Técnica barateia e otimiza a recomposição florestal

20 de dezembro de 2019 5 mins. de leitura
Projeto promove a aproximação de produtores rurais com uma rede de coletores de sementes, geralmente composta por comunidades quilombolas, indígenas e produtores assentados

Uma nova técnica de recuperação vegetal uniu atores de peso, como o Instituto Socioambiental (ISA) e o Partnerships for Forests (P4F, sigla em inglês para Parcerias pelas Florestas), programa do governo britânico que dá apoio financeiro ao projeto. Trata-se da semeadura direta, um método de recomposição florestal que consiste em plantar uma mistura com sementes de árvores nativas.

Projeto promove a aproximação de produtores rurais com uma rede de coletores de sementes, como José Severino

“A técnica tem se mostrado mais eficaz que o plantio de mudas. E ainda promove a formação de uma rede de coletores, composta por comunidades quilombolas, indígenas e produtores assentados”, diz Laura Antoniazzi, sócia da Agroicone, empresa de pesquisa aplicada que coordena a iniciativa.

Embora muito difundida pelo ISA na bacia do rio Xingu, a semeadura direta é pouco conhecida no Sudeste. Por isso a Agroicone, que tem diversos estudos na região voltados à adequação florestal nas cadeias de cana-de-açúcar e florestas plantadas, vem trabalhando desde o início deste ano na promoção da iniciativa, batizada de “Caminhos da Semente”.


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Até o final do ano, a meta é plantar 60 hectares nessa modalidade. A usina Santa Isabel foi uma das protagonistas. Com duas unidades produtoras de açúcar e etanol no interior de São Paulo, ela está no processo de adequação das áreas de reserva legal em suas fazendas.

No último dia 29 de novembro, plantou dois hectares de semeadura direta numa área que antes era pasto. “Nós já temos demarcados os 20% de área destinada à reserva legal, que vem sendo recomposta”, diz Samuel Terenciani Campoy, engenheiro ambiental da usina.

De acordo com Eduardo Malta, coordenador técnico de Restauração Florestal do ISA, a semeadura direta custa entre R$ 7,5 mil e R$ 9 mil por hectare, enquanto o plantio por mudas não sai por menos de R$ 15 mil.

Laura Antoniazzi, da Agroicone, numa área de recomposição vegetal que já tem um ano

Como o sistema funciona

A semeadura direta consiste na utilização de máquinas já presentes na propriedade rural – como plantadeiras, calcareadeiras e adubadeiras. Com elas, planta-se a muvuca, mistura composta por 1/3 de sementes de árvores nativas e 2/3 de areia. “O plantio é feito em alta densidade: são 300 mil sementes por hectare”, diz Malta.

“A semeadura direta custa entre R$ 7,5 mil e R$ 9 mil por hectare, enquanto o plantio por mudas não sai por menos de R$ 15 mil”, diz Eduardo Malta

A semeadura de todas as sementes é feito de uma só vez. O mais usual é a utilização da técnica de plantio direto, em que um herbicida é aplicado para dessecar o pasto, e a semeadura é feita na palhada. Primeiro brotam as herbáceas, os arbustos e as leguminosas.

Um mês após o plantio, é feita a aplicação de um herbicida para matar o capim. O primeiro grupo de plantas faz o sombreamento que ajuda a rarear as gramíneas e criar o ambiente propício para a germinação das primeiras árvores.

Nessa fase, as herbáceas e os arbustos morrem, e as árvores que emergiram fazem o seu papel para o grupo subsequente. O segredo de uma boa restauração florestal está na qualidade das sementes. Por isso o ISA está desenvolvendo uma rede de coletores na região Sudeste.

Por enquanto, são seis fornecedores. José Severino da Silva, de Laranjal Paulista (SP), é o mais experiente deles. Ex-cortador de cana, há 17 anos ele ganha a vida se embrenhando na Mata Atlântica para coletar sementes de mais de 70 espécies de árvores nativas. “Algumas sementes eu coleto no chão, outras preciso subir na árvore. Mas cato apenas 70%, para deixar um pouco para o vento, os morcegos e os pássaros levarem para outros lugares”, diz.

Muvuca: mistura de sementes usada na semeadura direta (Fotos – Nina Jacobi)

O PASSO A PASSO DA SEMEADURA DIRETA

– Coleta de sementes de árvores nativas do bioma

– Preparação da muvuca, mistura de 1/3 de sementes com 2/3 de areia

– Aplicação de herbicida de amplo espectro para dessecar o pasto da área que será plantada a muvuca

– Plantio mecânico ou manual da muvuca

– Passagem do trator com grade superficial (no caso do plantio mecanizado, em que o solo tenha sido revolvido antes da semeadura) para cobrir as sementes

– Produtor precisa comunicar à Secretaria de Estado do Meio Ambiente o plantio da vegetação nativa

– Um mês após a semeadura, se o capim persistir, aplicar um herbicida de folha estreita

– Monitoramento da área para garantir que, 20 anos após o plantio, a área restaurada tenha no mínimo 30 espécies de árvores nativas e uma cobertura de copa de 80% (Observação: Cada estado tem uma regulamentação específica de como a área deve estar depois de 20 anos. A descrição acima vale para o Estado de São Paulo)

– No caso de Reserva Legal ou outras áreas restauradas com vegetação nativa, o fazendeiro precisa comunicar à Secretaria de Estado do Meio Ambiente, quando for fazer a exploração madeireira, o manejo sustentável da vegetação nativa. (Observação: O manejo madeireiro não é permitido em Áreas de Preservação Permanente – APPs)

Para saber mais:

Por Lívia Andrade

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