agricultores, agroindústrias, supermercados, comércio, serviços, chegando até o consumidor final, o cidadão”.

Alimentos e seu modo de produção, tecnologias utilizadas, insumos, mecanização, gestão do ambiente, tudo isso vira sinônimo de “saúde”. Saúde de plantas, de animais, de pessoas, de funcionários de frigoríficos, de indústrias, de transportadores, de supermercadistas, etc. Entramos em 2021 dentro de um complexo agroalimentar batizado em inglês de “Health System”, sistema de saúde. 

Dentro disso, o setor de fertilizantes, um segmento vital dentro da produção agrícola mundial, dá um ótimo exemplo. Nos Estados Unidos foi iniciado um programa de comunicação sobre os fertilizantes para toda a sociedade batizado de NFL, “Nutrients For Life”, nutrientes para a vida. 

No Brasil, a Associação Nacional para a Difusão de Adubos (ANDA) tem um programa batizado de NPV, Nutrientes Para a Vida. A proposta é iniciar um diálogo para criar a consciência de que os fertilizantes, além de serem o insumo número 1 do país, são importantes para a produtividade, para a saúde do solo e – consequentemente – para a saúde humana. Solos e plantas bem nutridos geram alimentos mais saudáveis e mais nutritivos. E o Programa Nacional de Levantamento e Interpretação de Solos no Brasil (Pronasolos), da Embrapa, vem aí para amplificar ainda mais esse valor.

A Associação Brasileira de Supermercados (ABRAS) tem o programa RAMA, Rastreabilidade e Monitoramento de Alimentos, na hortifruticultura

A iniciativa da ANDA deve inspirar os demais segmentos de insumos a dar início a um diálogo urgente com os consumidores finais, pois eles são os clientes finais dos agricultores. Em outras palavras, o que não for explicado para o consumidor não será adotado pelo produtor.

Os supermercados brasileiros já atuam com um programa chamado RAMA – Rastreabilidade e Monitoramento de Alimentos – na área da hortifruticultura. A Associação Brasileira dos Supermercados (ABRAS) criou esta iniciativa para dar certeza aos seus consumidores sobre a segurança dos alimentos dentro dos padrões da lei. E, mais, agora inicia uma divulgação nos seus pontos de vendas sobre a qualidade nutricional de cada produto.

A proposta da ABRAS é transformar seus quase 90 mil pontos de vendas em pontos de educação. E os produtores rurais junto com as empresas de insumos e de rastreabilidade estão unidos com a finalidade de que os agricultores recebam certificações, como a Global Gap.

Pesquisa recente do IBOPE sobre a percepção dos brasileiros a respeito do meio ambiente constatou que 77% deles consideram importante proteger o meio ambiente. Ao mesmo tempo, apenas uma fatia de 25% se considera bem informada sobre aquecimento global e mudanças climáticas. Em paralelo, a organização Human Rights Watch informou que a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) “se prepara para revisar o status do Brasil em sua próxima reunião de fevereiro a respeito de impactos ambientais”.

O universo das percepções determina o curso das realidades. É preciso que os setores industriais, comerciais e de serviços estabeleçam um diálogo educativo com a sociedade, com os consumidores finais. E que não deixem isso somente por conta dos produtores rurais, que são o elo mais frágil do sistema e, de fato, merecedores de proteção. 

Na mesma pesquisa do Ibope realizada no último trimestre de 2020, 77% da população considera que as queimadas são oriundas de ações humanas e há um dado preocupante para a classe dos produtores rurais: 49% acredita que os agricultores são os responsáveis e 48% culpa os pecuaristas e criadores de animais. Isso revela um erro de percepção da sociedade, pois dados de analistas sérios mostram que a responsabilidade desses atos está na ilegalidade de criminosos e não nos produtores rurais.

Cabe ao setor da ciência, tecnologia, insumos modernos, como fertilizantes e defensivos, produtos veterinários, rações, sementes, genética, micronutrientes, mecanização, digitalização, telecomunicações e internet de 5ª geração falar com o povo, com os consumidores finais, clientes dos produtores e, indiretamente, de todos esses elos. 

Na linha da frente, precisaremos mais de programas como o RAMA, da ABRAS, além de modelos como os existentes nos Estados Unidos e no Canadá, onde a Erin Cote – uma ex-aluna minha da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP) / Audencia Business School, em Nantes França – assumiu o Canadian Center for Food Integrity (CCFI). Trata-se de uma organização interempresarial formada para separar fatos de mitos e conscientizar a população a respeito de alimentos e bebidas.

No Brasil, o Instituto de Tecnologia de Alimentos (Ital) faz um ótimo trabalho, que precisa ser mais promovido, difundido e valorizado pelas corporações agroindustriais. Por enquanto, parabéns ao setor de fertilizantes com o Nutrientes Para a Vida. 

O programa cria valor, sentido e autoestima para todas as famílias dessa indústria, dos canais de distribuição, das equipes de vendas e das famílias agrícolas, que mais do que olhar para suas fazendas, para o lucro e para a produtividade, aprenderão que são agentes importantíssimos da saúde humana, contribuindo para a nutrição dos consumidores finais do mundo inteiro.

Para finalizar, eu retomo a seguinte frase: “O que não for explicado para o consumidor final não será vendido ao produtor rural”. Fornecedores de ciência, de tecnologia, de insumos para o campo, para as águas e para os mares precisam se comunicar com todo cidadão. Saúde é agrocidadania e, muito antes da originação, isso se inicia com a ciência. 

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*José Luiz Tejon Megido é doutor em Educação pela UDE – Uruguay; mestre em Arte, Cultura e Educação pela Universidade Mackenzie; professor de MBA na Audencia Business School, em Nantes, na França; coordenador do Agribusiness Center da Fundação Escola de Comércio Álvares Penteado (FECAP); sócio-diretor da Biomarketing e membro do Conselho Científico do Agro Sustentável (CCAS) e do Conselho Superior do Agronegócio (Cosag), da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão

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