Falta de conectividade no campo prejudica o setor

28 de novembro de 2018 5 mins. de leitura
Na opinião do engenheiro agrônomo Sergio Marcus Barbosa, idealizador do Agtech Valley, o fator explica por que muitas fazendas ainda estão na agricultura 3.0
Sergio Marcus Barbosa, do Agtech Valley: “Avanços na fazenda dependem de uma boa internet”
Vale do Piracicaba ou Agtech Valley são alguns dos nomes pelos quais a cidade de Piracicaba, localizada a 160 quilômetros de São Paulo, vem sendo conhecida. Isso porque a região ao redor do rio homônimo tem se destacado no desenvolvimento de tecnologias voltadas à agricultura. Com isso, o município tornou-se referência para startups e empreendedores do mundo agro. A campanha que deu origem a esse movimento foi idealizada por Sergio Marcus Barbosa, engenheiro agrônomo formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP) e gerente-executivo da incubadora tecnológica da universidade, a EsalqTec. Confira os principais trechos da entrevista: Como surgiu o Agtech Valley? Foi uma campanha lançada em 2016 pela Associação Comercial de Piracicaba para reconhecer a cidade como o Vale do Silício brasileiro das tecnologias da agricultura. Desde o século 19, Piracicaba já tinha uma agroindústria moderna para sua época. Em 1901, por exemplo, foi criada a Esalq, que tem formado muitos empreendedores. A cidade é o berço de empresas como a Dedini e tem uma intensa vida acadêmica, com universidades como Unimep, Unicamp e Fatec. O termo em português é Vale do Piracicaba, mas criamos uma denominação internacional: Agtech Valley. Ela se refere a um ecossistema tecnológico, que surgiu dentro da EsalqTec [incubadora de empresas da Esalq]. Como está estruturado o Vale? Não há algo organizado de forma institucional, é totalmente espontâneo. Os ambientes de inovação trocam ideias e se complementam. A EsalqTec apoia pesquisadores da Esalq que pensam em transformar suas pesquisas em serviços ou produtos. Assim, a iniciativa ganha corpo dentro da incubadora e começa a ser observada. A partir daí outros ambientes de inovação buscam os pesquisadores para compor hubs e trazer soluções para seus problemas. Este tipo decorrente explica o sucesso de Piracicaba. O que é a agricultura 4.0? O agro 3.0 é a agricultura de precisão que gera dados. A forma como essas informações são trabalhadas é o que chamo de agricultura digital. Por exemplo, eu posso gerar dados e anotá-los em uma planilha que levo para casa, transfiro para o computador e gero uma inteligência. E se eu conseguir coletar as informações no campo, enviá-las para a nuvem, processá- las e, depois, já ter o feedback? Isso é a agricultura digital, a agricultura 4.0, que demanda conectividade entre as partes envolvidas em todo o processo. Mas há lugares que não implementaram nem a agricultura 3.0. Sim. Existem anomalias em termos de tecnologia no Brasil. O pessoal do Matopiba [Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia] não trabalha no agro 4.0 como nós aqui no Sudeste. As maiores propriedades do Brasil estão situadas nestas novas fronteiras agrícolas. Essas grandes fazendas mal aplicam a agricultura de precisão, muito menos a 4.0, devido à falta de conectividade. E como resolver este gargalo? Com a entrada efetiva das operadoras de telefonia no meio rural. Dentro das áreas urbanas, elas não têm mais como crescer. No campo, há um mercado ávido por conectividade com grande potencial de expansão. Espero que este problema seja resolvido em 2019. A EsalqTec – junto com a Ericsson, a Vivo e a Raízen – está em um programa de conectividade no campo chamado Agro Iot Lab. A Ericsson trabalha com hardwares; a Vivo, com sistema de telefonia; e a Raízen traz um case claro de necessidade de conectividade para operação em campo. Como você vê a agricultura 5.0? Não mais teremos sensores para observar plantas e animais: os animais e as plantas serão os biossensores para nós. Eles vão falar o que “sentem”. Vamos ter inteligência artificial capaz de entender os sons de animais e os sinais das plantas para tratá-los individualmente, não mais em bloco. Qual é o papel das startups? Elas criam tecnologia e podem agregar valor para grandes empresas, ajudando-as a captar clientes. Essas companhias têm toda uma rede de mercado, distribuição e acesso a grandes clientes. As startups não têm estrutura para sair pelo Brasil e vender. Quem pode fazer isso são as grandes empresas, que, por meio do conceito de inovação aberta, podem ajudar a impulsionar e alavancar as startups. Serviço será o diferencial? Exato. Nas empresas de agroquímicos a molécula será uma commodity. Elas vão ter que agregar serviços. Prova disso é que grandes empresas estão indo às compras. Syngenta comprou Strider, e Monsanto – que agora é Bayer – comprou Climate nos EUA. Elas começam a apostar em startups de serviços para agregar aos seus produtos. A empresa oferecerá não só a molécula [agroquímico], mas um sistema de gestão de aplicação do produto, do melhor ponto, no melhor estágio da planta. Este será o diferencial, a maneira de conquistar clientes. Estas tecnologias chegam ao produtor? Ainda há muito a crescer, mas o objetivo é levar essas tecnologias efetivamente para o produtor rural. Não só para o grande produtor de soja ou milho, mas para o pequeno também. O cultivo de feijão e a atividade leiteira, por exemplo, são realizados por pequenos produtores e são estratégicos para a segurança alimentar. Como dar acesso aos pequenos? Uma startup não vai procurar o pequeno produtor; vai procurar o grande, por uma simples questão de oportunidade. Uma forma para isso acontecer é utilizar as organizações sociais que darão escala, porque o agronegócio é escala. A startup pode buscar uma cooperativa composta por vários pequenos produtores, porque a somatória deles resulta numa grande área que faz sentido ao seu modelo de negócios. O papel do associativismo e cooperativismo na agricultura 4.0 é fundamental.
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