A pecuária que combate o aquecimento global

27 de abril de 2021 7 mins. de leitura
Projeto Carbono Araguaia, realizado durante 5 anos em Mato Grosso, prova que a atividade pode reduzir emissões de gases do efeito estufa

“A gente, como criador de gado, já desconfiava que uma pecuária bem manejada não só emite menos gases do efeito estufa, como contribui para sequestrar as emissões”,

diz o pecuarista Caio Penido, da Fazenda Água Viva, em Cocalinho (MT).

Depois de cinco anos, tanto a propriedade de Penido quanto outras 23 fazendas pecuaristas da região do Vale do Araguaia, em Mato Grosso, conseguiram provar isso em números, por meio do projeto Carbono Araguaia, realizado entre 2016 e 2020. A iniciativa demonstrou que a atividade pecuária consegue, além de armazenar volume considerável de carbono no solo, sequestrar as temidas emissões entéricas de gás metano da boiada. Isso, claro, se vários protocolos ambientais e de boas práticas de manejo do solo e dos animais forem adotados.

Como “brinde” à adoção desses cuidados, o pecuarista consegue maior produtividade, com abate de animais mais precoces, e lotação intensiva do pasto – o que reduz a pressão para a abertura de novas áreas. Como consequência, poderá também receber pagamento por serviços ambientais (PSA) e vender créditos de carbono.

Tudo se iniciou no ano da Olimpíada do Rio, em 2016, quando a Dow Química procurou os pecuaristas da Liga para levar à frente um projeto que contribuísse para mitigar as emissões de carbono do megaevento esportivo. A Liga do Araguaia, que reunia pecuaristas do Médio Araguaia interessados em regularização ambiental, topou a parada. “Foi uma parceria vitoriosa; a Dow acreditou na gente, pegou um grupo de pecuaristas querendo fazer um projeto e deu certo”, conta Penido.

Para a iniciativa, foram chamados outros parceiros, como a Embrapa e a PangeaCapital, empresa de estratégia ambiental. No fim de abril, os resultados do projeto Carbono Araguaia foram apresentados em um evento online. Um dos números mais emblemáticos citados pelo sócio-diretor da Pangea, Roberto Strumpf,  demonstra que, enquanto um pasto degradado (na região do Cerrado) emite até 99 quilos de gás carbônico equivalente (CO²eq) por hectare/ano, uma pastagem recuperada e bem manejada consegue, em vez de emitir, sequestrar 1,98 tonelada de CO²eq/ha/ano, sem considerar as emissões entéricas do gado, contabilizadas na média de 1,5 tonelada de CO²eq por animal/ano. “Este é o principal número do projeto, porque tem um grande impacto no resultado”, comemora Strumpf.

Ou seja, se o pecuarista reformar o pasto, adubá-lo, cuidar para que os animais entrem e saiam dos piquetes na hora certa, de maneira a não afetar a capacidade de rebrota das plantas. O pasto passa a estocar carbono, em vez de emitir. Aí o pasto deixou de ser um emissor e passou a sequestrar carbono, reduzindo o impacto ambiental do sistema.

Outro importante indicador foi a capacidade de sequestro de carbono quando se utiliza o sistema de integração lavoura-pecuária (ILP) na área para reformar os pastos. Strumpf informa que, nesse caso, a retenção de carbono aumenta para 6,23 toneladas de CO²eq/ha/ano. “Ressalto o potencial desse sistema como uma grande ‘bomba de sucção’ de carbono na atmosfera”, diz.

O pesquisador da Embrapa Manoel Claudio Motta Macedo, que juntamente com os pesquisadores da mesma instituição Roberto Giolo de Almeida e Eduardo Assad acompanha as atividades da Liga do Araguaia, cita que estudos realizados em duas propriedades filiadas apuraram que só o carbono estocado em pastagens recuperadas há pelo menos dois anos tem o potencial de mitigar 66% das emissões de metano dos bovinos.

Macedo compara também o estoque de carbono entre um sistema com integração lavoura-pecuária (ILP) e uma floresta nativa de Cerrado. Na melhor das situações, um sistema de ILP consegue armazenar 36,88 megagramas de carbono equivalente por hectare/ano, numa profundidade de 0 a 20 centímetros do solo. Já uma floresta nativa armazena 26,66 megagramas. Quando se vai à profundidade de 40 centímetros, o melhor sistema ILP pesquisado armazenou 58,17 megagramas e a floresta nativa, 48,96 megagramas.

