Pegada hídrica da pecuária

30 de junho de 2016 8 mins. de leitura
Pesquisa da Embrapa quer aferir a quantidade de água consumida para se produzir um quilo de carne e um litro de leite No final de 2009, chegou ao Brasil um dado de uma instituição holandesa que afirmava ser necessário 15,5 mil litros de água para se produzir um quilo de carne bovina e mil litros […]

Pesquisa da Embrapa quer aferir a quantidade de água consumida para se produzir um quilo de carne e um litro de leite

No final de 2009, chegou ao Brasil um dado de uma instituição holandesa que afirmava ser necessário 15,5 mil litros de água para se produzir um quilo de carne bovina e mil litros para a produção de um litro de leite. A informação causou frisson no país, porque as pessoas pegavam os 15,5 mil litros e multiplicavam pelo rebanho nacional, o que gerava um número estrondoso e motivava campanhas do tipo: “Deixem de comer carne, porque a pecuária está acabando com a água no Brasil e no mundo”. Este acontecimento levou pesquisadores da Embrapa a averiguar o que estava por trás do número. “Vimos que existia uma metodologia robusta, mas que o dado não servia para o Brasil”, diz Julio Palhares, pesquisador da Embrapa Pecuária Sudeste. Os 15,5 mil litros de água espelhavam um sistema de produção no padrão europeu e americano, em que os animais ficam confinados a maior parte do tempo. No Brasil, o rebanho passa quase toda a vida no pasto. Estas diferenças levaram Palhares, no ano passado, a iniciar os estudos para calcular a pegada hídrica da pecuária brasileira. Trata-se de um projeto financiado pelo CNPQ e com parcerias com empresas públicas e privadas. Internacionalmente, a pesquisa conta com o respaldo da Water Footprint Networking, a organização que desenvolveu a metodologia do cálculo. Os dados preliminares do estudo devem sair no final do ano, a conclusão em meados de 2018. Ainda hoje, a pecuária nacional é predominantemente extensiva. São cerca de 210 milhões de cabeças, que ocupam 180 milhões de hectares, sendo quem um terço desta área está degradada. “A sustentabilidade da pecuária no Brasil está ligada ao nível de tecnologia adotado na produção. Quando eu digo níveis de tecnologia, eu não necessariamente estou me referindo ao confinamento. Confinamento é uma das estratégias, mas não é a única. As pastagens tropicais são muito eficientes, se elas tiverem bem manejadas, eu posso ter um sistema intensivo em pastagem”, diz Beatriz Domeniconi, coordenadora executiva do Grupo de Trabalho da Pecuária Sustentável (GTPS), formado por representantes de todos o eles da cadeia de valor da pecuária bovina. Neste primeiro momento, os cálculos da pegada hídrica serão realizados a partir de um sistema de produção de leite a pasto com irrigação. “Escolhemos um sistema com adubação de pastagem, um manejo nutricional intensivo para os animais, um modelo que espelha uma das realidades brasileiras e uma tendência da produção de leite no Brasil”, diz Palhares. No caso da pecuária de corte, a opção foi pelo gado confinado no período final de terminação. “Os bezerros nascem, ficam com a mãe até o desmame, depois vão para o pasto até atingir em torno de 330 quilos. De lá, seguem para o confinamento e ficam em torno de 100 dias até serem abatidos, o que dá cerca de 2,5 anos”, diz o pesquisador. Este sistema está presente nos Estados de São Paulo, Mato Grosso e Goiás e foi escolhido por ser mais fácil de ser calculado, uma vez que a diversidade de formas de produção no Brasil é muito grande. “Um bovino a pasto nos pampas gaúchos é diferente de um gado a pasto no Pará”, explica Palhares. A decisão foi iniciar o cálculo da pecuária de corte pelo confinamento, estima-se que 10% dos animais abatido hoje no Brasil venham deste sistema, e depois partir para o modelo à pasto, que tem maior amplitude no país. Muito mais do que chegar à quantia de água gasta para produzir um quilo de carne e um litro de leite, a pegada é uma ferramenta de gestão do recurso hídrico. “Ela vai mostrar onde estamos sendo eficientes e ineficientes no uso da água. Onde estamos sendo eficientes, que se mantenha, onde estamos sendo ineficientes, precisamos fazer os ajustes para com o mesmo litro de água produzir mais quilos de carne e mais litros de leite”, diz o pesquisador. Metodologia– O conceito de pegada hídrica computa toda água consumida na cadeia de produção do produto. Desde o fertilizante usado para adubar a pastagem, passando pelo pecuarista que cria o animal, frigorífico que abate e processa até a carne chegar ao supermercado. A localidade é um fator determinante. “Suponhamos que eu tenha uma fazenda com a pegada de mil litros de água por quilo de carne à beira do rio Amazonas. O consumo, em termos de impacto, é irrisório, porque eu tenho muita oferta. Mas esta mesma fazenda à beira do Sistema Cantareira, em São Paulo, vai ter um impacto muito grande, porque há um déficit hídrico ali ”, explica o pesquisador. O elemento de maior peso no cálculo é a alimentação. “Se a gente errar mão no manejo nutricional, automaticamente, nós iremos promover uma maior ineficiência hídrica e, consequentemente, uma maior pegada”, diz Palhares. “Um ponto que todos da cadeia concordam é que sistemas mal manejados são ineficientes e um problema ambiental seja de emissão de carbono ou de má utilização de recursos como água e solo”, diz Beatriz. Neste sentido, o GTPS entende que a intensificação de pecuária em pastagem é o que há de mais sustentável no ambiente de produção no Brasil. “Temos uma fartura de água, insolação e área peculiar comparada a outros países e um potencial de aumento de produtividade grande explorando melhor as pastagens”, completa a coordenadora. O GTPS defende a aplicação das tecnologias já disponíveis e acredita que, aprimorando o manejo das pastagens, é possível melhorar a ocupação da atividade, que hoje é de uma cabeça de gado por hectare. “É possível dobrar isso. Em alguns casos, colocar três, quatro animais dependendo do sistema e de quanto você disponibiliza de recursos para o manejo”, diz Beatriz. Recomendações – A Embrapa Pecuária Sudeste tem uma série de recomendações para o uso mais eficiente do recurso hídrico. O primeiro passo é conhecer as fontes de água da propriedade, bem como seu volume e qualidade. Outra medida é instalar hidrômetros, aparelho de cerca de 200 reais para aferir o consumo de água. “Se uma vaca costuma beber 60 litros de água por dia e está bebendo 80 litros, o proprietário precisa ver se a vaca está doente, com uma alimentação errada ou se há algum vazamento”, diz Palhares.
Fátima Cabral, uma das beneficiárias do programa Água Brasil, recebeu ajuda para desenvolver um sistema de adubação para as pastagens

