Nova geração de soja estará disponível na próxima safra

27 de abril de 2021 8 mins. de leitura
Sementes serão tolerantes a outros herbicidas e terão proteção contra vários tipos de lagarta

Produtores de soja terão na safra 2021/22, cujo plantio começa em setembro, pelo menos duas novas tecnologias de sementes, a Intacta 2 Xtend, da Bayer, e a Enlist E3, da Corteva. A Corteva espera lançar também a Conkesta E3, mas depende de aprovação da União Europeia. Além de oferecer variedades por meio de marcas próprias de sementes, ambas licenciaram tecnologias a outras empresas para garantir rápida comercialização.

A Intacta 2 Xtend, da Bayer, é a terceira geração da soja transgênica no País, com tolerância aos herbicidas glifosato e dicamba. Ela amplia a proteção contra lagartas, já presente na Intacta RR2 Pro (Ipro), de quatro para seis. Além da lagarta-da-soja, lagarta-das-maçãs, falsa-medideira e broca-das-axilas, controla a Helicoverpa armigera e a Spodoptera cosmioides. “Isso levará o sojicultor a um novo patamar de produtividade”, diz a líder de lançamento de Intacta 2 Xtend, Natália Carvalho.

A Bayer lançará, por meio de suas marcas de sementes, mais de 30 variedades para 2021/22 de Intacta 2 Xtend e Refúgio Xtend (para prevenir o surgimento de pragas resistentes). No primeiro ano-safra, a empresa prevê que 1% da área de soja no País seja plantada com Intacta 2 Xtend em todas as variedades disponíveis (as suas ou de licenciadas), entre 300 mil e 350 mil hectares. A geração anterior, Ipro, representa cerca de 75% da área no Brasil, segundo a empresa.

Antes do lançamento, previsto para este semestre, a Intacta 2 Xtend teve em 2020/21 áreas de teste com produtores “eleitos” e de produção de sementes, somando 40 mil hectares. O ganho de produtividade será estimado ao fim da colheita. “Temos visto dados na casa de 100 sacas por hectare, como em Aral Moreira (MS)”, diz Natália.

Outro lançamento, a soja Enlist E3, da Corteva, apresenta tolerância tanto ao glifosato quanto ao glufosinato de amônio e ao 2,4-D. O lançamento deve ocorrer em julho. Já a Conkesta E3, além da tolerância aos mesmos herbicidas, protege contra lagarta-da-soja, falsa-medideira, lagarta-elasmo, lagarta-das-maçãs e helicoverpa, além de proteção moderada contra Spodoptera cosmioides e lagarta-das-folhas. “É possível que lancemos as duas tecnologias em 2021/22, mas dependemos da resposta da Comissão Europeia”, diz o líder da tecnologia Enlist para Brasil e Paraguai, Christian Pflug.

Segundo ele, as sojas Enlist têm a vantagem de facilitar o manejo da resistência de plantas daninhas ao glifosato, ao possibilitar o uso de outros princípios ativos. O foco da Corteva para o ano é o Sistema Enlist, composto não só pelas sementes, mas também pelo herbicida Colex-D. A empresa prevê lançar, por meio de suas marcas de sementes, 11 variedades em 2021/22, sendo duas Enlist E3 e quatro Conkesta E3, além do licenciamento para outras marcas. Em 2020/21, foram 600 áreas de pesquisa e 74 demonstrativas para Enlist E3 e Conkesta E3.

Nos dois casos, as empresas ainda vão definir o custo ao produtor. “Nossa premissa é calcular o preço associado ao que estamos acompanhando (de resultados) das áreas dos agricultores”, diz Natália, da Bayer.

“Temos que ter cuidado em garantir um custo acessível e que dê a rentabilidade que o produtor espera e merece.”

Christian Pflug, líder da tecnologia Enlist para Brasil e Paraguai da Corteva.

Concorrentes adotam tecnologias enquanto preparam as próprias

As multinacionais Syngenta e Basf são duas das empresas que vão oferecer variedades de soja com as tecnologias que chegam ao campo em 2021/22. Enquanto a Basf se concentra na Intacta 2 Xtend, a Syngenta planeja ofertar sementes tanto da Intacta 2 Xtend quanto da Conkesta E3.

“Algumas empresas tomaram a decisão de escolher uma ou outra plataforma e só fazer lançamentos nela. Nós decidimos continuar lançando pelo menos em três”, diz o líder do Negócio de Sementes para Brasil e Paraguai da Syngenta, André Franco. Para 2021/22, a empresa prevê lançar pelo menos 13 variedades, podendo chegar a 15. Desse total, pouco mais da metade será Ipro, e as demais devem ter as tecnologias Intacta 2 Xtend e Conkesta E3.

“O Brasil é grande o suficiente. Tentamos trazer o maior número de opções.”

André Franco, líder do Negócio de Sementes para Brasil e Paraguai da Syngenta.

