Blockchain, uma revolução à vista

30 de agosto de 2018 4 mins. de leitura
Conhecida por ser a base do sistema de bitcoins, a ferramenta é a promessa para desburocratizar o agronegócio e aumentar a sua credibilidade
CGG vai usar a ferramenta para o rastreamento da soja orgânica de uma de suas fazendas em Mato Grosso
A rastreabilidade dos alimentos tem se tornado uma necessidade com os consumidores cada vez mais preocupados com a origem da comida. Esse gerenciamento de processos do plantio à mesa, até então implantado e auditado por certificadoras internacionais, agora tem novo aliado. Trata-se do blockchain, banco de dados descentralizado que funciona como uma espécie de livro de registros digitais, um caderno em que as anotações foram feitas a caneta e não é possível apagar. “O blockchain é uma cadeia de blocos de dados ligados usando criptografia. Quando o usuário utiliza um programa de computador ou aplicativo para celular, as informações são quase sempre gravadas em um banco de dados convencional em um computador no local onde ele está. Essas informações podem ser alteradas e, muitas vezes, não é possível comprovar quem criou o dado armazenado. Já o registro de transações no blockchain não pode ser apagado e, junto com os dados, é armazenada a identidade de quem criou a informação”, explica Percival Lucena, pesquisador de blockchain da IBM. Existem dois tipos de blockchain: o público e o permissionado. No primeiro, qualquer pessoa pode participar, é o caso dos bitcoins. Já no segundo, há um superior que controla quem pode escrever no blockchain. “Esta autoridade checa a identidade dos membros que recebem as chaves criptográficas para fazer os registros. Se um participante tentar fraudar qualquer informação, a cadeia se quebra e o problema é imediatamente detectado”, comenta Lucena. A tecnologia que ganhou o mundo por ser a base da troca de valores entre os usuários do sistema de criptomoedas pode ser a solução para garantir a rastreabilidade, dar transparência e reduzir a burocracia no agronegócio brasileiro. A gigante IBM é uma das companhias à frente de vários projetos piloto no País. Um deles envolve a Belagrícola, grupo paranaense forte na comercialização de grãos, que aplica a tecnologia como forma de o comprador ter acesso ao histórico da commodity: de onde veio, quais foram os tratos culturais aplicados, qual é a qualidade do grão, quando foi recebido, onde foi armazenado, etc. O primeiro teste foi feito na segunda safra 2016/2017, na unidade de Ribeirão do Sul (SP), que recebeu 650 mil toneladas de milho. “A disseminação para as demais unidades ainda não se mostrou viável economicamente, porque elas têm características distintas entre si em relação à automação”, diz Rebeca Lins, diretora de pessoas e tecnologia da Belagrícola. No momento, a IBM está iniciando mais dois projetos experimentais, um deles engloba a Cantagalo General Grains (CGG) e a Solinftec, empresa que desenvolve soluções digitais de monitoramento para o campo. A ideia é fazer o rastreamento de 400 hectares de soja orgânica de uma das fazendas da CGG pesem Mato Grosso. Já o segundo projeto em andamento é uma parceria entre IBM Senior Sistemas e Coocafé para desenvolver um blockchain voltado ao controle de estoques de café da cooperativa. Internet das coisas O blockchain pode auxiliar na tomada de decisão ao disponibilizar para todos os elos da cadeia informações enviadas por sensores de umidade, temperatura, precipitação pluviométrica, etc. “Esses dados são armazenados no blockchain e podem ser utilizados como parâmetro de contratos inteligentes, que permitem transações que requerem a aprovação de vários participantes da rede, como, por exemplo, a negociação de compra e venda de produtos”, esclarece Lucena. No âmbito governamental, a tecnologia pode facilitar o processo de fiscalização de cadeias complexas como a da pecuária. “Se o processo de rastreamento for bem implantado, é possível saber a procedência do conteúdo de containers”, garante Lucena. Facilidades que podem aumentar a credibilidade do Brasil, evitando episódios como o da Operação Carne Fraca, que divulgou problemas existentes em 0,5% dos frigoríficos nacionais como se fosse realidade em toda a cadeia produtiva.
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