Crédito rural chega às fintechs

27 de outubro de 2021 6 mins. de leitura
Sistemas são digitalizados, online e usam inteligência artificial, do cadastro até a liberação do dinheiro para o produtor

Depois de abrir caminho para a entrada de tecnologias aplicadas à lavoura, o produtor rural vê a modernização chegar às finanças. No último ano, no Brasil, quase dobrou o número de startups de crédito voltadas ao agronegócio. Na pesquisa Radar Agritech 2020/21, que mapeia startups do setor agropecuário, constam 43 que oferecem serviços financeiros, incluindo crédito, análise e comercialização para produtores rurais – ou seja, as fintechs. Em 2019, eram 24. O levantamento é feito pela Embrapa, SP Ventures e Homo Ludens.

“A gente viu uma revolução tecnológica no campo. Mas no setor financeiro, voltado para o agronegócio, é recente”, diz a diretora da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs), Mariana Bonora. “Percebemos que, nos últimos anos, vem ocorrendo uma mudança de cultura com a sucessão na gestão. Os filhos são mais abertos a tecnologias, usam aplicativos, assinam contratos digitalmente, compram insumos online. Essa geração está sendo essencial para a inovação.”

Ela destaca ainda a aprovação da Lei do Agro (nº 13.986/2020), que trouxe mudanças importantes, como a emissão digital de títulos do agronegócio. Além disso, a pandemia ajudou no avanço das fintechs.

“O agronegócio é um mercado imenso e muitos produtores têm dificuldade em acessar crédito. As fintechs suprem essa lacuna com um processo mais barato, transparente, flexível e ágil”, diz Mariana. “Em um banco, um financiamento rural pode demorar mais de 30 dias. Na fintech, sai em dois dias.” Em uma fintech, tudo é digitalizado e online, do cadastro até a liberação do dinheiro. O produtor não precisa sair de casa, nem para assinar os contratos.

Pesquisa recente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), feita com 4.336 entrevistados, mostra que 38% dos produtores nunca acessaram nenhum tipo de crédito. As principais dificuldades são burocracia, “papelada”, garantias exigidas nas operações, demora na liberação do dinheiro e falta de informação. Por isso, a previsão é otimista para as “agfintechs”. E, para ajudar a fomentar ainda mais os financiamentos para o setor, recentemente a ABFintech propôs ao governo federal um projeto para que as fintechs possam captar o dinheiro do crédito rural oficial, a juros subsidiados, ideia bem recebida.

$ Em menos de um ano, a Nagro liberou R$ 30 milhões em crédito para 1.300 produtores de 17 Estados. Meta é chegar a R$ 500 milhões até o fim de 2022.

Dinheiro na hora certa

Alguns inovadores das startups financeiras são filhos de produtores, que começaram a pesquisar alternativas porque tiveram dificuldade em conseguir crédito, como o CEO e cofundador da mineira Nagro Crédito Rural, Gustavo Alves. Filho e neto de agricultores, em 2012 ele e o irmão arrendaram uma área para soja e precisavam de dinheiro para o plantio. “Não tínhamos histórico em banco e precisávamos de R$ 150 mil. Demorou mais de um ano para conseguirmos”, lembra Alves.

Naquela época, ele também trabalhava em uma multinacional, onde percebeu que outros produtores tinham a mesma dificuldade. Então decidiu agir e fundou, em 2017, uma startup de crédito exclusiva para o agronegócio, que intermediasse o produtor e os bancos.

Desde o ano passado, a empresa mudou seu foco e iniciou a operação própria de crédito. “Temos duas frentes: de financiamento e de inteligência para análise de crédito”, explica. Na primeira, a Nagro montou uma estrutura que capta recursos do mercado financeiro para liberar o crédito ao produtor, com taxas semelhantes às de mercado, a partir de 0,9% ao mês. O diferencial é a simplicidade e a rapidez do processo. Em algumas linhas, afirma, a liberação é em até 48 horas. Para conseguir essa agilidade, foi preciso simplificar procedimentos, reduzir papelada e digitalizar todo o processo, até a assinatura do contrato.

O segundo produto da Nagro é o AgRisk, um banco de dados de mais de 100 mil produtores. “Criamos inteligência artificial para cruzar essas informações. São mais de 50 fontes de dados. O computador faz a análise e dá uma resposta dentro dos padrões da Nagro ou da empresa que está usando o banco de dados. Uma análise normal demoraria oito horas, a gente faz em dois minutos”, diz o CEO.

Outra fintech é a AgroPermuta, voltada para o financiamento de bens como energia renovável, máquinas, irrigação e silos. Seu fundador, Alex Kalef, explica que o diferencial é a forma de pagamento e a garantia. “A gente faz permuta com a safra futura. O produtor recebe o bem e paga em três anos. A garantia do empréstimo é a produção”, diz. “Temos R$ 20 milhões em financiamentos feitos nesses seis meses e uma carteira futura de R$ 50 milhões até o fim do ano.” 

Banco agro digital

Alves, da Nagro, e o banco WTK: soluções financeiras online para o produtor
Alves, da Nagro, e o banco WTK: soluções financeiras online para o produtor. (Fonte: Bancon WTK/Reprodução)

Outra novidade tecnológica é o banco digital WTK, que nasceu para atender apenas o produtor rural. Em pouco mais de seis meses, soma mais de 380 mil contas abertas.

“Desde criança, vejo a batalha diária do produtor rural e, principalmente, quais são as maiores dificuldades que esses trabalhadores enfrentam. A gente conhece o potencial do agro e sabe como a parte financeira influencia. Queremos ser a solução completa para essas pessoas”, destaca Karina Weingarther, filha de agricultores e sócia-fundadora da WTK, fintech voltada 100% para o agronegócio.

O banco começou a operação em março, com a conta digital. Aos poucos, incorporou outros produtos, como empréstimos e consultorias em diversas áreas (agronômica, tecnologia, marketing, jurídica). O próximo passo será a abertura de pontos de atendimento, que serão chamados de “Seu espaço agro”, nas principais cidades movimentadas pelo agronegócio: Rio Verde (GO), Ribeirão Preto (SP), Campo Grande (MS), Uberlândia (MG), Sorriso (MT), Barreiras (BA), Vacaria (RS), Cascavel (PR), Lages (SC), Petrolina (PE), Palmas (TO), Balsas (MA), Linhares (ES), Paragominas (PA), Rio Branco (AC) e Porto Velho (RO).

De acordo com a diretoria da fintech, apesar de o banco ser digital, a abertura de pontos físicos já era prevista e faz parte da estratégia de crescimento para fomentar mais negócios, e também uma forma de estar perto do produtor.

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