Crise na Turquia pode afetar pecuaristas brasileiros

27 de setembro de 2018 4 mins. de leitura
O país é o maior importador de gado vivo do Brasil, mas sofre com a desvalorização da moeda local, o que pode afetar o volume de compras de gado previsto para o ano
Turquia costuma pagar cerca de 60% a mais pelo quilo do gado vivo
Os pecuaristas brasileiros começaram o ano animados com a perspectiva de bater o recorde de exportação de gado vivo registrado em 2013, quando foram exportadas 651 mil cabeças. Para 2018, até o fim de julho, a previsão da Associação Brasileira dos Exportadores de Animais Vivos (Abreav) era exportar 750 mil cabeças, o que renderia ao País US$ 800 milhões. A crise econômica da Turquia, maior importador do segmento, no entanto, pode frustrar a expectativa. “Dependemos muito do mercado turco. Por isso, estamos revisando os números”, diz o veterinário Ricardo Barbosa, presidente da Abreav. De janeiro a julho, o Brasil exportou 468 mil cabeças, e a Turquia foi o destino de 75% deste volume. A importação de gado vivo, em vez de carne in natura, tem razões religiosas. A Turquia é um país muçulmano e segue rituais islâmicos para matar os animais, conhecidos como abate Halal. Nesse tipo de abate não é permitida a insensibilização do bicho antes da degola. A rês é sacrificada por um muçulmano praticante, que faz uma oração com a face voltada para Meca antes da sangria, que deve ser feita em golpe único. O fato é que o mercado já considera quebra de contratos devido à desvalorização de 40% da moeda turca. Essa informação, no entanto, foi negada pelo presidente da Abreav. “As relações entre importadores e exportadores têm acordos de longo prazo. Os contratos, porém, são sempre de curto prazo, já que dependem do câmbio”, diz Barbosa. Segundo ele, os turcos estão renegociando os contratos para que o “negócio caiba no bolso deles”. GAÚCHOS PREOCUPADOS Em termos de volume, as exportações de gado vivo são pouco representativas para o Brasil, mas significam uma importante arma para o pecuarista, principalmente em regiões em que há poucos frigoríficos. Com a possibilidade de exportar, o criador consegue negociar melhores preços pelo boi no mercado interno, já que a Turquia costuma pagar 60% a mais pelo quilo do animal vivo. De outro lado, a indústria nacional vem divulgando que as remessas de gado para o exterior podem causar desabastecimento. Os números, porém, revelam que não. No ano passado, as indústrias brasileiras somaram uma receita de US$ 6 bilhões com exportações de carne bovina. Já as exportações de gado vivo totalizaram US$ 300 milhões — apenas 5% do total. Pará, São Paulo e Rio Grande do Sul, nessa ordem, são os estados que mais exportam gado vivo. A situação dos pecuaristas gaúchos, no entanto, é mais delicada, porque a Turquia é o único destino de suas exportações. De janeiro a julho, o Rio Grande do Sul exportou 22,2 mil toneladas, volume equivalente a US$ 56,3 milhões em receita. Geralmente, as vendas de gado vivo do estado representam apenas 1% da oferta anual de animais para abate, mas 2018 deve fechar em 3%. “Foi um ano bem forte, tivemos muitos embarques no primeiro semestre”, afirma Antônio da Luz, economista- -chefe da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul). Ele acredita que os contratos assinados com a Turquia serão respeitados – mas dificilmente haverá novos contratos. “Em julho, eles já estavam com problemas, mas as exportações foram mantidas. Em agosto, não teve embarque”, diz o economista. “A projeção do Rio Grande do Sul era exportar entre 150 mil e 160 mil cabeças para Turquia este ano, mas os gaúchos deixaram de castrar muito mais que isso”, diz Barbosa. Aí reside o problema: enquanto o mercado turco exige que o gado não seja castrado, os frigoríficos nacionais demandam animais castrados. “Os pecuaristas vão vender para o mercado interno, mas por um preço bem menor”, diz Luz. Além da Turquia, o Brasil exporta gado vivo para Líbano, Jordânia, Iraque e Egito e acabou de fechar acordos sanitários com Laos e Tunísia. Agora, as empresas brasileiras podem fazer negócio com esses países. “Também estamos em negociação com Irã, Arábia Saudita e Vietnã”, finaliza o presidente da Abreav.
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