Mercado de bioinsumos cresce, mas ainda há entraves

27 de abril de 2021 7 mins. de leitura
BAIXO NÍVEL DE CONHECIMENTO DOS PRODUTORES, ALÉM DE QUESTÕES REGULATÓRIAS, É OBSTÁCULO PARA O SETOR, QUE DEVE CRESCER 40% ESTE ANO

TECNOLOGIAS LIMPAS

Em meio à forte cobrança por práticas mais sustentáveis no agronegócio e a necessidade de incremento de produtividade, o mercado de bioinsumos encontra terreno fértil para avançar no Brasil. O setor é responsável por uma série de tecnologias que utilizam insumos biológicos, ou seja, produtos criados a partir de micro-organismos vegetais, orgânicos ou naturais, para aprimorar o solo e combater pragas sem expor o meio ambiente ou trabalhadores a substâncias tóxicas. Apesar da perspectiva de crescimento acelerado – da ordem de 40% sobre os US$ 307 milhões movimentados no País em 2020 –, o mercado ainda precisa se livrar de alguns entraves para se consolidar, entre eles o baixo nível de conhecimento dos produtores sobre a tecnologia e questões regulatórias.

O maior gargalo é burocrático, já que hoje os bioinsumos são tratados com base em leis criadas para agroquímicos ou fertilizantes, sem que haja normativas claras para esse tipo de tecnologia, comenta o coordenador de Melhoramento e Recursos Genéticos do Ministério da Agricultura e presidente do Conselho Estratégico do Programa Nacional de Bionsumos, Alessandro Cruvinel. Segundo ele, é sobre isso que o conselho, composto por membros do Ministério da Agricultura, do Ibama, da Anvisa, do Ministério da Ciência e Tecnologia e da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), deve se debruçar em 2021. O programa foi criado em maio do ano passado com o objetivo de incentivar a produção e o uso de bioinsumos, trazer maior visibilidade para o assunto e conectar instituições públicas e privadas para coordenar estratégias de crescimento.

O primeiro passo em direção ao marco regulatório foi dado pelo deputado Zé Vitor (PL-MG), que criou em março deste ano o Projeto de Lei 658/21 para abordar a classificação, o tratamento e a produção de bioinsumos no País. “Estamos dando apoio a esse projeto, ajudando na construção e trabalhando para que ele se torne mais robusto e caminhe de maneira mais fluida, de modo a cobrir toda a necessidade do setor”, afirma Cruvinel.

Outro impasse que chama a atenção é a necessidade de capacitação técnica de agricultores interessados em iniciar a produção dos seus próprios insumos. De acordo com o coordenador, o Ministério da Agricultura já reconhece esse direito, mas falta esclarecer detalhes importantes para normatizar a produção e, assim, garantir segurança e qualidade. No âmbito do Programa Nacional de Bioinsumos, o governo já está desenvolvendo um curso de ensino a distância em parceria com a Embrapa e pretende elaborar mais cinco outros cursos de capacitação.

Cruvinel explica que, pelas características do produto, com maior dificuldade no trânsito de organismos vivos, por exemplo, a produção local é importante. E isso ficou ainda mais evidenciado neste período de pandemia da covid-19 e forte valorização do dólar, que tornou mais caros para os agricultores os insumos e fertilizantes, forçando-os a buscar alternativas mais acessíveis e produzidas nas suas próprias regiões. “O setor de bioinsumos é muito estratégico porque pode ajudar a reduzir nossa dependência de importação de insumos, além de gerar emprego e renda aqui e ser uma tecnologia que pode ser utilizada por produtores de todos os tamanhos.”

425 é o número de produtos biológicos com registro ativo no Brasil

Um terceiro ponto que está no radar do conselho é expandir e esclarecer as condições de financiamento para o setor. “Queremos deixar as linhas mais claras no texto do Plano Safra, fomentar esses instrumentos de crédito para bioinsumos e biofábricas e elevar os valores disponíveis, claro que sem competir com outros financiamentos”, disse Cruvinel. No ano passado, o Plano Safra 2020/21 passou a oferecer recursos a partir do Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica na Produção Agropecuária (Inovagro) para a compra de equipamentos destinados a essa produção e construção de biofábricas. Já para as cooperativas, as linhas de crédito disponíveis estavam previstas no Programa de Desenvolvimento Cooperativo para Agregação de Valor à Produção Agropecuária (Prodecoop).

