Sinal amarelo na vitivinicultura

19 de dezembro de 2018 3 mins. de leitura
O granizo que atingiu a Serra Gaúcha em outubro e a previsão de El Niño feita por meteorologistas podem prejudicar a próxima safra de uva, que começa a ser colhida no início de 2019
Os produtores de uva do Rio Grande do Sul – que responde por 90%da produção nacional da fruta – estão torcendo para os meteorologistas estarem errados. Boa parte deles tem apontado 70% de chance de ocorrência de El Niño nos próximos meses. O fenômeno climático provoca o aquecimento anormal nas águas superficiais do Oceano Pacífico, o que altera os índices pluviométricos em todo o planeta. Para 2019, há previsão de excesso de chuva nas regiões Centro-Sul do Brasil. “Janeiro e fevereiro são meses de amadurecimento da uva, de desenvolvimento dos açúcares, que irão influenciar na qualidade. Nossa expectativa é que não tenha tanta chuva como alguns estão prevendo”, diz Márcio Ferrari, vice-presidente do Instituto Brasileiro do Vinho (Ibravin) e coordenador da Comissão Interestadual da Uva. Até meados de setembro o desenvolvimento dos vinhedos estava excelente. Na medida certa, o inverno favoreceu a dormência dos parreirais e, quando as temperaturas aumentaram, a brotação veio uniforme. O clima nem tão seco nem tão chuvoso foi um aliado. No entanto, em outubro, a Serra Gaúcha – uma das mais importantes regiões vitivinícolas do Rio Grande do Sul – sofreu uma das piores tempestades de granizo de sua história. “Tivemos uma perda de 150 milhões de quilos de uva. A próxima safra, que estava estimada em 700 milhões de quilos, deve cair para 552 milhões”, aponta Ferrari.   ESPUMANTES EM CRESCIMENTO O impacto nos vinhedos de Adriano Callegari, produtor de uvas em Farroupilha (RS), deve ser de 10% da produção. “Minha propriedade fica em uma área não muito atingida, mas no município a quebra de safra será de 20%”, diz. Apesar da perda, o agricultor que se dedica à produção de uvas americanas – variedades voltadas à produção de suco de uva, produto que tem sido o carro-chefe das vendas das cooperativas da região – está animado. “As uvas que virão terão uma qualidade muito boa”, prevê Callegari. O setor também comemora o aumento de vendas. “Apesar de ser um ano ruim, pois perdemos um mês de comercialização devido à greve dos caminhoneiros, as vendas estão acima das do ano anterior. Tanto as vinícolas quanto os produtores estão satisfeitos”, diz Ferrari. De acordo com o Ibravin, de janeiro a outubro, a comercialização de suco de uva avançou 22%, totalizando 103,4 milhões de litros. No mesmo período, as vendas de vinhos tranquilos (finos e de mesa) registraram alta de 7,86%, somando 167,5 milhões de litros. Os espumantes apresentaram crescimento de 13,4%, acumulando 12,8 milhões de litros, e os moscatéis continuaram na curva ascendente com avanço de 28,5%, equivalente a 4,1 milhões de litros. Em relação ao próximo governo, o vice-presidente do Ibravin manifestou preocupação com a possibilidade de um acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. “Temos a esperança de que o futuro presidente não abra o mercado brasileiro para a entrada sem restrições de vinhos europeus. Os viticultores e as vinícolas de lá têm subsídios, nós não. Produzimos com o nosso capital”, explica Ferrari. Até setembro, o Ibravin estava em contato com as equipes negociadoras do acordo pleiteando que houvesse um limitador para a entrada de vinho da Europa. No entanto, o setor teme a abertura, já que, no período eleitoral, o então candidato Jair Bolsonaro deixou clara a intenção de abrir as portas para outros países. “Este acordo comercial pode nos prejudicar”, argumenta.
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