Cana é atingida pela ‘tempestade perfeita’

28 de julho de 2020 8 mins. de leitura
Entre as propriedades que produzem flores, adaptação é a palavra de ordem

Enquanto alguns setores foram beneficiados por condições externas, outros, como o da cana-de-açúcar, foram pegos no contrapé quando os efeitos da pandemia começaram a chegar. Depois de um ano de recordes históricos na produção e no consumo de etanol, com uma perspectiva de crescimento graças à implantação do Renovabio (política nacional de biocombustíveis), já no início do ano a cadeia começou a patinar com a queda nos preços do petróleo. Quando veio a pandemia, foi a tempestade perfeita. Com o fechamento da economia, houve queda imediata no consumo de etanol, devido principalmente à diminuição da circulação de automóveis nas grandes cidades, e também no de açúcar, com a interrupção dos serviços de bares e restaurantes.

“O impacto da pandemia foi diferente nos dois produtos. No etanol, fatores externos impactaram na formação de preço e ainda houve retração no consumo interno. A queda foi de 17% por conta do isolamento”, diz o diretor executivo da Única, Eduardo Leão de Sousa. “No caso do açúcar, no início do ano, os preços estavam subindo, mas aí veio o fechamento de tudo e a queda no consumo. A situação ficou extremamente complicada.” Segundo Eduardo, o setor ainda enfrenta as dificuldades, mas desde o início da pandemia as coisas amenizaram um pouco e alguns fatores, como o câmbio, têm ajudado.

As perspectivas para a safra deste ano são boas. A tendência é de que seja mais açucareira. O produto deve representar cerca de 45% do total da produção (no ciclo passado, foi de 35%). O resultado já é consequência da pandemia. “O açúcar está mais atrativo porque o impacto sobre o etanol foi mais forte. Além disso, a quebra na Tailândia e a queda na salvaguarda de importação da China de 85% para 50% abrem espaço para o Brasil. Outra boa notícia é a implantação do Renovabio, que deve estimular a produção de etanol no segundo semestre.

A abertura da economia é benéfica. Eduardo explica que a China está comprando e que a tendência aponta para uma recomposição dos estoques em vários países. Mas ele alerta que o estrago está feito. “A demanda perdida não se recupera. Isso vai representar um impacto quando olharmos o resultado da safra. Mesmo que tudo corra bem, não vamos conseguir recuperar o ano. Tínhamos tudo para voar em um céu de brigadeiro, mas acabamos entrando nessa tempestade.”

Nem tudo são flores

Setores com produtos mais sensíveis – e perecíveis – do agronegócio também sofreram fortes abalos com as medidas necessárias para conter a pandemia. Produtores de cogumelos e de flores, por exemplo, foram os primeiros a sentir os efeitos do fechamento de bares, restaurantes e salões de festas e eventos.

No passado, o produtor de cogumelos shimeji Gildo Saito, de Mogi das Cruzes, já havia deixado de produzir champignon de Paris por causa da concorrência chinesa. Com a pandemia, teve de se virar para manter seu cultivo de shimeji. Ele conta que, na segunda semana de março, com o fechamento dos restaurantes, todos os pedidos foram interrompidos. “Doamos boa parte da produção e o restante foi vendido pela metade do preço para que fosse escoado.”

Gildo, que também é presidente do sindicato rural de Mogi, diz que hoje trabalha com 55% da capacidade. Para operar no azul, precisa de algo em torno de 75%. Segundo ele, a situação é comum aos produtores da região, onde houve diminuição considerável do plantio, sobretudo das hortaliças folhosas, cogumelos, ovos de codorna e flores. “Se todos plantarem na sua capacidade normal, o mercado não vai absorver”, diz. A queda para os produtores também foi sensível porque muitos têm contratos e garantias certas com programas de merenda escolar.

Segundo Gildo, o setor de flores de corte, aquelas destinadas a festas e eventos, também foi fortemente afetado. Mas aos poucos, com as pessoas dentro de casa, foi notado aumento na demanda por flores ornamentais. Agora, nota-se a tentativa de incremento de vendas em datas especiais como o Dia do Amigo e o Dia dos Avós.

Outro fator positivo da crise foi a adaptação dos produtores a sistemas de gestão dos negócios e de comercialização por programas e aplicativos para entregas em domicílio. Gildo diz que espera que a reabertura gradual dos restaurantes possa trazer os negócios de volta ao patamar ideal. “O sentimento é de esperança de que a gente consiga se adaptar às mudanças, às novas maneiras de negociar, conseguindo contribuir com o País. O agricultor espera que chova, espera que faça sol. De um modo geral, o agricultor é muito esperançoso”, afirma.

