Agronegócio: decifra-me ou te devoro!

26 de junho de 2020 6 mins. de leitura
 José Luiz Tejon Megido comenta a importância da união para um agronegócio forte no Brasil

Por José Luiz Tejon Megido*

Assim como o mito da esfinge de tebas precisava ser decifrado pelas pessoas que ali passavam para não morrer, o agronegócio, tradução de agribusiness, se não for decifrado destruirá os membros que ignorarem sua completa definição.

Em 2020, celebramos 63 anos da criação desse código “agribusiness“ pelos professores Ray Goldberg e John Davis, na Universidade de Harvard ,nos Estados Unidos, em 1957. E ainda é um enigma não decifrado, até hoje, por muitos líderes e membros desse sistema de cadeias produtivas trazido para o Brasil por Ney Bittencourt de Araújo, que foi presidente da agroceres e fundador da Associação Brasileira de Agronegócio (Abag), em 1993.

No Estadão, dia 21 de junho, líamos: “Temor de prejuízos com imagem negativa do governo no exterior racha agronegócio“. E essa rachadura, se não for estancada, pode virar a causa de crises criadas por nós mesmos totalmente desnecessárias.

O mestre Ray Goldberg, com 93 anos, hoje inspira grupos de diversas tendências no International Food & Agribusiness Management Association (Ifama), e adiciona na definição de agribusiness não apenas “a soma total da agropecuária, insumos, mecanização, transporte, armazenagem, agroindustrialização, comércio e serviços dos produtos originados nos campos“ , como inclui ecologia e medicina, afirmando ser doravante o agronegócio um “health system“, sinônimo de saúde em todos os sentidos. Poderíamos afirmar que agronegócio será doravante uma agrocidadania , a sua única futura via.

Nessa matéria do Estadão, dois líderes muito influentes no setor, como Pedro de Camargo Neto, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira (SRB), e Marcello Brito, atual presidente da Abag, são apresentados como representantes “de um lado do agronegócio“, enquanto Nabhan Garcia, secretário especial de Assuntos Fundiários do Ministério da Agricultura, afirma por seu lado que “Camargo e Britto não representam o agronegócio“.

Da mesma forma no eixo da crise, parte do ministério do meio ambiente, outras vozes exclamam: “São fazendeiros da Faria Lima, que nunca pisaram no campo“. (Colocação infantil, nesse caso. Conhecem muito bem o campo, porém poderiam nunca ter pisado no campo e serem líderes fortíssimos do agronegócio, como muitos torrefadores de café alemães, italianos e muitos processadores e traders holandeses, portugueses, mexicanos, brasileiros etc.).

Estamos sem dúvida em uma grande enrascada. Muita gente ainda não entendeu o que é agronegócio! E ao usar os estudos do Cepea-Esalq (USP), mostrando ser esse macro setor responsável por cerca de 23,6% do PIB, por ignorância, associam esse valor de forma total a um dos elos dessa cadeia produtiva, a agropecuária. Sem dúvida a originação agrícola brasileira significa um fator crítico de sucesso fundamental para o país. Entretanto, sem agroindústria, a ciência e tecnologia, o comércio e os serviços que envolvem tudo o que agronegócio é, jamais teríamos chegado onde chegamos. E com certeza existindo outro tanto para dobrar de tamanho nos próximos 10 anos.

No Brasil, dividimos esses elos do agronegócio em: antes, dentro e pós porteira das fazendas. Dessa forma o PIB do agronegócio, os 23,6%, transformados em 100 para compreensão do tamanho de cada parte, são aproximadamente: 10% no antes (insumos, máquinas, tecnologias), 30% no dentro (a agropecuária propriamente dita), e 60% no pós porteira das fazendas (agroindústria comércio e serviços).

Dessa forma quando falamos de agronegócio na sua definição correta não existe separação entre o “ Zecão“, excelente produtor rural de Lucas do Verde. E “Sousa“, CEO da Cargill que, reiteradamente, tem pedido que parte do governo brasileiro pare de falar mal de um dos nossos clientes, a China, por exemplo.

E para continuar seguindo Ray Goldberg, no Ifama, é necessário adicionar ecologia, medicina, saúde humana e ambiental dentro desse decifrar o novo agronegócio: agrocidadania.

De fato, abaixo-assinados de consumidores europeus contra produtos originados no Brasil. Matérias em jornais chineses criticando a soja do Brasil em função do desmatamento ilegal da Amazônia, Trump o maior concorrente do pais com um talento inquestionável de “Hard sell“ , agricultores europeus e de outros países competidores incomodadíssimos com a inegável vocação brasileira para originar e agroindustrializar no cinturão tropical do planeta , a má imagem nos faz e fará muito mal .

Muito importante que as lideranças acordem, despertem, decifrem o agronegócio, e também que possamos acordar, combinar as superficiais diferenças com a certeza de que fora de uma visão estratégica de cadeias produtivas não temos futuro. A líder Teka Vendramini, atual presidente da SRB, se posiciona corretamente na busca do “meio“ a conciliação. Da mesma forma a Ministra Tereza Cristina, uma heroica brasileira, acaba de dar início a um plano plurianual da agropecuária ao lado de João Martins , presidente da Confederação Nacional da Agropecuária (CNA), fundamental para nosso futuro. E tomara que incluam a indústria o comércio e o serviço. Sim, sem produtores e produtoras rurais não temos agronegócio. Mas, sim, também, sem geneticistas, agrônomos, veterinários, zootecnistas, caminhoneiros, bancos e seguradores, cooperativas, comerciantes, comunicadores, supermercados e agroindustriais, e o mais importante, não haverá agronegócio algum sem o consumidor final, o meio ambiente, a saúde. Afinal agronegócio com agrocidadania é doravante a única nova via .

Líderes, uni-vos. Chicago e corn belt uma coisa só. São Paulo e Cerrado, demais biomas, da mesma forma.

Decifra-me ou te devoro. Não precisamos sofrer por ignorância. Na FIA-USP, temos o PENSA, programa de estudos do sistema agroindustrial criado pelo prof Decio Zylbersztajn, no início dos anos 1990, e hoje comandado pelo prof Cláudio Pinheiro Machado. Uma fonte séria e de elevada reputação nessa questão além de outras brilhantes academias no país. A Abag, da mesma forma, tem a missão de orquestração de todos esses elos, e além do campo inclui a indústria da alimentação, supermercados, e dezenas de entidades e empresas de todos os elos dessa extraordinária corrente que salva nossa economia – agronegócio. doravante: agrocidadania.

*José Luiz Tejon Megido é doutor em Educação, mestre em Arte, Cultura e Educação pela Universidade Mackenzie; professor de MBA na Audencia Business School, em Nantes, na França; coordenador do Agribusiness Center da FECAP; membro do Conselho da Secretaria de Justiça e Cidadania do Estado de São Paulo, e sócio-diretor da Biomarketing

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