Plant-based é tendência que veio para ficar

27 de outubro de 2021 7 mins. de leitura
Grandes indústrias, inclusive aquelas com forte atuação no mercado de proteína animal, investem pesado na tecnologia

A busca do consumidor por sustentabilidade tem feito surgir novas tendências no mercado alimentar. É o caso das proteínas feitas à base de plantas, ou plant-based, nicho que cresce de forma acelerada aqui e lá fora, à medida que avança o movimento de substituição de proteína animal, seja pelos vegetarianos, veganos e “flexitarianos”. E, se existia alguma dúvida de que essa seria uma grande aposta para os próximos anos, investimentos recentes de gigantes do setor alimentício provam que a tendência não é passageira.

Estudo feito pelo The Good Food Institute (GFI), com um compilado de projeções de instituições financeiras, apontou que o mercado de plant-based pode atingir entre US$ 100 bilhões e US$ 370 bilhões no mundo até 2035, com participação nos negócios globais de carnes de 7% a 23%. Segundo a empresa, o grupo de flexitarianos – ou seja, aqueles que não deixam de comer carne, mas reduzem seu consumo – no Brasil cresceu de 29% em 2018 para 50% da população em 2020.

Os investimentos iniciais em alimentos à base de plantas partiram de foodtechs e startups, mas empresas que dominam o setor de proteína animal no País decidiram surfar nessa onda e criaram suas próprias linhas. Enquanto a aposta da BRF foi dar o pontapé inicial por meio da importação da tecnologia e posterior desenvolvimento doméstico, a JBS apostou na parceria ou aquisição de empresas de carnes alternativas. Já a Marfrig Global Foods lançou a sua própria startup de proteínas vegetais, a PlantPlus Foods, por meio de uma joint venture com a Archer Daniels Midland Company (ADM).

A estratégia agora integra o plano de crescimento a longo prazo dessas companhias. É o caso da BRF, que anunciou, no ano passado, como parte do seu plano de triplicar o faturamento até 2030, a meta de liderar o desenvolvimento do mercado plant-based no Brasil nos próximos anos. “A única certeza que nós temos é de que as tendências de consumo ainda vão mudar bastante e queremos estar prontos para liderar essas mudanças“, disse o vice-presidente de Novos Negócios da BRF, Marcel Sacco. O diretor de Novos Negócios da BRF, Sérgio Pinto, endossa a avaliação e comenta que o momento pode não ser tão favorável quanto em 2020, quando o auxílio emergencial aumentou o poder de compra dos consumidores em meio à crise econômica, “mas o hábito está aí e a tendência mostra que isso é irreversível”.

“A única certeza que temos é que as tendências de consumo mudarão bastante e queremos liderar essas mudanças”

Marcel Sacco, vice-presidente de Novos Negócios da BRF

O primeiro passo da BRF foi dado em março de 2020, com o lançamento de uma opção de hambúrguer e de nuggets feitos à base de plantas, com produtos importados da Holanda, enquanto a tecnologia nacional estava em desenvolvimento. “Começamos com a produção de um parceiro externo, mas não dá para ser competitivo trazendo isso de fora do Brasil.” Por isso, agora toda a produção é feita em território brasileiro, com os produtos similares ao frango sendo fabricados em Cotia (SP), e a carne moída, quibe e hambúrguer vegetais produzidos em Blumenau (SC).

Em 2021, a BRF espera multiplicar por nove a receita obtida com a venda de produtos plant-based da linha Veg&Tal da Sadia, na comparação com a pequena base de 2020. O crescimento tem como base uma estratégia de aumentar a penetração dos produtos nas casas dos consumidores, além do lançamento de mais variedades de alimentos, contam os executivos. No quesito de proteínas alternativas como um todo, a BRF vai seguir trabalhando para colocar no mercado produtos de carne cultivada até 2024. Em julho, a empresa anunciou um aporte de US$ 2,5 milhões em rodada de investimentos da startup israelense Aleph Farms, que desenvolve a tecnologia.

A JBS identificou o plant-based como tendência global há alguns anos, o que a levou a ser a primeira no Brasil a desenvolver produtos de carnes de origem vegetal: a linha Incrível, da Seara, lançada em dezembro de 2019 e que este ano foi desmembrada e tornou-se uma unidade de negócio independente dentro da empresa. “Agora, o negócio possui toda a estrutura, desde a indústria até o produto final, para atender às necessidades desses consumidores em um mercado que só tende a crescer no Brasil e no mundo”, afirmou a diretora da Incrível Seara, Gabriela Pontin.

A executiva destaca que o negócio Incrível já é líder no segmento de proteínas vegetais no País. Nesse sentido, a unidade lançou recentemente a linha Incrível Cortes, com cinco novos tipos de produtos plant-based, que se somam a outros 11 já comercializados. A expectativa é de que os lançamentos acelerem a evolução da unidade, para um crescimento de mais de 50% no ano que vem.

Além de no Brasil, a JBS também opera no setor de carnes alternativas dos Estados Unidos, por meio da Planterra, com a marca OZO, e na Europa, com a Vivera, adquirida pela brasileira por um valor de mais de R$ 2 bilhões, e o negócio de alimentos preparados da Kerry Group, no Reino Unido e na Irlanda, que conta com a marca Taste & Glory. As marcas concentram grandes centros de produção, inovação e também de distribuição, com a venda dos produtos para outros países via exportação. 

“Essa estrutura global permite uma antecipação de tendências e troca de conhecimento. Para consolidar as tendências, a JBS adota a estratégia de ‘levantar e lançar’, que identifica experiências bem-sucedidas em um mercado e, em seguida, faz as adaptações necessárias para lançar o produto em outra região, respeitando as características locais”, acrescentou Pontin.

A internacionalização também é uma vantagem competitiva para a PlantPlus Foods. O desenvolvimento da tecnologia é fruto de uma colaboração entre a ADM e a Marfrig, mas os processos são facilitados de formas diferentes pelas duas empresas. O fornecimento de matéria-prima, por exemplo, principalmente proteína de soja, começa na ADM, por meio da fábrica em Campo Grande (MS). Já a produção e a finalização do produto ocorrem em Várzea Grande (MT), uma unidade de processamento da Marfrig que já foi construída com um potencial de expansão.  

A companhia, que nasceu como startup, tem o objetivo de trazer mais variedades de produtos de proteína vegetal para o mercado consumidor, com a missão de ter “quase uma versão análoga de qualquer tipo de produto animal”, comentou o CEO da empresa, John Pinto. Ele conta que em 2021 a empresa deu um passo importante, com o lançamento de quatro produtos no Estado de São Paulo, e que a expectativa é expandir a comercialização pelo Brasil, com o portfólio tendo sido lançado no food service, em redes como o Outback, Burguer King e Subway. 

“Lançamentos da linha Incrível, da Seara, devem impulsionar nova unidade da JBS para um crescimento de mais de 50% em 2022″

Gabriela Pontin, diretora da Incrível Seara

O que é plant-based

É um alimento – in natura ou processado – feito à base de plantas. A dieta plant-based tem avançado, sob o argumento de reduzir o consumo de proteína animal. Hoje há vários tipos de alimentos que imitam carne, mas são feitos 100% à base de vegetais, como hambúrgueres, nuggets e até “peixes”. Os vegetais utilizados para sua produção são os mais diversos, como soja, grão-de-bico, lentilhas, ervilhas e outros grãos proteicos.

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