Potencial para abastecer o mundo

27 de outubro de 2021 5 mins. de leitura
Salto na produção agropecuária do Brasil nas últimas décadas garante, hoje, comida para pelo menos 1 bilhão de habitantes

>>> Vinicius Galera

 Neste mês em que se comemora o Dia Mundial da Alimentação, 16 de outubro, seria impossível não citar a imensa capacidade do Brasil para produzir alimentos. Não só para si, mas para o mundo. Quando se considera o conjunto da produção vegetal e animal no País, há comida suficiente para mais de 1 bilhão de pessoas no planeta, ou seja, 4 vezes mais a população do próprio Brasil, cita o pesquisador e chefe-geral da Embrapa Territorial, Evaristo de Miranda. E, para ele, o País pode dobrar essa capacidade. “O mundo conta com o aumento da produção de alimentos do Brasil. Outros países não têm como aumentá-la significativamente, como apontam estudos, entre outros da própria FAO/ONU”, afirma.

“O mundo conta com a produção de alimentos do Brasil, inclusive no futuro”

Evaristo Miranda, chefe-geral da Embrapa Territorial

A meta, segundo Miranda, pode ser alcançada com o aumento da produtividade e o uso das tecnologias “poupa-terra” que, como o nome diz, são capazes de elevar índices produtivos sem a necessidade de abertura de mais áreas. Foram elas que promoveram o desenvolvimento agropecuário e elevaram exponencialmente a produção brasileira nas últimas décadas. Veja na tabela abaixo o caso do milho, um dos grãos mais utilizados no mundo. Enquanto a produção saltou 510% em 45 anos, a área utilizada cresceu bem menos, 81%. 

Em 1976, a produtividade nacional de grãos era de 1,2 tonelada por hectare. Para colher a safra atual, considerando-se a mesma produtividade de 45 anos atrás, o Brasil precisaria ter desmatado quase 200 milhões de hectares, segundo Miranda, ou o triplo da área utilizada atualmente. “O desmatamento evitado foi enorme, graças ao aumento da produtividade”, diz ele, acrescentando que o processo de intensificação produtiva, em que se fazem dois a três cultivos anuais na mesma área, vai prosseguir. O agrônomo diz que o setor agropecuário caminhará com “duas pernas” no futuro próximo: a preservação e a produção. 

O coordenador científico do Cepea, Geraldo Barros, confirma que o Brasil, de fato, tem um potencial enorme para alimentar sua população e o mundo. “A produção cresce a taxas de 3% a 4% ao ano. Não é comum ter esse tipo de aumento numa atividade econômica. Em dez anos, podemos crescer de 30% a 40%, nessa base.” Para Barros, tais taxas são possíveis porque a agricultura utiliza muita tecnologia baseada em maquinário e escala. 

“Agronegócio brasileiro tem de solucionar problemas que sabe que existe, como o desmatamento”

Geraldo Barros, coordenador científico do Cepea

Mas o professor faz alertas importantes sobre as dificuldades que o País pode enfrentar para desenvolver o potencial produtivo. Segundo ele, o setor agropecuário brasileiro precisa começar a solucionar problemas que nem sempre admite que tem, como o desmatamento ilegal e o uso exagerado de agrotóxicos. “Sabemos que a comunidade internacional faz uso político desses problemas, mas não adianta negá-los. Eles existem. Os números estão aí”, diz. 

O coordenador do Cepea explica que, apesar de grandes empresas ostentarem certificados de boas práticas, em casos de irregularidades, mesmo que sejam pontuais, o País, como um todo, fica marcado. “A comunidade internacional está ficando mais consciente e intolerante com coisas como desmatamentos e geração de resíduos.” 

Outra preocupação é com alimentos sintéticos, produzidos em laboratório, cada vez levados mais a sério nos países desenvolvidos. “O mundo está em busca de uma carne menos emissora de gases. As carnes sintéticas dão a impressão de ficção científica, mas podem ser uma revolução e se tornar uma ameaça séria ao modelo do agronegócio. O Brasil tem que estar atento a esses desafios e ameaças. É preciso fazer deles uma oportunidade.”

De acordo com o professor, os produtores capazes de elevar o potencial produtivo não representam nem 10% do total. De acordo com o Censo Agropecuário de 2017, realizado pelo IBGE, 8% dos grandes e médios produtores detêm 85% do Valor Bruto da Produção agropecuária (VBP), enquanto 19% dos produtores de baixa renda detêm 11%. Todo o restante, 73%, vive na extrema pobreza (recebem entre zero e 2 salários mínimos) e contribuem com apenas 4% do VBP.

“Valorização da agricultura familiar é importante para reduzir insegurança alimentar”

Gustavo Chianca, representante adjunto da FAO no Brasil

“O problema da agricultura está aí. É preciso que se faça uma inclusão produtiva. Grande parte do meio rural vive em condições de pobreza e miséria, sem perspectivas. O ideal seria reter essas pessoas no campo, com transferência de renda.”

Para a FAO, a produção da agricultura e da pecuária brasileiras é mais do que o suficiente para alimentar a população do País. Mas o representante adjunto da organização no Brasil, Gustavo Chianca, adverte: “A valorização da agricultura familiar e o incentivo a circuitos curtos de produção são importantes para acabar com a insegurança alimentar, ao mesmo tempo que reduzimos a pegada de carbono e reduzimos a migração do campo para a cidade.”

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