Cadeia do trigo aposta na retomada do crescimento em 2020

29 de novembro de 2019 4 mins. de leitura
Indústria de moagem prevê retomada em 2020, mas teme dependência do produto argentino
 Indústria de moagem prevê retomada em 2020, mas teme dependência do trigo argentino (Getty Images)
Os últimos anos foram duros para o setor tritícola. A crise política e econômica que abalou o Brasil afetou a indústria moageira, que desde 2016 vem tendo quedas expressivas de rentabilidade. “A gente pegou a rebarba da recessão. Ela já acabou, mas permanece nos moinhos”, diz Valnei Vargas, presidente do Sindicato da Indústria do Trigo de São Paulo (Sindustrigo) e do Moinho Anaconda. Apesar dos seguidos baques, a expectativa para o próximo ano é positiva. O setor aposta num crescimento da economia para alavancar o consumo. O Brasil não é autossuficiente na produção de trigo. Os agricultores brasileiros colhem, em média, 5 milhões de toneladas, e a demanda interna é na casa de 12 milhões de toneladas por ano. O volume de importações está diretamente relacionado à produção dos triticultores brasileiros: quando a safra nacional vem boa e o trigo tem qualidade, as compras externas feitas pelos moinhos diminuem, e vice-versa.
Leia mais > Produção argentina de trigo deve ser maior > “Não há veneno nem no prato nem o copo do brasileiro”
A previsão da trading ADM para este ano era de uma importação de 7 milhões de toneladas do cereal. No ano passado, segundo a Secretaria de Comércio Exterior (Secex), foram 6,82 milhões de toneladas. “Vamos fechar com 6,5 milhões de toneladas, um pouquinho abaixo. Isso porque houve menos demanda, e a indústria moeu menos”, diz Luciano Madrid Furlan, gerente comercial da trading. Na opinião do ex-embaixador Rubens Barbosa, presidente da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo), o cenário deve mudar no próximo ano. “O mercado vai voltar a ter fornecimento regular, sem nenhum problema.” Para facilitar a chegada de trigo a preços melhores aos moinhos brasileiros, foi implementada no início deste mês a cota de importação de 750 mil toneladas de trigo por ano (equivalente a 6% do consumo nacional em 2018) com alíquota zero.
“Se o novo governo da Argentina resolver aumentar a taxa de exportação, que hoje é de 7% e que na Era Kirchner chegou a 23%, podemos ter problemas de abastecimento”, diz Edson Csipai, executivo da Bunge
A medida, que deve entrar em vigor no próximo ano e por tempo indeterminado, faz parte de um compromisso assumido pelo governo brasileiro na Organização Mundial do Comércio (OMC) e vale para todos os países, exceto para aqueles com os quais o Brasil já tem acordo comercial, caso do Mercosul. A cota deve favorecer Estados Unidos e Canadá. O volume que exceder o limite será taxado em 10%. “Tem uma discussão de quanto a medida afetará o mercado em preço. É uma quantia pequena, mas, dependendo do momento, pode impactar”, diz Vargas, do Sindustrigo. A Argentina é o maior fornecedor para o mercado doméstico, com 80% do total de trigo importado pelo Brasil. Barbosa não acredita que as farpas trocadas entre os presidentes Jair Bolsonaro e Alberto Fernández, recém-eleito na Argentina, irão ter reflexo no suprimento nacional, como aconteceu durante o governo de Cristina Kirchner. “Não estamos com uma crise com a Argentina, mas há uma escalada de falas dos dois lados que não ajuda ninguém”, diz o ex-embaixador. “A Argentina precisa do Brasil, e o Brasil precisa da Argentina, sobretudo no setor de automóveis”, complementa. Não há um consenso entre os analistas sobre a relação entre os países vizinhos. Alguns temem que o novo presidente, que tem Cristina Kirchner como vice, repita a política de taxação das vendas do agronegócio. “Se o novo governo da Argentina resolver aumentar a taxa de exportação, que hoje é de 7% e que na Era Kirchner chegou a 23%, podemos ter problemas de abastecimento e nos veremos obrigados a recorrer a outras origens. Isso porque a produção nacional de trigo atende apenas 40% da nossa demanda”, diz Edson Csipai, executivo do Negócio Trigo da trading Bunge. Por Lívia Andrade  
Gostou? Compartilhe!