O desafio da conectividade no agro

25 de setembro de 2019 7 mins. de leitura
Conexão nas zonas rurais é fundamental para que o Brasil dê o próximo salto de produtividade; empresas apresentam alternativas para driblar a falta de internet no campo

Dados preliminares do Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2017 apontam que 41% das propriedades rurais no Brasil têm acesso à internet. Do total de produtores entrevistados, 63% afirmaram se conectar via celular, e 21% declararam não acessar a rede por causa da indisponibilidade.

“A falta de conectividade no campo tem o mesmo peso da falta de infraestrutura logística”, diz Alfredo Miguel Neto, vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). Essa desconexão fica ainda mais relevante quando se levam em conta as tecnologias necessárias para o próximo salto de produtividade brasileiro. Elas se juntam na chamada agricultura 4.0, que utiliza tratores autônomos, inteligência artificial e internet das coisas.

Transmissão de dados em tempo real é essencial para o produtor tomar decisões e evitar erros (Getty Images)

As mais recentes máquinas agrícolas vêm equipadas com computador de bordo e sensores capazes de captar todo tipo de informação. Mas é preciso internet para que esses dados sejam coletados e interpretados a ponto de orientar uma tomada de decisão. “A agricultura sustentável passa pelo uso de tecnologia para produzir mais na mesma área, reduzir o custo de produção e tornar o Brasil mais competitivo no mercado externo”, diz Miguel Neto.


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A solução para a ausência de internet no campo, principalmente nas áreas mais remotas, está alicerçada em três pilares, na opinião do vice-presidente da Anfavea. Primeiro: passa por políticas públicas que incentivem as empresas de telefonia móvel a levar internet para o campo. Segundo: envolve a criação de linhas de crédito privadas e públicas para o produtor financiar sua conectividade. Terceiro: engloba parcerias público-privadas.

De acordo com Miguel Neto, a necessidade da participação do governo se dá pelo fato de o campo ser pouco atrativo para as empresas de telefonia. “Enquanto nas cidades elas têm milhões de clientes, na zona rural a clientela é mais rarefeita”, diz. Empresas e grandes produtores gastam muito para colocar internet em sua fazenda, mas são poucos os agricultores com condições de fazer isso.

Iniciativas driblam a falta de internet

A Trópico é um exemplo de empresa que se dedica à banda larga sem fio para o campo. A companhia nasceu no Centro de Pesquisas e Desenvolvimento em Telecomunicações (CPqD) da antiga Telebras e hoje tem o agro como prioridade. “Nossa solução de conectividade é baseada na tecnologia long term evolution (LTE), que propicia raios de cobertura de até 30 km com uma única torre”, diz Armando Barbieri, gerente de Marketing de Produto da Trópico.

O valor de implantação é variável. “Depende do projeto, do tamanho da propriedade, da topografia, da quantidade de máquinas que precisam ser conectadas e da existência de torres que possam ser aproveitadas”, diz o gerente.

“A falta de conectividade no campo tem o mesmo peso da falta de infraestrutura logística”, diz Alfredo Miguel Neto, vice-presidente da (Anfavea)

A falta de conectividade no campo tem motivado outras iniciativas. Durante a Agrishow deste ano, oito empresas dos setores de agro e de telecomunicações (AGCO, Climate Field View, CNH Industrial, Jacto, Nokia, Solinftec, TIM e Trimble) lançaram o ConectarAgro, iniciativa para promover uma solução tecnológica aberta e estimular a expansão do acesso à internet ao campo brasileiro.

Fundada por um grupo de engenheiros cubanos em 2007, a Solinftec é uma empresa brasileira de monitoramento e gestão de propriedades rurais. Começou com serviços de telemetria para o setor de cana-de-açúcar no estado de São Paulo. “Nosso principal objetivo é entregar informações para o produtor rural ou operador da máquina usar e evitar erros”, diz Rodrigo Iafelice, CEO da companhia.

Hoje, a empresa tem diversas ferramentas, entre elas o certificado digital cana-de-açúcar, que faz o rastreamento para a certificação da origem, e o Fila Única de Transbordo (FUT), um sistema que utiliza algoritmos e sensores para otimizar o uso dos equipamentos durante a colheita. Essas soluções fizeram a Solinftec crescer rápido – já está presente em 11 países– e chegar a lugares onde não havia internet. “Não é o nosso foco, mas nos vimos obrigados a desenvolver uma solução para fazer monitoramento em tempo real”, diz Iafelice.

Serviço na nuvem

A novata DataFarm, plataforma de inteligência agronômica, é um exemplo de como a precariedade da internet no campo é um desafio para o agronegócio. Criada em 2016, a agritech tem por objetivo propiciar a melhor produtividade possível. Para isso, trabalha com um simulador agronômico.

“Na comparação com a F1, é como conhecer o potencial do carro (fertilidade e clima), as condições da pista (propriedade rural) e os obstáculos que não conseguimos controlar (adversidades climáticas)”, compara Armando Saretta Parducci, diretor de Operações da DataFarm.

Dessa forma, é possível traçar cenários e, com o uso da inteligência artificial, gerar estratégias para o produtor aumentar a eficiência. “Nosso serviço é baseado em nuvem. Quanto mais conectividade, melhor, pois os dados podem ser transmitidos de forma mais automatizada”, diz Parducci.

 “Quanto mais conectividade, melhor, pois os dados podem ser transmitidos de forma mais automatizada”, diz Armando Parducci, COO da DataFarm

No momento, para driblar a ausência de conectividade, a startup desenvolveu aplicativos para celulares e tablets que funcionam offline. “Acreditamos que, se o governo tem interesse que as empresas nacionais de serviços em nuvem prosperem, o investimento na distribuição de internet de qualidade em locais remotos deve ser prioridade”, recomenda.

Há várias possibilidades para a conectividade no campo. No curto prazo, a telefonia móvel é a mais viável, porque a internet via satélite ainda é cara. Mas, no médio e longo prazo, isso deve mudar. A boa notícia é que em agosto foi criada a Câmara do Agro 4.0, um acordo de cooperação entre os ministérios da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e da Ciência, Tecnologia, Inovações de Comunicações (MCTIC).

“Essa iniciativa visa ampliar a conectividade no campo e estabelecer ações para que o Brasil seja um exportador de soluções de internet das coisas com aplicação no agronegócio”, disse a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, durante o lançamento do acordo.

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