Jovens produtores modernizam o campo

30 de agosto de 2018 7 mins. de leitura
Atentos às inovações tecnológicas e à gestão financeira, eles otimizam os recursos e multiplicam os ganhos das propriedades rurais
Talentos da pecuária: os irmãos Ralston criam hoje 3.500 cabeças de gado em 240 hectares
O campo vem passando por uma transformação e o Brasil, que era importador de alimentos até a década de 70, tornou-se um dos maiores produtores de alimento do mundo. Essa revolução se deve a um pacote tecnológico que engloba sementes, insumos, boas práticas agrícolas, maquinários modernos e agricultura de precisão. Com esses recursos, de 1990 para cá, a produção nacional de grãos avançou 261%, enquanto a área plantada cresceu apenas 53%. A explicação está no produtor brasileiro. “Ele é acima de tudo um empresário rural, que usa tecnologia avançada”, comentou João Martins da Silva Júnior, presidente da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), em discurso durante o Global Agribusiness Forum (GA F) 2018, realizado no final de julho em São Paulo. Neste universo, os jovens fazendeiros estão na vanguarda. Muitos herdaram ou dirigem a fazenda de pais ou avôs, mas eles são outra geração. Após frequentarem cursos superiores, voltaram para a propriedade com a mentalidade diferente. Agora, o foco é a gestão profissional e não poupam para produzir mais e melhor na mesma área. A reportagem do Caderno Agro conversou com três jovens com este perfil. Os irmãos Luis e Jorge Ralston, 30 e 26 anos respectivamente, destacam se na criação de gado. Em 2016, aliás, eles receberam do Rally da Pecuária – expedição técnica organizada pela consultoria Athenagro, que percorre as principais regiões produtoras do Brasil e faz uma avaliação da pecuária de corte nacional – o prêmio Jovem Talento da Pecuária. Foi um justo reconhecimento. Segundo os dados da Athenagro, no ano passado, a produtividade média nacional foi de 8,9 arrobas por hectare ano. Já a previsão dos irmãos Ralston é fechar 2018 com 67 arrobas por hectare. Outro bom exemplo é o paranaense Rennan Castoldi Santiago, 30 anos, que tem feito um trabalho minucioso de cruzamentos de dados de fertilidade de solo e produção por talhão e, com isso, conseguiu aumentar em 20% a produtividade das lavouras. DESTAQUES DA PECUÁRIA Formados em engenharia agronômica pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da USP, em Piracicaba, os irmãos Luis e Jorge Ralston assumiram a fazenda da família em Rio Verde (GO), em 2015. Desde 1989, a Fazenda Sete Léguas era tocada à distância pelo pai, fazendeiro em São Paulo. “No início, todo dia eu conversava com meu pai por Skype. Ele sempre foi liberal, delegava bastante e me deixou bem à vontade”, diz Luis, que chegou em Goiás em 2013. Dois anos depois, seu irmão Jorge também foi morar em Rio Verde. Juntos, os dois irmãos reestruturaram a organização da fazenda, voltada à pecuária de corte, criação de frangos e suínos e plantação de seringueiras. Atualmente, comandam uma equipe de 45 funcionários. Eles dividiram a fazenda por áreas de atividade e colocaram um líder para cada uma. “Já existia uma premiação de colaboradores por desempenho, mas aumentamos e o resultado melhorou”, comenta Jorge. A fazenda tem 1.500 hectares arrendados para produtores de grãos, 240 hectares de pecuária intensiva, 280 hectares de eucalipto, 80 hectares de plantação de seringueiras e dez granjas de frangos e suínos. A meta é que a propriedade seja o mais sustentável possível. “Para dar equilíbrio, fazemos a integração lavoura-pecuária. As áreas que são lavouras hoje já foram pastos antes e vamos rotacionando a cada sete anos, sempre com o objetivo de a pecuária dar o mesmo lucro da agricultura”, explica Luis. Até 2013, a família Ralston se dedicava à pecuária de ciclo completo e chegou a ter 4.000 cabeças de gado em 1.100 hectares. Mas, a partir dali, mudou para recria e engorda. “Nós compramos bezerros de 6 ou 7 arrobas e mantemos no pasto por um ano inteiro. Depois, fechamos no cocho por 100 dias e enviamos para o abate com 20 arrobas”, observa Luis. Embora a área de pecuária hoje seja muito menor, a quantidade de animais é praticamente a mesma: 3.500 animais em 240 hectares. A pecuária intensiva é uma atividade de alto risco. “Colocamos 15 bezerros por hectare a um custo de R$ 1.100 cada um. Isso dá quase R$ 17.000, fora a ração e o custo operacional”, afirma Luis. Por isso, os irmãos têm tudo anotado: índice de chuva, altura das pastagens, quantidade de ração colocada nos cochos, estoques. O empenho tem dado resultado. A previsão é fechar o ano com uma produção de 67 arrobas por hectare. DE AVÔ PARA NETO Rennan Castoldi Santiago herdou do avô, Adelino Castoldi, 85 anos, a paixão pelo campo e pelo empreendedorismo. Desde pequeno, ele costumava passar as férias na fazenda Planalto, de 340 hectares, em Imbaú (PR). “Meu avô havia ido para Mato Grosso quando o Estado havia se transformado na grande fronteira agrícola. Depois, retornou ao Paraná e comprou essas terras pouco antes de eu nascer”, conta Rennan. A vivência no campo o levou a cursar engenharia agronômica. “Depois, quando me formei, meu avô propôs que eu tocasse a propriedade a seu lado”, lembra. Embora receoso, ele aceitou. Juntos, avô e neto, retomaram os trabalhos na fazenda da família que havia sido arrendada por quase 20 anos.
Ganhos otimizados: Rennan e o avô conseguiram aumentar em 20% a produtividade
Após a vinda de Rennan, a fazenda ganhou nova configuração. Hoje, a propriedade tem 260 hectares destinados ao plantio de soja, milho, feijão e trigo, além de uma área para engorda de gado. “Quando meu avô começou na pecuária, ele trabalhava com cria e tinha 400 matrizes. Hoje, há praticamente a mesma quantidade e confinamos 300 animais por ano, mesmo com boa parte da área destinada à lavoura”, afirma. Segundo o engenheiro agrônomo, a otimização do uso da terra se deve à tecnologia. “Em um determinado momento, percebemos que para melhorar a renda havia duas possibilidades: arrendar terras de vizinhos ou agregar valor ali dentro. Optamos pela segunda”, diz. Foi quando a Solos Agricultura de Precisão foi contratada para fazer o mapa da fertilidade da propriedade. “Mapeamos a fazenda por GPS e um software define os pontos de coleta de amostras do solo. Depois, o material é enviado para análises de laboratório”, explica Marcelo Pezzati, consultor da empresa, que utiliza drones para averiguar a saúde vegetal das lavouras durante a safra. Com os resultados, é elaborado o mapa de aplicação de fertilizantes para cada talhão da propriedade. Para Rennan, a importância da agricultura de precisão está em trazer informações que ajudam na tomada de decisão. “Ao passar pela plantação, a colheitadeira gera um mapa de produtividade. Com isso, eu sei como está a produção de cada talhão e cruzo com dados de época de plantio, adubação, variedades. Assim, consigo pensar um manejo diferente para encaixar uma maior produção com menor custo”, diz Rennan Santiago, que tem três funcionários fixos na fazenda e dois safristas.
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