Campeão driblou falta de chuva

28 de julho de 2020 6 mins. de leitura
Pequeno agricultor do interior do Paraná mais que dobrou média esperada pela Conab

O campeão do desafio nacional de máxima produtividade de soja do Comitê Estratégico Soja Brasil (Cesb), iniciativa para aumentar a produtividade do grão no País, mais que dobrou a média estimada pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a safra brasileira de soja. Laercio Dalla Vechia, 38, produtor em Mangueirinha (PR), registrou uma produção de 118,82 sacas/hectare, mais do que o dobro da referência média, que é de 55,5 sacas/hectare. Na sua propriedade de 250 hectares no interior do Paraná, 100 hectares são dedicados à soja. “Laercio é um pequeno agricultor e mostra que a tecnologia está disponível para todo mundo”, diz Nilson Caldas, diretor de Marketing do Cesb.

Criado em 2008, época em que o volume médio de soja produzido no Brasil estava em 43,8 sacas por hectare, o Cesb teve 140 agricultores inscritos naquela sua primeira edição. “Este ano foram 5,2 mil inscritos e eles representam 3,6 milhões de hectares, 10% da área do Brasil”, explica Caldas.

À esq., o gaúcho Eliseu José Schaedler foi o destaque nacional; à dir., Laercio Dalla Vechia, pequeno agricultor (Fotos Divulgação)

“Eu procurava ter sustentabilidade, lucratividade, não esperava ficar em primeiro lugar”, diz Vechia, participante da competição pela 5ª vez. O concurso foi uma quebra de paradigmas na vida do paranaense. “No primeiro ano, achei que conseguiria ganhar aumentando a quantidade de adubos, de inseticidas e fungicidas”, diz. Mas a estratégia não deu certo, só elevou o custo de produção e não aumentou a colheita.

O erro levou o paranaense a voltar-se às boas e velhas práticas agrícolas. “O segredo para produzir bem está no básico bem feito”, diz. O agricultor compara o dia a dia na lavoura com a construção de um edifício. “Precisamos ter um bom alicerce, que é o plantio direto, aliado à rotação de culturas e a um solo bem corrigido [adubado] e aerado”, diz.

A propriedade do agricultor é toda dividida em glebas para um melhor mapeamento da fertilidade da área. Ele faz a análise da terra de cada parte para aplicar a quantidade exata de adubo de que cada talhão precisa. Isso, juntamente com o manejo da palhada (matéria orgânica da lavoura interior, que é incorporada ao solo), permite à planta desenvolver bem as raízes e buscar água e nutrientes nas camadas mais profundas. Essa condução faz toda a diferença, principalmente quando chove menos que o necessário, como foi a safra 2019/2020 para a região de Mangueirinha (PR).

Com o solo bem preparado, o agricultor colocou em prática o aprendizado do curso de Manejo Integrado de Pragas (MIP) e Manejo Integrado de Doenças (MID) do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar-PR), que prega o uso racional dos insumos agrícolas. “Estava sempre na lavoura, monitorando o número de percevejos e de amigos naturais e inimigos da soja”, diz. Para a alegria do produtor, a quantidade de pragas não atingiu o índice necessário para aplicação de defensivos. “Pela primeira vez no Cesb, o campeão tem zero aplicação de inseticidas”, afirma o agricultor, que teve um custo de produção baixo, R$ 3.772 por hectare.

Irrigação turbinada

Já Eliseu José Schaedler, 69 anos, agricultor em Boa Vista das Missões (RS), foi o vencedor da categoria irrigado nacional e campeão da Região Sul com uma área de 55 hectares de soja sob pivô central, um sistema de irrigação no formato circular, em que uma tubulação suspensa asperge água em todo o raio da circunferência da área plantada com soja. Descendente de alemães, ele teve uma produtividade máxima de 111,93 sacas por hectare e um custo de R$ 4.776,7 – mais alto que o de Vechia por causa das despesas com energia. “É o resultado de um trabalho de dez anos, ajustando a variedade de semente, cuidando do solo, colocando os nutrientes de que a planta precisa”, diz o presidente do grupo Schaedler, que ao todo tem 1.200 hectares de soja, sendo 70% da área irrigada.

O manejo da terra é o fator mais destacado pelos vencedores. “O solo é nossa indústria a céu aberto, precisamos cuidar bem dele”, diz o paranaense Vechia. “O solo tem memória, se você tratar mal, ele não te responde”, diz o gaúcho. O descendente de alemães ainda reforça a importância da rotação de cultura, alternância planejada entre os cultivos em uma determinada área. “Não ficamos só num tipo de cobertura de inverno, intercalamos o plantio de aveia, com ervilhaca, nabo e milheto para alternar nossa palhada [matéria orgânica]”, diz Schaedler.

Estreante no Cesb, ele afirma que sua produtividade poderia ter sido melhor, se São Pedro tivesse colaborado. “Foi um verão muito quente, de pouca chuva. Nesta safra irrigamos de seis a oito vezes por mês para manter a umidade”, explica Schaedler. Segundo o produtor, irrigar dá mais confiança para trabalhar, ainda mais em safras como a 2019/2020, em que a seca assolou o Rio Grande do Sul. “Tivemos áreas de sequeiro com produtividade de 30 sacas por hectare”, diz.

Resultados são checados no campo

A grande diferença do desafio do Cesb ante outras competições pelo mundo está na transparência. “As tecnologias usadas pelos vencedores dos concursos de produtividade de soja nos Estados Unidos são segredo. Aqui, no dia seguinte da premiação, publicamos os cases com todos os detalhes do que os produtores campeões usaram na lavoura”, diz Caldas.

Isso porque o objetivo é disseminar as boas práticas para os agricultores como um todo aumentarem a colheita. Os ganhadores do desafio produtividade não recebem uma premiação em dinheiro, mas este ano ganharam a matrícula do curso Master em Tecnologia para Soja, que o Cesb está promovendo em parceria com a Elevagro, um canal de experiência e conhecimento sobre o agronegócio.

Em toda a história do prêmio, ninguém superou a produtividade alcançada por outro paranaense, Alexandre Seitz, de Guarapuava (PR). Na safra 2016/2017, o agricultor venceu o concurso com 149 sacas de soja por hectare. Para quem duvida da marca, o diretor de Marketing do Cesb esclarece: “Nós mandamos auditores para as lavouras com expectativa de produção acima de 90 sacas por hectare para termos certeza e não restar nenhum questionamento”. O Cesb é uma entidade sem fins lucrativos, patrocinado por 24 grandes players do agro, e este ano registrou um número recorde de auditorias: 909 visitas técnicas por todo o Brasil.

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