Produtor mergulha na tecnologia

28 de julho de 2020 6 mins. de leitura
Pesquisa revela que adoção de ferramentas digitais entre os brasileiros está em 36% ante 24% dos fazendeiros americanos

Hoje, 28 de julho, se comemora o Dia do Agricultor, peça-chave do agronegócio nacional, setor que sustenta a balança comercial brasileira e, ano após ano, tem respondido por um quinto do Produto Interno Bruto (PIB) do País. Para entender o perfil desse produtor do século 21, a consultoria Mckinsey fez uma pesquisa com 750 fazendeiros de 11 Estados diferentes entre os meses de janeiro e fevereiro deste ano. Os representantes da amostragem produzem sete tipos de culturas. “Uma das surpresas foi o índice de digitalização. O fazendeiro brasileiro se mostrou mais aberto a novas tecnologias que seu par norte-americano. Era algo que imaginávamos, mas agora medimos”, diz Nelson Ferreira, sócio sênior da empresa de consultoria.

A adoção de ferramentas digitais entre os fazendeiros brasileiros está na casa de 36%, enquanto os americanos registram 24%. “Trata-se de uma foto pré-pandemia. As tendências de digitalização e a busca de tecnologias em múltiplos canais se aceleraram brutalmente com o coronavírus”, diz Ferreira. E esse apetite por inovação é maior entre os agricultores com menos de 45 anos, que representam dois terços dos produtores de grãos e algodão das Regiões Centro-Oeste e Nordeste. “Essa juventude é empreendedora, nasceu no meio da inteligência artificial e quando vê uma tecnologia que dá resultado incorpora rapidamente”, diz o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, hoje à frente do Centro de Agronegócio da FGV.

Os jovens têm um pensamento digital, querem comprar, vender, fazer o máximo que puderem por meio de interações online. No geral, são tomadores de decisão com um maior nível de escolaridade e um interesse que vai além do básico de uma boa gestão da propriedade rural. “O que a gente vê é que temas ligados a como se faz crédito, como pensar sustentabilidade, como pensar digitalização já eram uma tendência de crescimento e a nova geração não só acelera essa tendência, mas a leva para um novo grau de sofisticação”, afirma Ferreira.

O consultor se refere à procura incessante desses agricultores pelo que há de ponta no setor. “Na parte de crédito, eles buscam por soluções financeiras mais sofisticadas, como gestão de risco e hedge”, diz Ferreira. Esses jovens estão cientes de que a sustentabilidade é parte integrante do negócio e vão além das certificações, buscam formas de monetizar créditos de carbono a partir do que fazem porteira adentro. Na área de tecnologia, eles investem não só em máquinas, colheitadeiras e implementos agrícolas modernos para otimizar a colheita, mas na implantação de torres de celular na fazenda para usufruir da internet das coisas, dos dados gerados por sensores e softwares embarcados nesses maquinários.

Outra peculiaridade do empresário rural do século 21 é o desapego às marcas. “É uma geração mais aberta à experimentação de sementes, de novos defensivos e fertilizantes. Ao contrário dos pais e avós, que se apegavam a uma marca específica”, diz Ferreira. Esse olhar para novidades e para mais aperfeiçoamento vem dando uma nova cara ao campo.

“Eu diria que hoje alguns dos processos mais inovadores do Brasil não estão nas cidades, estão no agro”

Nelson Ferreira, sócio sênior da McKinsey

Num contexto como o atual, marcado pela pandemia do coronavírus, o papel do agricultor ganha ainda maior relevância por garantir que não faltem alimentos na mesa dos brasileiros e por ser a cara de um setor que tem sido a locomotiva da economia brasileira. Inclusive neste ano, enquanto as previsões indicam que o PIB do País deve desmoronar, o do agro tem expectativa de crescimento de 2,5%.

Esse agro hi-tech atrai não só os filhos e netos de fazendeiros, mas também tem despertado o interesse de novos profissionais, como cientistas de dados, pessoas na área de recursos humanos, tecnologia, finanças e empreendedores no ramo de startups. “É um setor que cresce quase que inequivocamente todo ano e com cada vez mais exigência de inovação, produtos e serviços novos, o que traz oportunidades para os jovens entrarem no agronegócio”, explica o sócio sênior da consultoria Mckinsey.

Rodrigo Pozzobon (Divulgação)

Gestão jovem

Rodrigo Pozzobon, 35 anos, é um exemplo desta nova geração de produtores rurais. Filho de agricultor, ele sempre se identificou com o setor e se preparou para tocar os negócios da família, que tem 3.150 hectares destinados à produção de grãos em Mato Grosso. “Fiz duas graduações: agronomia e administração”, diz. Com esse conhecimento, em 2008 ele voltou para trabalhar com o pai na fazenda e implementou uma série de mudanças. “Trocamos maquinários por outros maiores e mais eficientes e a colheita de soja que antes durava dois meses hoje leva 20 dias”, diz. Na parte administrativa, o fluxo de caixa é controlado vírgula a vírgula. “Sei centavo por centavo o meu custo de produção, o que tenho a pagar e a receber”, diz Pozzobon. Ele também faz hedge para se proteger das oscilações da moeda e do mercado. “Eu compro o adubo e vendo a soja na mesma moeda. Faço a trava para não mexer no meu custo”, explica. A fazenda tem a própria estação meteorológica e, aos poucos, vem implantando pivôs de irrigação na lavoura. Para gerir o recurso hídrico, Pozzobon aderiu à plataforma de gestão de irrigação Irriger. “Também uso drones para monitorar os pivôs, ver se não tem falha de plantio”, diz. “O produtor brasileiro tem uma idade média inferior aos de países europeus, o que nos dá um diferencial importante no ponto de vista da modernização de processos”, afirma o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues.

A nova identidade dos agricultores brasileiros

  1. Ambiciosos

Querem crescer, aumentar a produtividade, são extremamente exigentes quanto aos serviços e fazem muito bem a conta do custo-benefício de cada produto

  1. Digitais

Eles se sentem confortáveis em receber uma assistência técnica virtual e participam de market­places sofisticados

  1. Multicanais

Interagem com seus fornecedores e clientes pessoalmente, por telefone, por aplicativos de mensagem, por redes sociais, por videochat, vlog, entre outros

  1. Tecnológicos

São adeptos da agricultura de precisão, do sensoriamento remoto, da aplicação de insumos por taxas variáveis e dos dados gerados pela internet das coisas (IoT)

  1. Desapegados

Não têm fidelidade a marcas, são abertos à experimentação de novos maquinários, insumos e tecnologias