“Temos um ambiente favorável, ávido por essa tecnologia mais sustentável, então precisamos dar suporte de capacitação, criação de ecossistemas de inovação e deixar o marco regulatório mais fluido, pavimentado, com clareza para o produtor rural trabalhar com segurança”, acrescentou o presidente do Conselho do Programa Nacional de Bioinsumos.

Programa Nacional quer estimular produtor a preparar o próprio bioinsumo

Para além dos aspectos mais estruturais, ele destaca a necessidade de estimular a ciência, a tecnologia e a inovação. Como parte desse projeto, estão sendo desenvolvidas duas biofábricas piloto, uma dentro da Embrapa Arroz e Feijão e outra em um instituto federal no norte do Estado de Minas Gerais. Os espaços devem servir como um ambiente de cocriação e a expectativa é de que sejam instalados em todos os Estados do País, de modo a trazer novos produtos e tecnologias de bioinsumos.

O movimento em direção à inovação também tem sido observado pela diretora de biológicos da CropLife Brasil, Amália Borsari. Segundo ela, grandes indústrias de agroquímicos e de biológicos estão realizando parcerias com startups para o desenvolvimento de tecnologias e soluções, desde a formulação desses produtos até a maneira de aplicação deles. “Enxergamos duas oportunidades: elas podem seguir juntas por intermédio de parcerias ou as menores podem ser adquiridas pelas gigantes, como já chegamos a ver recentemente”, disse. E acrescentou: “Como esse é um setor que precisa dessas novas tecnologias, o fomento por parte das startups é essencial”.

Se por um lado, na agricultura, as grandes empresas já conseguiram enxergar a relevância das menores, em outros mercados essa segregação ainda é grande. É o caso do setor de saúde animal, comenta Lucas von Zuben, CEO da Decoy Smart Control, desenvolvedora de soluções biológicas para controle de pragas. Na avaliação dele, as startups conseguem desenvolver inovações de forma mais ágil e isso ajuda no processo de transição tecnológica do mercado de bioinsumos como um todo. Mas o executivo enxerga com bons olhos uma potencial sinergia entre players de diferentes dimensões e acredita que essa relação pode acelerar o crescimento do conhecimento acerca dessa tecnologia.

Biofábrica da Decoy Smart em SP

Focada no mercado animal, a startup utiliza uma tecnologia com fungos para controlar o carrapato presente nos bois e nas pastagens e aguarda a aprovação do registro pelo Ministério da Agricultura para inserir o produto no mercado e escalar a produção. Por enquanto, a aplicação e a monetização da solução ocorrem por meio de parcerias diretas com produtores. Hoje, a startup tem parceria com mais de 800 produtores, de todos os Estados do País – com foco para Rio Grande do Sul, São Paulo e Minas Gerais –, e já usou suas soluções em 100 mil animais. A perspectiva para este ano é expandir a atuação e continuar investindo em novos produtos para os mercados de avicultura, apicultura e pets.

“O controle biológico como um todo é uma nova fronteira tecnológica e um dos maiores desafios é aumentar o conhecimento dos produtores sobre esse tema e sobre os resultados”, comenta Zuben.

Defensivos em expansão

Dentro do mercado de bioinsumos, o segmento que mais cresce é o de defensivos biológicos, segundo a CropLife Brasil. Somente em 2020, esse mercado saltou 70% no Brasil ante o ano anterior, com a movimentação de R$ 1,17 bilhão, e a projeção é de que neste ano esse valor suba mais 30%. Na avaliação da diretora de biológicos da CropLife Brasil, Amália Borsari, esse destaque é proveniente de uma demanda reprimida por parte dos produtores em relação a soluções voltadas para a defesa vegetal. “Lidar com o manejo de pragas é um desafio e uma necessidade muito grande e o defensivo biológico entra como uma ferramenta essencial para o equilíbrio desse sistema.”

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