Projeto mantém a floresta em pé e gera renda com agricultura na Amazônia

11 de dezembro de 2019 5 mins. de leitura
Idealizada pelo cientista Carlos Nobre, estratégia prevê a capacitação da população e a industrialização dos produtos locais

As recentes notícias sobre o aumento do desmatamento e das queimadas na Amazônia alarmaram o mundo. A parte brasileira da floresta tropical com a maior biodiversidade do globo registrou mais de 77 mil focos de incêndio de janeiro até novembro deste ano.Para mudar a imagem da região, um projeto idealizado pelo cientista Carlos Nobre, uma das maiores autoridades mundiais sobre o clima, tem tudo para estimular uma verdadeira transformação.

Trata-se da “Amazônia 4.0, a nova bioeconomia”, uma iniciativa que busca promover a industrialização dos bioativos (moléculas orgânicas que apresentam ampla diversidade química e efeitos diversos sobre organismos vivos) disponíveis no bioma. A meta é gerar empregos, renda para a população local e um incentivo para a manutenção da floresta em pé.

Idealizada pelo cientista Carlos Nobre, estratégia prevê a capacitação da população e a industrialização dos produtos locais (Foto: Divulgação)

A iniciativa também é chamada de terceira via amazônica. “A primeira via são os projetos de conservação, que por muito tempo tiveram um efeito positivo na redução do desmatamento. A segunda é o modelo intensivo de uso dos recursos naturais adotado nos anos 70: substituição de florestas por agropecuária, mineração, hidrelétrica, gás, óleo e petróleo”, explica Nobre.


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“Já a terceira via consiste em trazer as modernas ferramentas da 4ª revolução industrial para desenvolver o potencial econômico dos produtos da biodiversidade”, diz o pesquisador. Um dos pilares do projeto são os laboratórios criativos da Amazônia. “São unidades portáteis com uma tecnologia supermoderna para capacitar as populações amazônicas para a geração de indústrias de vários tamanhos”, diz Nobre.

A ideia é desenvolver 13 laboratórios com minifábricas para diversas cadeias: açaí, castanha, buriti, babaçu, entre outras. Até o momento, foram desenhados dois laboratórios: um para as cadeias de cacau e cupuaçu e outro de genômica. O desafio agora é levantar os recursos para financiar o projeto. “Estávamos conversando com o Fundo Amazônia (que foi suspenso este ano). Agora buscamos recursos de filantropia. Já conseguimos o apoio do Instituto Arapyaú e da suíça Good Energies Foundation”, diz Nobre.

Açaí de extrativismo dá uma rentabilidade anual maior que a pecuária na região (Getty Images)

Lucratividade maior que a pecuária

Para mostrar os benefícios do projeto, o pesquisador usa os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “O açaí de extrativismo dá uma rentabilidade de US$ 200 por hectare/ano para a família. Já o gado mais produtivo da Amazônia rende US$ 100 por hectare/ano. Se for pegar a média dos pecuaristas da região, esse valor fica entre US$ 50 e US$ 70”, explica o cientista.

E a lucratividade pode ser maior, se o agricultor adotar os sistemas agroflorestais desenvolvidos pela Embrapa. É um modelo em que se faz o plantio de 400 árvores de açaí em meio a 600 da floresta por hectare. “Assim, a lucratividade chega a US$ 1.000 por hectare. É dez vezes maior que a melhor pecuária e cinco vezes a melhor produtividade da soja”, diz Nobre.

“O projeto quer atrair indústrias para a Amazônia”, diz Carlos Nobre

Hoje, o açaí movimenta US$ 1 bilhão por ano para a região, quase sem agregação de valor. O produtor vende o fruto para a agroindústria de Belém (PA), que processa, congela a polpa e a transporta. Quando chega a São Paulo, vira 30 produtos. Na Califórnia, se transforma em 50.

Segundo o cientista, o projeto quer trazer essa indústria para a Amazônia. Essas medidas têm potencial para diminuir o desmatamento e dar nova perspectiva para a população rural, sobretudo os jovens. A Amazônia 4.0 conta com apoio acadêmico.

“Está ancorada no Instituto de Estudos Avançados da USP. Além disso, a implantação dos laboratórios criativos da Amazônia será do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia [Imazon], e o conceito que vem da Rainforest Business School, uma escola de negócios sustentáveis, ficará a cargo da Universidade do Estado do Amazonas”, finaliza o cientista.

Por Lívia Andrade