A agrometeorologia digital pode alavancar a eficiência agrícola

22 de janeiro de 2021 5 mins. de leitura
O processamento computacional de dados meteorológicos é uma ferramenta estratégica para facilitar o dia a dia nas fazendas, auxiliando desde o plantio até a colheita

Por Felipe Gustavo Pilau*

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Atualmente, o cenário da segurança alimentar está se transformado com as projeções que indicam que o planeta alcançará 9 bilhões de habitantes em 2050 e mais de 10 bilhões em 2100. Neste contexto, a fome, o abastecimento de água e energia e o clima futuro passaram a ser temas cotidianamente discutidos. Será preciso aumentar a produção agrícola mundial em até 60% para alimentar essa população. Tal necessidade implica em um desafio adicional, uma vez que o incremento da produção não poderá ser unicamente baseado na ampliação da área cultivada, mas precisará vir do aumento da produtividade da área agrícola consolidada. Tudo feito com alta eficiência no uso de insumos, especialmente água, com o mínimo impacto sobre o clima global. 

Esse cenário complexo e difícil coloca o Brasil em destaque. O país tem potencial para atender a boa parte da demanda projetada. Internamente, a estrutura e a relevância do setor agropecuário na economia nacional destacam a oportunidade que se apresenta ao país nas próximas décadas, sugerindo uma reflexão sobre que modelo agrícola poderia atender a esse novo patamar de demanda global por alimentos. 

Nessa conjuntura, as pesquisas direcionadas ao pleno entendimento das relações solo-planta-atmosfera são fundamentais. A análise da variabilidade dos elementos meteorológicos possibilita definir os locais e épocas propícias para a produção de alimentos. O conhecimento se ampara na escolha do material genético mais apropriado ou na necessidade de melhoramento vegetal. Também auxilia a quantificação da necessidade de água das plantas e ajuda a racionalizar o uso e manejo dos sistemas irrigados. E ainda permite a identificação do potencial produtivo das lavouras, apoiando o produtor ou órgão regulador de estoque na tomada de decisão. 

Os apontamentos são exemplos das mais variadas contribuições da agrometeorologia com foco na tríade básica: produtividade, desempenho e sustentabilidade. Dentre os fatores de produção, aqueles relacionados à interação planta-atmosfera são os que têm maior oportunidade de avanço. A queda no custo de processamento computacional nas últimas duas décadas tem sido um dos impulsionadores principais deste campo científico. Diferentemente das demais áreas do conhecimento que envolvem a agricultura, a elevada variabilidade espaço-temporal da atmosfera não permite a formulação de modelos mentais mais simples, demandando recurso em tecnologia da informação para seu processamento. 

Dados agrometeorológicos podem dar suporte para elaboração de seguros agrícolas (Foto: Getty Images)

Nesta circunstância, a revolução digital vem permitindo um grande avanço no campo da agrometeorologia. Outra questão importante para uma agrometeorologia digital, operacional e participativa no planejamento e na tomada de decisão do agricultor, é a conectividade no campo. 

Isso dá a possibilidade de medir na estação meteorológica, transmitir e processar os dados em tempo real. Tais informações meteorológicas podem facilitar o do dia a dia das fazendas: manejo do solo, semeadura, pulverizações, adubações e colheitas são apenas algumas das atividades agrícolas diretamente influenciadas pela condição do tempo. Nesse contexto, alguns produtos agrometeorológicos já são ofertados por empresas e startups, especialmente aquelas que oferecem estações meteorológicas aos produtores. Mas, a agrometeorologia pode auxiliar o agricultor mesmo que em sua propriedade ou arredores não haja uma estação meteorológica? Sim. 

Há uma gama de satélites fornecendo dados meteorológicos, que podem ser processados e prover ao empresário rural as informações desejadas. Os dados meteorológicos abrangem toda a área de produção do país. Com eles é possível prover perspectivas de safras e analisar, se as condições meteorológicas direcionam as lavouras a altas produtividades ou grandes frustrações. 

Produtos com base em dados de satélites, devido à resolução espacial, podem, inclusive, apoiar sistemas de seguro agrícola, reduzindo as incertezas sobre sinistros. Inúmeras outras aplicações também são possíveis e, logicamente, são exploradas por outros segmentos que utilizam dessas fontes alternativas de dados meteorológicos. O certo é que as informações agrometeorológicas, independente da fonte dos dados, são fundamentais para o aumento da eficiência e produtividade agrícola, a fim de prover a segurança alimentar desejada. 

Observação:Texto parcialmente extraído do artigo: Pilau, Felipe Gustavo; Marin, Fabio Ricardo. Agrometeorologia digital: as bases biofísicas para a revolução digital no campo. In: TECCOGS – Revista Digital de Tecnologias Cognitivas, n. 20, jul./dez. 2019, p. 59-76.

*Felipe Gustavo Pilau é professor do Departamento de Engenharia de Biossistemas (Esalq/USP) e presidente do Conselho Deliberativo da ESALQTec.

**ESALQTec é a incubadora de empresas da Esalq (USP – Piracicaba), que é a peça-chave do Vale do Piracicaba (AgTech Valley), como é conhecido o ecossistema de tecnologias do local, considerado o Vale do Silício do agro brasileiro.

Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão.

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