Agricultores se conectam a consumidor por meio de foodtech e ampliam vendas

28 de julho de 2021 7 mins. de leitura
Startup desenvolveu plataforma que une as duas pontas e também ajuda a regular a produção para evitar desperdícios na lavoura

Toda manhã, a agricultora Ernestina Pereira Ribeiro de Almeida, de 50 anos, conhecida como Tina, cumpre fielmente a rotina de cuidar das suas plantações em uma propriedade localizada em Ibiúna, interior paulista, onde nasceu, cresceu, se casou e criou as duas filhas. “Levanta, colhe, lava, coloca no caminhão. Volta, planta mais mudas, joga esterco e arruma a terra. Tudo isso conversando com as plantas, porque faço tudo com muito amor e carinho”, conta. O trabalho no campo é uma herança familiar, mas o jeito de produzir e a preocupação com a saúde, após a constante exposição a agrotóxicos, utilizados na agricultura convencional, fizeram com que a atividade tomasse um novo rumo, voltando-se para a agricultura orgânica.

“Em 2001, nós decidimos começar a trabalhar com produtos orgânicos para melhorar nossa qualidade de vida, parando de usar os agroquímicos, e também com a finalidade de aumentar os preços dos nossos produtos”, conta Tina. 

A preocupação não é trivial, tampouco exclusiva da sua família. O consumo de orgânicos tem se acelerado ao longo dos últimos anos. Em 2020, por exemplo, o mercado cresceu 30% em relação a 2019, com faturamento de quase R$ 5,8 bilhões, de acordo com dados da Associação de Promoção dos Orgânicos (Organis). Antes, em 2019, a expansão havia sido de 15% na comparação com o ano anterior. Já entre 2003 e 2017, esse mercado quadruplicou, segundo a entidade. Para este ano, a perspectiva é de alta de 10%, conforme projeção apresentada no início do ano.

Abrahão: venda direta da roça para o consumidor.

“Mas não foi só decidir, precisamos passar por um processo de certificação da área e dos produtos primeiro”, acrescentou Tina. A permissão para comercializar produtos orgânicos com o selo orgânico, que atesta sua procedência e modo de produção, é concedida por meio de certificadoras acreditadas pelo Ministério da Agricultura. Porém, demanda um custo e detalhes burocráticos, o que fez com que Tina optasse por começar a trabalhar e vender as hortaliças e frutas com exclusividade a uma empresa que facilitou a certificação da produção orgânica.

Foram anos produzindo nesse esquema, com eventuais perdas de produtos da roça, que não eram absorvidos pela empresa. E, além de todos os desafios da atividade, no ano passado, a chegada da pandemia de covid-19 acendeu o alarme dos produtores de frutas e hortaliças, e não apenas o da família de Tina. Isso porque o segmento foi o mais afetado na cadeia alimentícia, com a queda na atividade econômica, a restrição da circulação de pessoas e as mudanças nos hábitos de consumo, de acordo com pesquisa do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) publicada no início do ano.

Mas foi do aperto durante a pandemia que veio a virada de chave de que o Sítio Almeida precisava. A agricultora afirma que muitas mercadorias estragaram na roça porque a empresa que realizava as compras também enfrentou uma série de problemas e reduziu o volume comprado. O que permitiu uma recuperação e fez prosperar a produção da família foi a conexão com a foodtech Raízs, que promete garantir uma previsibilidade na demanda por meio da tecnologia e conecta produtores aos consumidores finais, tirando os intermediários do processo.

A agricultora conta que, nos últimos oito meses, as vendas dobraram. Para dar sequência ao crescimento do negócio, a ideia é construir uma nova estufa para a produção de morangos, que vai se somar a outras três na propriedade. Outro projeto de expansão se refere a uma nova área a ser ocupada, que deve elevar os 2 hectares de espaço nos quais ela pode plantar. “Estamos com um terreno novo, trabalhando para certificar, e aumentar a variedade de vegetais”, disse. 

Ralitera: venda direta da roça para o consumidor.

Hoje, a família cultiva alfaces crespa, lisa, roxa, mimosa, além de escarola, cheiro-verde, cebolinha, almeirão, catalonha, agrião, rúcula, brócolis comum e morango. No mês, são cerca de 3 mil pés de verdura, o que totaliza por volta de 36 mil pés anuais.

“É tão gratificante o que eu faço. Quando você vê a alegria das pessoas recebendo esse alimento e como elas valorizam, além de saber que estamos alimentando as pessoas com o nosso trabalho, é incrível”, afirma. É isso o que Tina tenta passar para as filhas, que, diferentemente dela, conseguiram avançar nos estudos e hoje trabalham fora, ajudando apenas uma vez ou outra nas plantações. A filha mais nova, que ainda mora com os pais, por exemplo, está fazendo um estágio na própria Raízs e auxiliando em todos os processos necessários no campo.

Em outra região no interior paulista, a de Morungaba, o produtor David Ralitera já completa cinco anos de produção orgânica e certificada comercializada pela Raízs e mais de dez na atividade, na Fazenda Santa Adelaide Orgânicos

“Começamos o trabalho em 2010, de uma forma bem simples: uma tentativa de incluir legumes e verduras no prato das minhas filhas”, comenta o agricultor orgânico. Na época, ele tinha uma pequena horta, de menos de 500 metros quadrados, e levava as filhas para conhecerem a atividade e acompanharem todo o processo. “De início, a gente plantava para comer e, do que sobrava, fazíamos doações. Depois, alguns amigos que vinham aqui começaram a pedir os produtos em uma cesta pra levar pra casa. Assim, começamos a colocar uma van que saía daqui toda terça-feira e fazia entregas em São Paulo e de lá o negócio tomou forma.”

Apesar de já haver uma procura relevante, quando o produtor conseguiu a certificação de alimentos orgânicos o negócio deslanchou, ao mesmo tempo que o trabalho com a Raízs tornou a produção caseira mais profissionalizada, segundo ele. “Eu nem imaginava que faria isso da minha vida”, acrescenta ele, ao contar que nasceu na França e sempre morou em cidade grande, trabalhando em escritórios, até os seus 40 anos. “Quando cheguei nessa idade, resolvi mudar tudo para conseguir passar mais tempo com a minha família e a natureza, foi aí que me mudei para a roça e comecei esse trabalho.”

Agora, aos 51 anos, ele dá continuidade à ideia de reconectar as pessoas com a comida e, por isso, a plantação tem uma variedade de plantas do bioma, as tradicionais e as que ele chama de “esquecidas”, como cenouras, beterrabas, tomates, rabanetes e couve-flor coloridos. O que começou pequeno já ocupa um terreno de 30 hectares, com uma expansão da equipe de três pessoas iniciais para 25 atualmente e colheita de quase 20 toneladas de produtos por mês para entrega em São Paulo.

Em relação à estruturação do negócio, Ralitera afirma que o planejamento é a melhor estratégia para garantir segurança aos agricultores. Foi por meio desse acompanhamento, oferecido pela plataforma da Raízs, que ele conseguiu começar a dimensionar o plantio para evitar o desperdício. “O mais importante no campo é não desperdiçar, não há nada pior do que plantar algo e não ter saída para esse produto quando ele fica pronto”, disse.

Ainda assim, no ano passado, a pandemia preocupou, mas 2020 fechou com tudo em dia na propriedade.

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