Água em foco

Lançado em 2010, o Programa Água Brasil é uma iniciativa do Banco do Brasil (BB) em resposta à importância dos recursos para o desenvolvimento sustentável do país. Por não ser uma expertise do setor financeiro, o banco contou com parceiros externos: a Fundação Banco do Brasil, braço social do BB com kow how em tecnologias sociais; a WWF Brasil, organização conservacionista com experiência operacional de análises ambientais, e Agência Nacional de Águas (ANA), que traz os desafios governamentais e prioridades relacionados aos recursos hídricos. “Em 2014, a crise hídrica em São Paulo evidenciou o acerto deste posicionamento de busca de soluções relacionadas ao tema”, diz Wagner de Siqueira Pinto, gerente executivo da Unidade de Desenvolvimento Sustentável e Negócios Sociais do BB. No mesmo ano, o Banco Central instituiu a resolução 4.327, que estabelece a implementação de uma política de responsabilidade socioambiental pelas instituições financeiras Nos primeiros cinco anos, o Banco do Brasil desembolsou 54 milhões de reais em ações voltadas à melhoria da qualidade da água e ampliação da cobertura vegetal natural em sete microbacias brasileiras. O programa ajudou na implantação de práticas agropecuárias mais adequadas a cada realidade. 1300 produtores foram desenvolvidos neste processo, 125 envolvidos com o Pagamento por Serviços Ambientais (PSA) dentro do programa Produtor de Água da ANA. “Participo do Água Brasil desde 2013. Com a iniciativa, ganhamos sementes e colaboração de mão de obra para um sistema ecológico natural, sem química, um sistema de adubação verde, para melhorar a pastagem para o gado”, diz Fatima Cabral, produtora rural que tem 60 cabeças de gado, em 12 hectares na microbacia Cancã e Moinho, próximo ao município de Joanópolis (SP). De 2016 a 2020, o foco será o Bioma Cerrado, onde nasce boa parte das principais bacias hidrográficas brasileiras. “Vamos continuar os processos de aprimoramentos socioambientais e análise de riscos para desenvolver modelos de negócios focados no compromisso de redução de gases do efeito estufa, assumido pelo Brasil na Cop 21”, diz Pinto. O orçamento previsto nesta fase é 50,8 milhões de reais, sendo 35,8 milhões destinados ao Instituto Terra, do fotógrafo Sebastião Salgado, que desenvolve trabalhos para recuperação de mananciais na abrangência do Rio Doce, que engloba a região de Mariana (MG).    
Gostou? Compartilhe!