Centro-Oeste puxa o PIB do agronegócio brasileiro

16 de novembro de 2020 5 mins. de leitura
Região tem 22 dos 50 municípios com maior valor de produção agrícola; colheita este ano deve crescer 4,2%

Em um ano marcado pela pandemia do coronavírus, que forçou as pessoas a se isolar em casa, a previsão do Banco Mundial é que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro tenha retração de 5,4%. Na contramão dessa queda, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) reviu para cima a projeção do PIB agropecuário nacional. A previsão era de uma alta de 1,6% e passou para 1,9%.

O crescimento se deve sobretudo à lavoura, segmento no qual o Centro-Oeste tem a dianteira com 47,5% da produção de grãos, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “A região se tornou um país na produção agrícola e já superou a Argentina na soja”, diz Bartolomeu Braz Pereira, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja Brasil). Ele se refere ao fato de os três Estados do Centro-Oeste terem colhido cerca de 56 milhões de toneladas do grão, enquanto o país vizinho não alcançou 50 milhões de toneladas.

O êxito está alicerçado em muita inovação. “O Centro-Oeste se tornou o maior corredor mundial de absorção de tecnologia. Eu viajo o mundo e percebo que os produtores da região são os que mais aderem às novidades”, diz Pereira. O bom desempenho do Centro-Oeste é fundamental para o agronegócio, que – mais uma vez – será o setor responsável por evitar uma crise ainda maior na economia brasileira.

A última estimativa do IBGE aponta que o Brasil deve fechar o ano com uma colheita de grãos de 252 milhões de toneladas, uma alta de 10,2 milhões de toneladas ou 4,2% a mais que o ciclo anterior. A soja continua sendo o carro-chefe, com uma produção estimada de 121 milhões de toneladas, que este ano foi favorecida pela trinca: alta do dólar, alta dos preços e demanda aquecida. “Exportamos 82 milhões de toneladas de soja este ano”, diz o presidente da Aprosoja.

Os contratos futuros de soja em 2019 alcançaram o maior patamar de preço desde 2016. Na Bolsa de Chicago, os lotes para janeiro de 2021 foram negociados por US$ 11,25 o bushel (27,2 quilos). Entre os Estados do Centro-Oeste, Mato Grosso tem a liderança com uma produção de 33 milhões de toneladas. E onde se planta soja também se cultiva o milho de segunda safra. Os dois grãos são matérias-primas para a produção de ração animal, usada por criadores de aves, suínos e gado confinado. Por falar em pecuária, a região concentra 74 milhões de cabeças, 34% do rebanho do País, que é de 215 milhões de animais, segundo o IBGE. Só Mato Grosso tem quase 32 milhões de reses.

Segundo a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) do IBGE, de 2019, dos 50 municípios com maiores valores de produção agrícola, 22 estão em Mato Grosso. A cidade de Sorriso está em primeiro lugar com as maiores colheitas de soja (2,1 milhões de toneladas) e de milho (3,2 milhões de toneladas). “Um estudo que fizemos há alguns anos mostrou que o agronegócio representa 50% do PIB de Mato Grosso”, diz Daniel Latorraca, superintendente do Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea). Em termos de postos de trabalho com carteira assinada, a cadeia da agropecuária (insumos, serviços, agroindústria) responde por 33% dos empregos. “É um setor fundamental para a economia do Estado”, afirma o superintendente.

E não só de grãos e pecuária vive a região. O Centro-Oeste também é um grande produtor de florestas, cana-de-açúcar, feijão e algodão herbáceo, entre outros. Dados da Conab indicam que na safra 1976/1977 o Brasil colheu 143 quilos da pluma por hectare provenientes de 4,1 milhões de hectares. Já na safra 2019/2020, a área destinada à cultura foi bem menor – 1,5 milhão de hectares –, mas a produtividade cresceu mais de 11 vezes e está na casa de 1,7 tonelada por hectare. Mais uma vez, o Centro-Oeste lidera a produção com 80% da área de algodão do País.

Brasil deve atingir maior produção de grãos da história

As perspectivas para o próximo ano reforçam o peso do Centro-Oeste. Segundo o último levantamento da Conab, o Brasil deve ter a maior produção de grãos da história: 268,9 milhões de toneladas, 11,9 milhões de toneladas a mais que a safra anterior. A soja continuará sendo o destaque, com uma produção estimada em 135 milhões de toneladas. Segundo Pereira, a área destinada ao grão deve crescer 3%. “Mas o aumento do plantio está acontecendo em áreas de pastagens degradadas”, frisa. De qualquer forma, o incremento da área plantada provoca um efeito cascata. “Qualquer hectare a mais de soja demanda mais insumos, mais máquinas, mais transportes, maior capacidade da indústria e do porto”, diz Latorraca. “É a cadeia e valor do agro, uma coisa puxa a outra”, acrescenta o superintendente.

Para Pereira, exigências ambientais acima das leis brasileiras são descabidas.
Para Pereira, exigências ambientais acima das leis brasileiras são descabidas.

Se por um lado a alta do dólar favorece as exportações de commodities do Centro-Oeste, por outro, encarece os custos de produção, já que boa parte dos insumos é importada. “Isso traz desafios na gestão de risco, já que a volatilidade no mercado está muito grande”, diz Latorraca. “O produtor precisa ter cuidado para não tomar uma invertida do dólar”, acrescenta. Outro gargalo que a região enfrenta é a distância dos portos e a carência de infraestrutura logística. “Precisamos de mais modais, principalmente o hidroviário”, diz Pereira. “Outro impasse são as exigências ambientais acima das nossas leis”, finaliza o presidente da Aprosoja.