Uma safra de desafios

4 de julho de 2022 4 mins. de leitura
Plano Safra 2022/23 será anunciado hoje, num cenário de recursos restritos para o crédito rural e forte aumento do custo de produção

Hoje o Ministério da Agricultura deve anunciar o Plano Safra referente à safra 2022/23, que se inicia oficialmente em 1º de julho de 2022 e se encerra em 30 de junho do ano que vem. O desafio será equilibrar a maior demanda por crédito rural – tendo em vista o aumento exponencial de custos para o plantio este ano, sobretudo com fertilizantes e agroquímicos – com os escassos recursos disponíveis, tanto para equalização das taxas de juros das linhas subsidiadas quanto para o seguro rural, em uma conjuntura limitada pelo teto de gastos. A boa notícia é que os preços das principais commodities agrícolas, como soja e milho, prometem se manter em altos níveis no ano que vem, neutralizando, em parte, esse aumento de custos.

Segundo relatório do banco Rabobank, a rentabilidade para o produtor de soja e milho em 2022/23 deve ficar no patamar de 55% sobre os custos operacionais. “É uma redução em relação à safra 2021/22, quando a margem agregada da produção ficou em torno de 61%”, diz a instituição. “Ainda assim, isso representa crescimento sólido em relação à média de 37% nos últimos cinco anos.”

Diante da boa rentabilidade esperada para os grandes produtores, o secretário de Política Agrícola do Ministério da Agricultura, Guilherme Bastos Filho, adiantou, em live recente, que o novo Plano Safra manterá seu foco nos pequenos e médios produtores. “Eles ainda precisam do aconchego do Estado”, justificou. E ressaltou que, para atender os grandes, a diversificação das fontes de financiamento é fundamental, sobretudo “o estímulo à concorrência pelos recursos equalizados”.

Recursos extras

O ingresso do capital privado é importante para financiar o plantio da próxima safra, a partir de setembro, pois se estima serem necessários R$ 740 bilhões em recursos para concretizar o plantio, segundo Bastos Filho, na mesma live. “A gente sabe que não vai conseguir atender tudo isso, então realmente precisamos de recursos privados”, disse. Na safra 2021/22, por exemplo, o governo federal cobriu R$ 251,22 bilhões em crédito rural. O restante dos recursos necessários veio da iniciativa privada, seja de bancos, de novos títulos do agronegócio, ou de tradings, que financiam a compra de insumos para o produtor, que se compromete, mais à frente, a entregar parte dos grãos colhidos como pagamento.

330 bilhões de reais

É o valor solicitado pela OCB para o crédito rural no Plano Safra 2022/23

22 bilhões de reais

É quanto a CNA sugere para equalização das taxas de juros na próxima safra

740 bilhões de reais

É o valor necessário para levar à frente o plantio de grãos em 2022/23, segundo o Ministério da Agricultura

Mesmo em um cenário de escassez de recursos, porém, a pujança do agronegócio no País permite às principais entidades do setor reivindicar um quinhão maior para o crédito subsidiado. A Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), por exemplo, pediu ao governo federal, em abril, um aumento substancial dos recursos para financiamento no Plano Safra 2022/23 – a sugestão contemplaria R$ 330 bilhões em empréstimos, valor 31% maior do que foi aplicado na safra 2021/22. Do total, R$ 234 bilhões seriam destinados a custeio e comercialização e cerca de R$ 97 bilhões, para investimentos.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) preferiu focar suas reivindicações, em documento entregue em 17 de maio ao Ministério da Agricultura, principalmente no aumento dos recursos para equalização das taxas de juros do Plano Safra. A entidade solicitou R$ 22 bilhões para essa finalidade – ante R$ 13 bilhões na safra 2021/22. 

Segundo a CNA, com R$ 22 bilhões para equalizar as taxas de juros, estas poderiam se manter ainda abaixo dos dois dígitos para o produtor – em que pese a Selic, que é a taxa básica de juros da economia, estar em plena ascensão e, atualmente, em 13,25% ao ano. Com mais recursos do Tesouro Nacional para equalizar essas taxas, seria possível, conforme a CNA, garantir juros viáveis para o produtor financiar seu plantio e investir em tecnologia.

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