“Exportamos US$ 540 milhões em julho”

31 de agosto de 2017 6 mins. de leitura
Na opinião de Antônio Jorge Camardelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), o incremento das remessas ao exterior é sinal de superação Crise é a palavra que define o primeiro semestre de 2017 para as indústrias brasileiras de carne bovina. Uma conjunção de notícias abalou as vendas nos primeiros seis meses […]

Na opinião de Antônio Jorge Camardelli, presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), o incremento das remessas ao exterior é sinal de superação

Crise é a palavra que define o primeiro semestre de 2017 para as indústrias brasileiras de carne bovina. Uma conjunção de notícias abalou as vendas nos primeiros seis meses do ano: Operação Carne Franca, delações de Joesley Batista (da JBS), retomada de impostos sobre a carne no Estado de São Paulo e a suspensão das compras por parte dos EUA. Apesar dos percalços, o mês de julho registrou aumento dos embarques de 31% e a expectativa é de um segundo semestre favorável. Abaixo, os principais trechos da entrevista. Como a operação Carne Fraca e as delações da JBS impactaram a pecuária brasileira? O que impactou foi como a Operação chegou. Tivemos embargos imediatos, vários países solicitaram informações. De março [quando foi deflagrada] para abril, a queda foi de 25%. A operação trouxe prejuízo para as exportações e desajustou a cadeia produtiva. Se a indústria não tem mercado interno e externo, suspende as aquisições de gado. Qual foi o impacto para os produtores? A indústria parou o processo comercial, o que causou represamento de bovinos e super oferta temporária, desvalorizando a arroba. Mas bastou o aumento das exportações para o preço subir. Julho foi evidenciado como o melhor mês do ano. Qual o peso dos mercados que interromperam as importações? Os que interromperam nos primeiros dias representavam 59,7% das exportações bovinas em 2016. Atualmente, os mercados ainda fechados são nove e representaram no ano passado 0,67% das exportações. As notícias negativas repercutiram em perdas de participação no mercado doméstico? Sim, porque elas abalaram a confiança do consumidor. Nós tivemos em 2014 o último ano de mercado interno bom. 2015 e 2016 não foram bons e o primeiro semestre de 2017 também não foi favorável, com o agravante da decisão do Estado de São Paulo de retirar o crédito de ICMS dos frigoríficos. Este custo de 6% foi transferido ao consumidor. A porcentagem contribuiu para que o mercado interno não tivesse retomada. Como está a suspensão das importações de carne resfriada do Brasil por parte dos EUA? Ainda não revertemos. Estamos passando por um problema de credibilidade. Segundo a avaliação americana, até que se comprove que as medidas corretivas apresentadas foram aplicadas, o Brasil está diante de um problema sistêmico. Por isso o País todo foi suspenso. Qual é a interpretação da Abiec diante da situação? As ações corretivas dentro dos frigoríficos por parte da inspeção federal já foram implementadas e todas comunicadas. Estamos aguardando uma providência do governo brasileiro, a partir da Secretaria de Defesa Agropecuária, da alteração da composição da vacina, porque os abscessos [encontrados pela inspeção americana nas carnes brasileiras] são todos oriundos da reação a um componente da vacina contra a febre aftosa, a saponina. O que a Abiec fez em relação a isso? Nós nos reunimos com a Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária do Brasil, com a Frente Parlamentar da Agricultura, com a Associação dos Confinadores do Brasil, com a Associação dos Criadores do Mato Grosso, com a Sociedade Rural Brasileira, fizemos um documento técnico e entregamos ao governo pedindo providências. E as elas passam pela necessidade de os fabricantes controlados pelo governo estabelecerem uma mudança na composição da vacina, retirando a saponina. Como anda a questão da mudança de status do Brasil para “livre de aftosa sem vacinação”? O governo apresentou um cronograma progressivo de retirada total da vacina com o objetivo de obter o status de “livre de aftosa sem vacinação”. A Abiec e outras entidades apoiam. Quanto antes o País chegar a esse status, além dos ganhos comerciais, deixamos de correr riscos de formação de abscessos por conta da vacina. O que a mudança pode trazer de benefícios? Japão, Coreia do Sul, Taiwan e Indonésia não compram carne do Brasil porque não aceitam produtos de países com o status de “livre de aftosa com vacinação”. Mas isso é uma barreira comercial travestida de técnica. O Brasil exporta carne para mais de 150 países. E a OIE, que é o órgão responsável pela saúde animal no mundo, não faz nenhuma restrição a exportação de países que têm esse status. De qualquer forma, com a abertura desses mercados estaríamos agregando aproximadamente US$ 1 bilhão a mais em vendas por ano, considerando que esses países são os que praticam os melhores preços. O Brasil abriu um painel na Organização Mundial do Comércio contra a Indonésia? Exatamente. Não tem porque a Indonésia importar carnes de outros países muito piores que o Brasil e não comprar a carne brasileira por conta dessa trava comercial travestida de barreira técnica. O que a indústria e o governo têm feito para recuperar a credibilidade da carne brasileira? Há várias mudanças em curso, deve acontecer até o fim do mês o anúncio de um novo modelo do sistema federal para cumprir e atender algumas demandas internacionais. Os EUA são um país cujo acordo sanitário só aceita exportações diante de um número mínimo de fiscais oficiais. Se o Brasil não tem, a indústria não pode vender. Foi anunciada e homologada a contratação de 300 veterinários temporários e 300 de concursos públicos. O que representou o incremento de 31% nos embarques de carne bovina no mês passado? O mercado absorveu a crise. Exportamos US$ 540 milhões e o preço médio da indústria subiu progressivamente desde março, prova que não houve abalo de qualidade. E o segundo semestre deve ser melhor que o primeiro. Nossa expectativa é superar a quantidade exportada em 2016. Quais seriam os principais desafios da indústria? A gente quer trabalhar junto com o governo na tentativa de harmonizar os tributos entre os Estados, seja no boi em pé ou na carne. O ideal seria chegar a uma alíquota única. A partir daí, a competição seria eminentemente comercial.
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