Gestão agrícola baseada em dados

16 de fevereiro de 2021 4 mins. de leitura
Isso é o que proporciona a agricultura de precisão e digital, um conjunto de sistemas capazes de coletar e processar grandes quantidades de dados que facilitam a tomada de decisão

Por Marcio Albuquerque*

Na história da humanidade, avanços significativos obtidos em uma área de conhecimento são aplicados em outras áreas. A agricultura, pela sua importância, nunca fica de fora. Foi assim, em séculos anteriores, quando a ciência modificou a forma de compreender o mundo. Por meio do conhecimento científico aplicado à produção de alimentos, a humanidade deixou de conviver com a fome frequente causada por quebras de safras. A agronomia, em conjunto com avanços em áreas como química, engenharia e biotecnologia, transformou a agricultura em uma atividade que prosperou baseada em muita ciência.

Nas últimas décadas, vivemos a revolução digital em várias áreas de nossa sociedade. As tecnologias digitais cada vez mais acessíveis e poderosas mudam a forma como diversas atividades são desempenhadas. Sistemas capazes de coletar e processar grandes quantidades de dados permitem conhecer detalhes e aspectos que nem a mais cuidadosa observação científica seria capaz de perceber. E, novamente, a agricultura não fica de fora deste processo. 

A agricultura de precisão (AP) foi o primeiro conjunto de técnicas que aplicou as ferramentas digitais na agricultura. Utilizando os sistemas de posicionamento global, como GPS, softwares, equipamentos e sensores eletrônicos, a AP permitiu que agrônomos e produtores passassem a conhecer em detalhes as variações existentes nas lavouras. As decisões agronômicas podem ser tomadas baseadas em múltiplas camadas de dados, não mais apenas com a experiência, mas com as informações sobre a média do talhão ou da fazenda. 

Com o contínuo avanço das tecnologias digitais, novas ferramentas se juntaram à agricultura de precisão. Sistemas baseados em nuvem, aplicativos em celulares, grandes bases de dados, dispositivos conectados à internet e drones foram algumas das tecnologias que começaram a conviver com as lavouras. As tecnologias também passaram a auxiliar um número crescente de aspectos da produção agrícola, desde monitorar variáveis climáticas com maior detalhamento possível, passando por avaliar todos os aspectos imagináveis na operação das máquinas agrícolas até sair da porteira, chegando na logística e comercialização das safras. A este novo cenário ampliado, cujos limites estão ainda em rápida evolução, o mercado tem chamado de agricultura digital. 

O uso de drones é um dos exemplos de tecnologias que se tornaram realidade nas lavouras

Todas estas tecnologias trazem a agricultura para um novo momento. A informação para a tomada de decisões passa a ser um insumo indispensável para a produção. Insumo central que permite o melhor uso de todos os outros. 

A tecnologia pode permitir o aumento de produtividade, a redução de custos, o uso racional dos insumos e o aumento da qualidade de produção, sempre dependendo do que os diagnósticos mostram da situação inicial e da qualidade das decisões tomadas. As oportunidades e benefícios vêm acompanhadas de desafios para os gestores. Se a tecnologia traz muitos dados, a missão de convertê-los em informações e decisões úteis ainda passa, na maioria das vezes, pela interpretação das pessoas responsáveis pela gestão agrícola. 

Além da necessidade de capacitação, este novo momento exige uma mudança de conceitos. A agricultura brasileira possui diferentes níveis de profissionalização na sua gestão. Possuímos lavouras geridas por grandes corporações até gestão pessoal ou familiar. Quando se fala em profissionalização, muitas vezes se pensa principalmente nas atividades ligadas ao escritório, como compras de insumos e comercialização da produção. A tecnologia traz possibilidades para uma profissionalização da gestão da atividade principal da produção agrícola, colocando o solo e a lavoura no centro da discussão.

Com o desenvolvimento tecnológico, é provável que parte das informações, indicações e até mesmo decisões possam ser fornecidas prontas para o gestor. Elas são fundamentais para o empresário rural continuar desafiando os limites da produtividade e produzir cada vez mais na mesma área.

Marcio Albuquerque é vice-presidente da AsBraAP** e presidente da Comissão Brasileira de Agricultura de Precisão e Digital (CBAPD).

**AsBraAP é a Associação Brasileira de Agricultura de Precisão, que foi criada em 2016 com o objetivo de contribuir para o desenvolvimento científico e tecnológico, inovação e difusão do uso de práticas, técnicas e tecnologias de Agricultura de Precisão (AP). 

Nota: Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do Estadão.

Lívia Andrade