Cafés especiais ampliam fronteiras

16 de novembro de 2020 4 mins. de leitura
Planalto de Goiás vem se destacando na produção de grãos de alta qualidade

Quando se fala em cafés de qualidade, geralmente o consumidor pensa em regiões como Mogiana (SP), Cerrado Mineiro e Serra do Caparaó (ES). Na última década, entretanto, existe uma outra região do Brasil que também merece ser citada pelos apreciadores da bebida. É o cerrado goiano, que também produz cafés especiais, a partir de grãos que atingem notas acima de 80 pontos segundo os critérios da Associação de Cafés Especiais – SCA, na sigla em inglês.

Apesar de café em Goiás ser uma realidade desde os anos 1970, o Cerrado do Estado passou a se destacar como um produtor de qualidade mais recentemente. A família Zancanaro é um exemplo. Produtores rurais na região de Cristalina, em Goiás, eles entraram no café em 2009, como forma de diversificar a produção e diminuir os riscos. “Plantávamos feijão, mas o preço era volátil, um dia a saca estava R$ 180, no outro, despencava”, explica a advogada Cristiane Zancanaro, 43 anos. “Meu pai e meu irmão entraram no café porque podiam fazer mercado futuro, podiam fazer travas”, lembra.

Cristiane foi quem convenceu a família a investir na produção de cafés de qualidade
Cristiane foi quem convenceu a família a investir na produção de cafés de qualidade

Inicialmente, a família fazia café commodity. Mas em 2014, quando Cristiane passou a se dedicar exclusivamente ao café, a visão dos Zancanaros começou a mudar. “Não sabíamos tocar o café, fomos aprendendo. Mas isso foi um ponto a favor, porque tem muita família tradicional no café que não aceita mudanças”, diz Cristiane. A advogada foi quem convenceu o irmão a fazer parte da Associação Brasileira de Cafés Especiais (BSCA) e a fazer a certificação UTZ (de parâmetros socioambientais) na fazenda. O empenho foi decorrência dos testes que ela tinha feito com os cafés. O resultado mostrou que os grãos tinham qualidade. “Estávamos vendendo cafés especiais como commodity”, diz Cristiane.

A constatação levou a família a se inscrever no Prêmio Ernesto Illy de Qualidade Sustentável do Café para “Espresso”, o mais antigo concurso do grão no País, promovido pela torrefadora italiana Illy, que a partir de 2012 passou a ter etapas regionais. “Participamos pela primeira vez em 2016 e ficamos com o primeiro lugar da região Centro-Oeste”, diz Cristiane. A conquista levou a família a investir ainda mais em infraestrutura para a produção de cafés especiais. Hoje, dos 3.100 hectares da fazenda Nossa Senhora de Fátima, em Goiás, 902 hectares são dedicados ao café. Quase a totalidade da lavoura é irrigada por pivôs centrais, o que garante uma alta produtividade. A média varia de 42 a 60 sacas por hectare, dependendo se o ano é de safra cheia ou baixa.

Álvaro Orioli, 66 anos, é outro agricultor que se voltou à cafeicultura mais recentemente. “Eu cheguei na região em 1988. Antigamente plantava feijão irrigado, mas começou a dar muita doença”, diz o produtor de Niquelândia (GO). “Fui conversar com os pesquisadores da Embrapa, que me recomendaram cultivar café”, conta.

Álvaro: “Cafés de Goiás concentram mais açúcares porque amadurecem devagar”
Álvaro: “Cafés de Goiás concentram mais açúcares porque amadurecem devagar”

Os primeiros pés de café foram plantados em 2007. Hoje a fazenda Bagagem tem 145 hectares de cafezais de duas variedades: catuaí 144 vermelho e catuaí 62 amarelo. No começo, o foco do produtor era aprender a lidar com a lavoura. Mas em 2010, Orioli e o filho, o engenheiro agrônomo Felipe, começaram a fazer cafés cerejas despolpados. Cinco anos depois, eles passaram a fornecer a matéria-prima para a Illy e, em 2017, o café da fazenda foi o campeão da região Centro-Oeste do concurso da torrefadora italiana. “A partir daí realmente nos demos conta que podíamos fazer cafés especiais”, conta Orioli.

Atualmente, 30% dos grãos colhidos se enquadram nessa categoria. “Estamos investindo em equipamentos, em pós-colheita para ampliar a porcentagem de cafés especiais e conquistar mercado”, diz o agricultor. Nesse quesito, o braço direito de Orioli é o filho, Felipe. “Ele mora em Lisboa, em Portugal, e levou um contêiner de café para comercializar por lá”, conta.

A família está empolgada e decidiu plantar mais 72 hectares de cafezais este ano. Eles acreditam que é questão de tempo para as pessoas descobrirem o café goiano. “Goiás é uma região com clima excelente para a produção de café. O fruto amadurece mais devagar, concentra açúcares, tem aroma de frutas e, em alguns casos, até aromas florais, que é algo que se busca muito no café”, finaliza Orioli.