A transformação feminina invade o universo agro

28 de julho de 2020 6 mins. de leitura
Números do Censo Agropecuário do IBGE mostram que a presença feminina em postos de liderança no campo está cada vez maior

Mulher tem fama de ser detalhista, organizada e voltada às pessoas. Esse conjunto de características do universo feminino tem feito a diferença no campo. Segundo dados do último censo agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a porcentagem de mulheres que comandam fazendas no País cresceu de 12,68% em 2006 para 18,64% em 2017. Quando consideradas as mulheres que administram a propriedade rural com o cônjuge, a participação feminina sobe para 34,75%. “O campo não está atraindo mulheres; elas já estavam lá e agora estão tomando conta do trabalho”, diz Antonio Carlos Simões Florido, coordenador técnico do Censo Agropecuário do IBGE.

A informação é reforçada por outro estudo sobre o mercado de trabalho no agro feito pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq-USP. Realizado entre 2004 e 2015, o levantamento apontou que o número de homens atuando no setor diminuiu 11,6%. Enquanto a presença feminina aumentou 8,3%.

Histórias como a das proprietárias Graziela de Castro e Dulce Ciochetta retratam o lado real dessa transformação captada pelos números do IBGE e da USP.

Gaziela promoveu uma reviravolta ao organizar e digitalizar a gestão da fazenda (Divulgação)

Ordem na casa

Graziela de Castro, de 50 anos, terceira geração de uma família de cafeicultores de Altinópolis, visitava a fazenda apenas aos fins de semana. Farmacêutica com mestrado em Tecnologia de Alimentos, ela trabalhou por anos em grandes empresas. Ao decidir ser mãe, voltou-se para a área acadêmica e começou a dar consultoria para o Sebrae na área de qualidade em alimentos.

No Sebrae, ela teve contato com o grupo de cafeicultura que a inspirou. “Percebi que tinha um patrimônio na mão, uma indústria de alimentos a céu aberto”, diz Graziela. Foi quando a consultora fez uma autocrítica. “Ensino as pessoas a implantar procedimentos, processos e controles e não fiz a lição dentro da minha própria casa.”

A constatação levou Graziela de volta à fazenda, para ajudar o pai, João Roberto Pestana de Castro, a implantar uma certificação em 150 hectares de café arábica. Naquele momento, ela começou a fazer parte de um grupo da Syngenta, vinculado à Nucoffee Sustentia, uma plataforma da multinacional que dá suporte aos produtores sobre protocolos para conquistar uma certificação internacional e ter a rastreabilidade da cadeia. Não demorou muito para a fazenda ter a chancela da Utz, selo de referência no universo do café.

O processo de certificação foi o estopim para a profissionalização da propriedade. Até então, os registros de colheita e beneficiamento de café eram feitos em cadernetas de bolso, mas Graziela implantou um sistema informatizado. “Apliquei o que sempre trabalhei na vida profissional: modelos de gestão de qualidade, que apontam como detectar o problema e fazer a ação corretiva”, diz a farmacêutica, hoje à frente da administração do negócio.

O primeiro diagnóstico mostrou que a pecuária leiteira era o ralo por onde escorria a rentabilidade da fazenda. Além de não dar lucro, ocupava boa parte do tempo dos funcionários, que deixavam de cuidar do café. Aos poucos, Graziela convenceu a família a eliminar a atividade e iniciar o plantio de soja. Além disso, a filha do meio de João de Castro passou a degustar e classificar os cafés. Todas as informações são usadas para alimentar a plataforma internacional da Nucoffee. Graziela ainda desenvolveu uma marca própria, o  Café Pietá, e montou uma microtorrefação, espaço que nas horas vagas é locado para outros cafeicultores.

“Apliquei [na fazenda] o que sempre trabalhei na vida profissional: modelos de gestão de qualidade, que apontam como detectar o problema e fazer a ação corretiva”

Graziela de Castro, cafeicultora em Altinópolis (SP)

Professora por formação, Dulce faz uma gestão focada no desenvolvimento dos colaboradores (Divulgação)

Gestão de detalhes

A agricultora Dulce Ciochetta, 54 anos, foi reconhecida com o Prêmio Mulheres do Agro em 2018, iniciativa promovida pela Associação Brasileira do Agronegócio (Abag) em parceria com a Bayer. Natural do Sul do Brasil, a família da produtora juntou as economias e foi, de ônibus, para Tangará da Serra (MG) em busca de oportunidades em 1985.

Professora de formação, ela lecionou por anos até o nascimento dos filhos. Enquanto isso, Romeu, seu marido, cuidava dos negócios rurais em Campo Novo dos Parecis (MT). No início, a família Ciochetta arrendava as terras, posteriormente adquiriu a fazenda Morena, de 6.900 hectares, hoje voltada à produção de grãos e criação de gado pelo sistema de Integração Lavoura Pecuária Floresta (ILPF) associado ao confinamento nos últimos 100 dias antes do envio dos animais para o frigorífico.

Por muito tempo, Romeu foi o faz-tudo. Comprometia-se com o serviço de banco, contratava funcionário, fazia rescisão. Chegou um momento, entretanto, que a lista de tarefas não cabia mais nas 24 horas do dia. Foi quando Dulce começou a se inteirar dos assuntos de escritório até assumir de vez a gestão administrativo-financeira em 2006. “Eu brinco que na agricultura, no Grupo Morena, eu fiz graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado, porque as demandas são grandes”, diz a gestora, que coordena os 61 funcionários do grupo. Enquanto Romeu toma conta do dia a dia da lavoura.

Educadora nata, ela sempre corre atrás de cursos e palestras para sanar as dúvidas que surgem em decorrência de novas instruções normativas do Ministério da Agricultura. “O agricultor é incansável, é uma busca constante para ter uma colheita com mais qualidade, perder menos grãos, adotar tecnologias melhores, usar menos defensivos, escolher o bico certo do pulverizador”, diz Dulce.

Na chamada agricultura empresarial, o produtor deve ser extremamente profissionalizado. Ele adota ferramentas de ponta e gerencia toda a cadeia, desde a compra de insumos, semeadura da lavoura, controle e manutenção de máquinas e implementos agrícolas até a armazenagem e venda das commodities. “Isso demanda envolvimento no processo, pessoas qualificadas que se atualizem o tempo todo”, afirma a gestora.

Na questão da sustentabilidade, o Grupo Morena é uma referência. A fazenda tem um sistema de reaproveitamento de água da chuva, calhas que captam o recurso hídrico dos telhados dos barracões e levam a um reservatório para ser posteriormente usado em pulverizações ou lavagem dos equipamentos.

Entusiasta do tema, Dulce criou o Fórum Sentinelas, uma iniciativa para incentivar a formação de uma consciência sustentável. “Chamo professores universitários para falar para nossos colaboradores de temas como água, reciclagem e desperdício”, diz. Recentemente, a gestora implantou o Desafio Sentinela. “Nossos colaboradores implantam ideias inovadoras relacionadas à sustentabilidade, uma comissão julga e a melhor iniciativa é premiada.”

“O agricultor é incansável, é uma busca constante para ter uma colheita com mais qualidade, perder menos grãos, adotar tecnologias melhores e usar menos defensivos”

Dulce Ciochetta, produtora rural em Mato Grosso

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