Setor da soja projeta crescimento em meio à pandemia

Mercado externo e trabalho bem feito incrementam as vendas dos produtores

Apesar do baque em alguns setores do agronegócio, segmentos mais fortes, como o da soja, não sentiram tanto o abalo provocado pelo fechamento do comércio e pelo isolamento social imposto pela pandemia desde março. Em parte isso se explica pela orientação das cadeias produtivas, voltadas principalmente para o mercado externo. Na soja, os produtores atribuem o desempenho às condições favoráveis do plantio e ao trabalho feito nos últimos anos com os compradores. Além disso, circunstâncias externas associadas ao novo coronavírus ajudaram a manter o mercado aquecido. “Nos últimos anos foram feitas diversas missões para regiões como América do Norte, Ásia e Índia para apresentar a verdadeira imagem da produção brasileira a consumidores novos e tradicionais”, diz Bartolomeu Braz, presidente da Aprosoja Brasil.

O setor, mesmo antes da crise sanitária global, vinha expandindo seu mercado com a demonstração da legalidade, competitividade e da sustentabilidade ambiental. “Os mercados se abriram”, disse Bartolomeu. Quando os efeitos da pandemia começaram a ser sentidos, entre o fim de fevereiro e março, o trabalho antecipado mostrou consistência. “Nós já havíamos vendido antecipadamente e, com a safra imensa que colhemos, vimos que estávamos prontos para abastecer os países que demandavam nosso produto.”

Como no campo praticamente todo o trabalho é mecanizado, não houve necessidade de interrupção. O setor adotou os protocolos de segurança e continuou plantando. Agora colhe os resultados. A expectativa para o ano que vem é de mais uma safra recorde. E metade já está comercializada. “Isso garante ao Brasil continuar crescendo mesmo diante das dificuldades.”

Outro ponto positivo para os produtores é o contorno de problemas habituais, como os de logística e infraestrutura. Depois da greve dos caminhoneiros de 2018, a cadeia da soja percebeu que precisava buscar alternativas para não ficar nas mãos de um único segmento ou de um único corredor como era o caso da saída pelos portos do Sul. A abertura de novos polos de escoamento, como o porto de Itaqui, no Maranhão, facilitou as coisas. Bartolomeu diz que agora o Brasil se encontra diante de sua vocação de alimentar o mundo. “Há uma grande oportunidade para o País, principalmente no segmento de proteína animal. Todo mês estamos exportando mais e as demandas futuras estão maiores. Isso é reflexo da responsabilidade dos produtores brasileiros de cumprir a exportação”, afirma.

Queijos e leites estão chegando mais à mesa do consumidor

O setor de laticínios resistiu aos efeitos da retração econômica, fruto da pandemia da covid-19. O consumo de leite e seus derivados recuou fora de casa, mas foi compensado pela alta na demanda das famílias. Mudanças na composição da cesta de alimentos do brasileiro no primeiro semestre e o auxílio de R$ 600 do governo foram importantes para manter o desempenho positivo do setor.

Pesquisa realizada entre os dias 23 de abril e 3 de maio pela Embrapa Gado de Leite/Centro de Inteligência do Leite para acompanhar o comportamento do consumidor durante a pandemia confirma a resiliência do setor. A maior porcentagem de respostas foi daqueles que continuaram comprando a mesma quantidade de lácteos antes e durante a pandemia: 60% em queijo; 59%, iogurtes; 67%, manteiga e 61%, creme de leite. Os porcentuais das famílias que elevaram o consumo são relevantes: 27% aumentaram o consumo de queijo; 17%, de iogurte; 21%, de manteiga e 21%, creme de leite.

Os dados da Embrapa confirmam o impacto da demanda nos preços. No mercado de leite spot (leite negociado entre laticínios), o aumento foi de 46% em junho, comparado ao mês anterior. O queijo muçarela subiu 23% no mercado atacadista. Para os consumidores, esses aumentos foram amenizados, com o indicador oficial de inflação (IPCA) registrando alta de 2,33% para o leite UHT e de 2,48% para o queijo, informa relatório da Embrapa. “Com a continuidade dos auxílios de renda, esse aquecimento do mercado deve se manter, pelo menos por mais um período, permitindo que os laticínios alcancem margens de lucro melhores do que no ano passado”, diz Denis Rocha, técnico da Embrapa Leite.

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