Em busca da soja mais proteica

28 de julho de 2021 5 mins. de leitura
Com um grão com teor de proteína acima do contido nos concorrentes, Brasil leva vantagem, mas indústria busca mais

Os produtores de soja do Brasil se orgulham de, ao longo das últimas três décadas, terem contribuído para tornar o País o principal produtor e fornecedor mundial da oleaginosa. E isso com base muito mais no aumento da produtividade do que propriamente na abertura de novas áreas para plantio. Para se ter uma ideia, em 30 anos, o rendimento no campo da soja brasileira deu um salto de 73%, saindo de 2.026 quilos por hectare na safra 1991/02 para 3.517 quilos por hectare na atual safra, de 2020/21, conforme dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). 

Esse expressivo avanço no rendimento por área, porém, não foi acompanhado de um maior rendimento em termos proteicos do grão. Pesquisas indicam que é normal – e não só com a oleaginosa cultivada no Brasil – que, quando a produtividade cresce, há uma natural queda no teor de proteína, o que se torna um desafio para a indústria processadora e para a pesquisa, no sentido de se encontrar uma variedade que seja ao mesmo tempo altamente produtiva e com níveis proteicos igualmente avançados.

O pesquisador da Embrapa Soja Antonio Eduardo Pipolo comenta que, na literatura, a soja tem em média 40% de proteína e 20% de óleo. “Quando se vai para a realidade prática, depois de todos os anos de melhoramento genético da soja, o nível proteico foi decrescendo, em favor do aumento da produtividade”, confirma. “Nos últimos quatro anos, por exemplo, a proteína da soja brasileira ficou na média de 36,9% e o teor de óleo, em 22,3%.” 

Ele diz que, mundialmente – e faz questão de destacar que isso não acontece só no Brasil –, se forem observados os principais países produtores de soja – além do Brasil, Estados Unidos e Argentina –, os teores de proteína estão estagnados. “Esses valores estão parados e com tendência de queda”, continua o pesquisador. “Isso porque a direção do melhoramento genético privilegia a produtividade e, quando se pegam as cultivares mais produtivas, a relação com o teor de proteína é inversa”, comenta.

A proteína na soja é importante para a fabricação de farelo de soja, ingrediente básico para a formulação de ração para a pecuária – tanto na produção de carnes bovina, suína, de frango e de peixes como na de leite. A China, por exemplo, importou, no ano passado, 100,3 milhões de toneladas de grãos de soja para fabricação interna do farelo – entre outras finalidades –, que, com o milho, alimenta o maior plantel de suínos do mundo. Pipolo lembra que a alta concentração de proteína no farelo de soja é importante porque permite a um animal engordar mais rapidamente.

O pesquisador diz que, atualmente, a ampla maioria da soja exportada pelo Brasil é embarcada em grão e uma menor porcentagem sob a forma de farelo. Mas, se no futuro o País conseguir ampliar seus embarques do insumo – objetivo da indústria esmagadora, aliás, já que o farelo é mais valorizado do que o grão –, deve se atentar para o fato de que esse derivado é vendido pelo teor de proteína. Quanto maior esse índice, mais valorizado o farelo. “O teor mais comum de proteína no farelo é de 46%, mas há os de 44% até 48%”, cita o pesquisador. E tudo isso depende, novamente, do quanto o grão original acumulou de proteína. “Quanto mais proteína tiver a soja, maior será o teor no farelo.”

O Brasil, aliás, conforme o economista-chefe da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), Daniel Furlan Amaral, ainda sai na frente de seus concorrentes no quesito proteína. “O teor de proteína da soja brasileira, medido pela Embrapa, situa-se cerca de 2% acima da média dos países concorrentes, o que é um diferencial competitivo para nós”, avalia. De todo modo, Amaral confirma o que o pesquisador Pipolo comentou: que o teor de proteína na soja de fato foi se reduzindo ao longo dos anos, à medida que se privilegiou a produtividade. Por isso, Furlan cita que a Abiove está “em constante diálogo com as empresas desenvolvedoras de sementes”.

A Caramuru Alimentos, trading do setor de grãos, por sua vez, firmou uma parceria com a Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais, há mais de cinco anos, voltada ao desenvolvimento de novas cultivares de soja convencional (não transgênica), comenta o diretor industrial da Caramuru, Walme Taveira Ferraz Filho. “Essas pesquisas também são voltadas a uma soja com alto teor de proteína, maiores do que os existentes e com o desafio de conseguir também alta produtividade”, explica. 

Aliar as duas qualidades em um único grão – alta produtividade e alto teor de proteína – é um grande desafio, concorda Pipolo, da Embrapa. “Os norte-americanos estão ‘loucos’ atrás dessa soja e não resolveram esse problema até agora”, comenta. “Se fosse fácil, com toda a tecnologia que eles têm, já teriam resolvido.” Por isso, para ele, não se trata de uma pesquisa para um “curto espaço de tempo”. O pesquisador informa que a Embrapa tem um programa de melhoramento genético da soja que também tem essa questão em vista.

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