Hambúrguer vegetal quer conquistar carnívoros

28 de agosto de 2019 4 mins. de leitura
Foodtech Fazenda Futuro começa a fabricação de carne vegetal no Brasil; gigantes como Marfrig e ADM anunciam parceria para entrar nesse mercado
A carne vegetal é produzida com leguminosas e vegetais promete textura, gosto e suculência de carne animal 

No início do mês, a capital paulista foi palco do Congresso Brasileiro do Agronegócio. Na cerimônia de abertura, a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, falou sobre o protagonismo do consumidor e sua preocupação com hábitos alimentares, que tem gerado oportunidades, como no segmento de proteínas vegetais.

“O que começou como nicho de mercado hoje movimenta US$ 5 bilhões em todo mundo”, disse a ministra. O setor já conta, inclusive, com seus unicórnios (empresas que valem mais de US$ 1 bilhão), como a Impossible Food, que vende na rede de fast food Burger King, e a Beyond Meat. “O setor deve crescer na faixa de 30% ao ano e movimentar US$ 80 bilhões em 2030”, completou a ministra.

As duas empresas citadas são americanas e se encaixam no conceito de foodtech, companhias que usam a tecnologia para quebrar paradigmas na produção de alimentos. Elas foram as pioneiras na fabricação de hambúrgueres de planta, um produto feito com leguminosas, mas com textura, gosto e suculência de carne.

O que parecia um “voo de codorna” está alçando voos mais altos, inclusive no Brasil, o maior exportador de carne bovina do mundo. Em terras tupiniquins, quem está na vanguarda deste movimento são os empresários Marcos Leta (criador da Sucos Do Bem) e seu sócio, Alfredo Strechinsky. Em 2016, depois de vender uma marca de bebidas, eles começaram a pesquisar o mercado de alimentos.


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Foram para os EUA, visitaram várias empresas e, em 2017, compraram a Good Catch Food, uma foodtech que produzia atum de plantas. Ao voltar para o Brasil, tinham um objetivo fixo. “Trazer uma alternativa de carne vegetal, que deixasse obsoleto os frigoríficos e a forma como eles produzem”, diz Leta.

De lá até abril deste ano, desenvolveram nove versões de hambúrgueres até chegar à versão 1.0 do Futuro Burger, um produto com 17 gramas de proteína, que leva ervilha, proteína isolada de soja e grão-de-bico, beterraba (que emula o sangue da carne), além de condimentos como sal, pimenta e cebola. O Futuro Burger 1.0 foi lançado em abril e marcou o ingresso no mercado da Fazenda Futuro – foodtech 100% brasileira, que já recebeu US$ 8,5 milhões de investimentos e está avaliada em US$ 100 milhões.

“Hoje estamos em 3 mil pontos de venda: 2,5 mil do varejo e 500 hamburguerias”, diz Leta. A Black Beef – rede de hamburguerias presente em 16 cidades brasileiras – é uma delas. “Experimentamos o Beyond Burger, a versão americana do hambúrguer de planta, no ano passado, em Chicago, e começamos o trâmite para importar”, conta Mauricio Coutinho, CEO da rede.

Rede Black Beef fechou parceria com Fazenda Futuro e colocou o hambúrguer de planta no menu (Fotos: Divulgação)

A burocracia, porém, dificultou o processo. “Foi quando conhecemos o Futuro Burger. Achamos melhor que o Beyond Burger e fechamos parceria.” Batizado de Futuro Black Beef, o novo hambúrguer sai por R$ 26 e entrou no cardápio da rede em junho

O relatório sobre Clima e Terra do Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC) recomenda uma redução no consumo mundial de carne por causa da pressão sobre os recursos naturais (solo e água) e da maior demanda por proteína animal em função do aumento da população mundial. O dado é rechaçado por pesquisadores brasileiros, que alegam que as informações não refletem a realidade da pecuária bovina nacional.

De qualquer forma, o apelo ambiental da “carne vegetal” tem surtido efeito, inclusive entre os carnívoros que desejam diminuir o consumo de proteína animal. A prova disso é que no início deste mês a Marfrig Global Foods, maior produtora de hambúrguer do mundo, anunciou um acordo com outra gigante do agro, a americana ADM, para iniciar a produção de carne vegetal no Brasil. “É uma inovação que complementa nosso portfólio. Queremos que o consumidor dos produtos Marfrig tenha poder de escolha”, respondeu, por e-mail, a assessoria da empresa.

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