Penido ressalta que o Brasil deve levar esses resultados para as esferas internacionais e mudar o discurso a respeito da pecuária. “Em fóruns no exterior só se fala das emissões entéricas do gado, que é uma situação típica dos rebanhos do Hemisfério Norte”, diz, e argumenta: “O que acontece na pecuária tropical, porém, é emissão por parte do gado, mas também remoção por parte do sistema como um todo. Ou seja, o balanço desses dois fatores é que deve ser levado em conta e calculado”.

Pasto
bem tratado
e floresta
contribuem
para mitigar
emissões
Pasto bem tratado e floresta contribuem para mitigar emissões.

Apuro técnico na medição das emissões

O balanço líquido de emissões de gases de efeito estufa (GEE) no projeto Carbono Araguaia foi apurado de acordo com os critérios da metodologia GHG Protocol Agricola. Segundo a Liga do Araguaia, o Programa Brasileiro de GHG Protocol tem como objetivo estimular a cultura corporativa para a elaboração e publicação de inventários de emissões de GEE, proporcionando aos participantes acesso a instrumentos e padrões de qualidade internacional. A ferramenta foi desenvolvida nos Estados Unidos em 1998, pelo World Resources Institute (WRI). Ela entende, quantifica e gerencia emissões de GEE e é hoje o método mais usado globalmente pelas empresas e governos para a realização de inventários de emissões. É também compatível com a norma ISO 14.064 e com os métodos de quantificação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC).

Aumento de produtividade pecuária e sequestro de 113 mil toneladas de carbono

Ao longo de cinco anos do Projeto Carbono Araguaia, os resultados foram bastante benéficos. A iniciativa, que contou com parceria da Dow, teve como participantes 24 fazendas do Vale do Araguaia, em Mato Grosso, que detêm uma área de 80 mil hectares de pastos. Ao fim do período – entre 2016 e 2020 –, 24 mil hectares de pastos foram recuperados – tendo agora um total de 43 mil hectares de pastagens em boas condições. Além disso, o rebanho inicial daquelas 24 fazendas, que era de 73.127 cabeças, deu um salto de 46%, para 107.048 cabeças. Isso foi possível porque, com a melhora dos pastos, estes comportaram um maior número de animais.

Roberto Strumpf, da PangeaCapital, menciona que logo no segundo ano o sequestro de carbono começou a acontecer. “Percebemos que a partir desta etapa houve investimento maior por parte dos pecuaristas na restauração das pastagens”, cita. “Aí o sistema deixou de ser um emissor e passou a sequestrar carbono.”

Dessa forma, a taxa de lotação também apresentou evolução, de 0,95 cabeça por hectare para 1,39 cabeça de gado por hectare, ou 32% mais. Houve também a redução da idade de abate, de 28 meses, em média, para 22 a 24 meses. Sob esse aspecto, Caio Penido, da Liga do Araguaia, frisa que se um bovino é abatido mais cedo significa que ele também vai passar menos tempo emitindo gases do efeito estufa.

Com todas essas melhorias e principalmente por causa da recuperação e manejo adequado de pastagens, o projeto conseguiu mitigar, no período, 113.928 toneladas de CO² equivalente.  No caso dos bovinos, se no primeiro ano eles emitiam 2,29 toneladas de CO² equivalente por cabeça por ano, no último ano do projeto essa emissão se reduziu 122%, para 1,03 tonelada. A emissão por hectare, por sua vez, caiu 57%, de 2,17 toneladas para 1,38 tonelada.

Penido conta que, a partir de 2021, o projeto Carbono Araguaia seguirá de forma independente, com o objetivo de formatar um modelo de comercialização dos créditos de carbono a serem obtidos a partir do seu encerramento. Ele lembra que o projeto também “permanecerá como um enorme legado com sua contribuição para um melhor entendimento por estudiosos e toda a sociedade sobre as ferramentas para medir o balanço líquido de carbono na atividade pecuária no Brasil”.

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