Zoneamento vai ajudar recuperação do Cerrado

16 de novembro de 2020 8 mins. de leitura
Expansão da agropecuária pode ocorrer sem novos desmatamentos, indica estudo

O Cerrado brasileiro tem pelo menos 18,6 milhões de hectares degradados, onde a expansão de atividades agropecuárias pode ocorrer sem pressão ambiental, revela o estudo Zoneamento das Pastagens Degradadas. O trabalho, desenvolvido pela empresa de pesquisa aplicada Agroicone em parceria com instituições como a The Nature Conservancy (TNC), WWF Brasil, Imaflora e o Lapig (Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento da Universidade Federal de Goiás), mostra que existe espaço para as quatro principais cadeias cultivadas no bioma se expandirem.

“O objetivo desse estudo é avaliar o potencial de recuperação das pastagens degradadas para expansão produtiva de quatro cadeias do agronegócio: soja, pecuária de corte, pecuária de leite e floresta comercial”, diz Mariane Romeiro, engenheira agrônoma e pesquisadora da Agroicone. O zoneamento também levou em conta dados de infraestrutura, aptidão agrícola e malha fundiária das cadeias de produção analisadas.

O Brasil tem 65 milhões de hectares de pastagens degradadas, segundo dados do Laboratório de Processamento de Imagens e Geoprocessamento da Universidade Federal de Goiás (Lapig – UFG). Desse total, 23,7 milhões de hectares estão no Cerrado, região que é o carro-chefe do agronegócio brasileiro e onde é esperada a maior expansão das atividades agropecuárias nos próximos anos.

Na pecuária de corte, o estudo fez um recorte num raio de 150 km do frigorífico, que é a distância considerada ideal pela cadeia produtiva por questões de logística e infraestrutura. “Chegamos ao total de 5,6 milhões de hectares de pastagens degradadas com potencial para intensificação para a pecuária, sendo que 3,1 milhões de hectares estão em grandes propriedades [mais de 15 módulos fiscais]”, diz Mariane.

Mariane Romeiro: “São necessárias políticas públicas para incentivar o produtor a recuperar as pastagens degradadas”
Mariane Romeiro: “São necessárias políticas públicas para incentivar o produtor a recuperar as pastagens degradadas”

Na pecuária leiteira, o critério foi o raio de 100 km entre laticínios e propriedades rurais. Na atividade, a pesquisa identificou 4,3 milhões de hectares de pastagens degradadas com potencial para intensificação produtiva. O destaque ficou para Minas Gerais, com 2 milhões de hectares, a maior parte (1,4 milhão de hectares) em pequenas e médias propriedades. “Isso pode orientar políticas públicas para melhorar as pastagens da agricultura familiar, uma vez que a produtividade nesses casos é mais baixa do que a média nacional, que já é baixa”, diz a pesquisadora.

O critério adotado para a expansão da soja foi a propriedade estar num raio de 20 km de silos e armazéns e ter uma área contínua de pastagem degradada maior do que 100 hectares. “Estudos anteriores mostraram que a soja se expande próximo a áreas já consolidadas”, explica a engenheira agrônoma. “O resultado foi um total de 4,9 milhões de hectares de pastagens degradadas para expansão, o equivalente a um total de 25% da área total de soja no bioma”, afirma Mariane. No Cerrado como um todo, há 9 milhões de hectares de pastos degradados aptos para soja, mas 4,1 milhões estão em regiões sem infraestrutura próxima.

A última cadeia analisada foi a de florestas plantadas, que em 2018 ocupava 3,3 milhões de hectares no Cerrado, uma fatia correspondente a 38,6% da área plantada do Brasil. “Existem 3,8 milhões de hectares mais propícios para a conversão de pastagens degradadas em florestas plantadas”, diz Mariane, frisando que essas áreas estão num raio de 20 km de outros plantios florestais.

O resultado do zoneamento sustenta o discurso que vem sendo repetido pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina: “O Brasil pode crescer sem derrubar uma única árvore”. Mas para que isso aconteça, é preciso de uma organização dos setores públicos, privados, academia e terceiro setor. “Para que grandes mudanças ocorram, são necessárias políticas públicas para auxiliar e incentivar o produtor a recuperar as pastagens degradadas”, diz Mariane. A pesquisadora ressalta dois pontos cruciais: assistência técnica e financiamento de longo prazo para adoção de práticas de recuperação do pasto e posterior implantação de sistemas produtivos, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta.

23,7 milhões de hectares é a área de pastagens degradadas do Cerrado. Montante é 18% (3,6 milhões de hectares) maior que a área de soja plantada no bioma

TNC lança guia para estimular a concessão de crédito 

É impossível falar em produção de soja sem mencionar o Cerrado brasileiro. O bioma é responsável por metade da produção nacional do grão, que é o carro-chefe da balança comercial do agro nacional. No ano passado, as exportações do complexo soja renderam US$ 32,6 bilhões ao Brasil. A projeção da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indica que a demanda global de alimentos provocará um aumento de 7,2 milhões de hectares na área de soja no Brasil até 2030. 