A decisão de optar pelas duas tecnologias veio após ouvir a opinião de agricultores. “Produtor está buscando genética, produtividade, ciclo, antes de optar por Ipro, Conkesta E3 ou Intacta 2 Xtend”, diz Franco. A expectativa é de atingir entre 200 mil e 250 mil hectares com os lançamentos.

A Syngenta trabalha para levar a sua tecnologia Viptera, utilizada no milho, para a soja, mas ainda sem previsão de lançamento. “No momento em que tomou a decisão de enfocar globalmente no negócio de sementes, a Syngenta colocou uma força grande em biotecnologia”, diz Franco.

A Basf ofertará 13 novas variedades com a tecnologia Intacta 2 Xtend na safra 2021/22. Além dessas, o plano é lançar outras que tiveram, em testes, resultados superiores ao que está disponível no mercado.

“Em maio decidiremos quantas variedades mais vamos apresentar para a safra 2021/22. Das 400 linhagens potenciais candidatas, devem sair entre 8 e 15 variedades.”

Mairson Santana, líder do Negócio de Sementes de Soja e Arroz da Basf no Brasil.

Por ora, a expectativa é atingir mais de 110 mil hectares com as 13 variedades que têm lançamento confirmado.

A aposta na Intacta 2 Xtend está relacionada ao aumento das alternativas de controle de lagartas e plantas daninhas. “É como se a caixa de ferramentas do agricultor aumentasse”, diz Santana. Nos EUA, a Basf obteve a licença de Enlist E3 e Conkesta E3, mas no Brasil não. Um fator que pesou na decisão foi que, ao adquirir o negócio de sementes de soja da Bayer, a empresa herdou o trabalho sobre mistura da biotecnologia no germoplasma. “Queríamos acelerar os lançamentos e trazer novidades mais rápido para o agricultor.”

Paralelamente, a Basf trabalha no desenvolvimento de tecnologia proprietária para a soja. “Neste momento, vamos trabalhar só com o licenciamento de tecnologias de terceiros. Temos, sim, tecnologias e traits, só que virão num espaço de dez anos”, diz Santana. A empresa pesquisa biotecnologia de resistência ao fungo da ferrugem e a nematoide-decisto. “Estamos nas fases 1 e 2, ou seja, desenvolvemos o trait, colocamos numa planta e fazemos ensaios a campo. Não começamos a desenvolver produtos ainda.”

TMG e Embrapa fazem outras apostas para concorrer no mercado

Embrapa foca em soja convencional.

As brasileiras TMG e Embrapa adotaram postura mais cautelosa, deixando para os próximos anos o lançamento de variedades com as novas tecnologias. A TMG vai lançar seis variedades para 2021/22, todas com a tecnologia Ipro. A Embrapa lançará cinco – uma Ipro e quatro convencionais.

A TMG obteve a licença da Intacta 2 Xtend, mas pretende lançar variedades com ela para plantio em 2022/23. “Não havia a certeza de que seria aprovada e comercializada na safra 2021/22”, diz o gerente de Pesquisa da TMG, Alexandre Garcia. Para a Conkesta E3, a empresa também foi licenciada, mas espera confirmação da Corteva do lançamento.

Para Garcia, a contribuição da TMG a uma tecnologia já consolidada no mercado (Ipro) vem de diferenciais de melhoramento genético. “A fortaleza da TMG é combinar produtividade com resistência a doenças e tolerância a nematoides”, afirma o gerente, citando dois lançamentos com ampla resistência a nematoide-de-cisto.

A empresa também aposta para o futuro na biotecnologia HB4, de tolerância ao estresse hídrico na soja, na qual colaborou com a proprietária Bioceres para fazer no Brasil a aprovação regulatória e o melhoramento de cultivares. As empresas aguardam aval de China e Europa.

Já a Embrapa Soja lançou quatro cultivares convencionais e uma Ipro com a Fundação Meridional. “Temos trabalhos com a Intacta 2 Xtend, mas ainda não estarão disponíveis na safra 2021/22”, diz o chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Soja, Alvadi Balbinot Jr. Sobre a oferta de cultivares convencionais, Balbinot Jr. enfatiza que a Embrapa mantém um programa de melhoramento genético de soja convencional forte em paralelo ao de transgênicos.

“Se não seguirmos fazendo melhoramento em cultivares convencionais, no futuro podemos ter redução da disponibilidade de produtos desse tipo de material genético.”

Alvadi Balbinot Jr., chefe de Pesquisa e Desenvolvimento da Embrapa Soja

O objetivo é obter materiais com boa sanidade em termos de resistência a nematoides, tolerância a percevejos e resistência à ferrugem asiática. Balbinot Jr. cita a tecnologia Block, exclusiva da Embrapa, presente em duas cultivares lançadas, que facilita o controle de percevejos. A Embrapa seguirá trabalhando em novas ferramentas de biotecnologia que usam os genes da soja para desenvolver características desejáveis. O foco, porém, não é desenvolver os próprios Organismos Geneticamente Modificados (OGMs). “É mais lógico trabalharmos com soja convencional, com os OGMs das empresas privadas e também usando novas ferramentas de biotecnologia.”

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