Como o risco agora é de que pelo menos parte dessa expansão ocorra sobre área nativas, o que traria prejuízos comerciais ao Brasil, a ONG The Nature Conservancy (TNC) resolveu investigar meios para evitar que mais áreas originais do Cerrado sejam ceifadas. “Pela dinâmica dos últimos anos que nós estudamos, 30% da expansão ocorreu sobre vegetação nativa”, diz Anna Lucia Horta, gerente de Negócios e Investimento da The Nature Conservancy (TNC). Mas o trabalho também mostrou qual seria o retorno financeiro para o agricultor se em vez de regiões desmatadas ele tivesse usado áreas degradadas. “Independentemente da região do Cerrado, a diferença de rentabilidade do produtor seria muito pequena”, diz Anna.

O Guia de Conduta Ambiental que a ONG acaba de lançar, fruto das pesquisas de campo e de consultas feitas com mais de 120 especialistas, tem como objetivo estimular boas práticas agrícolas no Cerrado. O documento deve funcionar como uma espécie de manual para instituições financeiras e tradings que queiram premiar os produtores que façam mais do que a lei exige. “A ideia é que se tenha de maneira simples e objetiva quais critérios podem maximizar os ganhos ambientais”, diz a gerente da TNC.

Hoje a maior parte do crédito disponível para soja é de curto prazo. Não existem financiamentos específicos de longa duração para conversão de pastagens degradadas, o que é fundamental para que o aumento da produção no Cerrado não ocorra em áreas de vegetação nativa. Por isso, é que as premissas apresentadas no guia podem ajudar o setor. O documento prevê três critérios obrigatórios que devem ser avaliados pelas organizações que queiram criar mecanismos de crédito livre do desmatamento. Os produtores, portanto, segundo o documento, precisam: Estar em conformidade com as leis do País (ambientais e trabalhistas), não ter desmatamento na propriedade a partir de janeiro de 2018 e ter cautela com a irrigação.

No Cerrado há produtores conscientes, que sabem que não desmatar traz uma série de benefícios, como evitar o aumento da temperatura e uma futura perda de produtividade na lavoura. A ideia com a publicação é usar os mecanismos financeiros para aumentar esse grupo de agricultores. “Crédito é algo que pode fazer a diferença para o produtor. No Brasil, 40% do financiamento para expansão de lavoura vem de capital próprio”, diz Anna. “Se o produtor não usar recursos próprios e tiver financiamento por um prazo adequado, isso aumentará seu retorno.”

A Syngenta, gigante do setor de sementes e agroquímicos, é uma das companhias que aderiram ao guia para o Reverte, uma iniciativa com verba de US$ 2 bilhões. “Lançamos nosso programa junto com a TNC para recuperar 1 milhão de hectares de pastagens degradadas no Cerrado nos próximos cinco anos”, disse Juan Gonzalez, chefe de Negócios Sustentáveis e Responsáveis da Syngenta, durante o webinar de lançamento do Guia de Conduta Ambiental no final de outubro. Com ferramentas financeiras, boas práticas agrícolas e protocolos de uso de insumos, a Syngenta quer ajudar agricultores e pecuaristas a trazer pastos degradados de volta ao cultivo.

Boas práticas agrícolas: critérios para ter um financiamento livre de desmatamento

Obrigatórios:

• Estar em conformidade com as leis do País (ambientais e trabalhistas)

• Não ter desmatamento na propriedade a partir de janeiro de 2018 

• Ter cautela com a irrigação

Adicionais:

Aplicação em todas as propriedades do beneficiário: A data de referência para o não desmatamento passa a valer para todas as propriedades do tomador de recursos, não só para o estabelecimento que pleiteia o empréstimo

Direcionamento dos recursos seguindo priorização espacial: Os mecanismos financeiros para uma abordagem livre de desmatamento (DCF) podem encorajar investimentos e empréstimos em áreas de maior risco de conversão futura de mata nativa em lavoura

Recomendação de Boas Práticas Agrícolas: A ferramenta financeira pode promover a adoção de BPA, reconhecidas pelos resultados ambientais e sociais, o que reduz o risco do empréstimo

Verificação de Conflito de Terra: Além da exigência legal do título da terra, a recomendação é averiguar se há conflitos de terra extrajudiciais

Adoção dos padrões IFC: Trata-se dos parâmetros usados pela International Finance Corporation (IFC), que é o braço do Banco Mundial que trabalha com o setor privado

Fonte: TNC